domingo, 10 de julho de 2016

algo simples para jantar

você penteia os cabelos curtos e negros e molhados pra trás.
você não é velho e nem é novo.
você toma chá com leite e lê alguns livros dos quais eu nunca ouvi falar.
você usa tênis. sempre um tênis sujo.
porem você parece sempre ter acabado de sair do banho.
você gosta de andar.
e me liga, de seu telefone com fio. aquele que era do seu avô.
me liga da sua casa dizendo que acabou de sair do banho e que vai preparar algo simples para jantar.
me chama e eu vou.
não aprendi a recusar.
eu vou.
e depois tomo vinho com você na sala de estar.
penso que tenho poucos amigos porque eu não sou lá muito de falar.
eu sou sua amiga porque você não se importa e até gosta que eu carregue esse meu caderno pra lá e pra cá.

caligrafia

durante a cerimônia de ano novo fechou os olhos ali, no terraço onde se viam os fogos de artifício e bebiam champanhe
e fez um pedido:

que neste ano eu consiga escrever com a letra mais bonita

e abriu os olhos novamente.

domingo, 20 de março de 2016

calma iria

tinha o tapete o piano e aquele jogo de xícaras de porcelana e uma janela que se estendia por toda a sala. seus braços se estendiam pelas teclas e então liszt.
eu amava te escutar sentada na poltrona, sonolenta ou com um livro na mão ou os dois. eu amava o chá que você preparava com a hortelã do seu jardim. aquele cheiro me fazia lembrar a hortinha do me avô.
eu amava não saber qual era o dia da semana quando estava ali de meias ou descalça no verão. só não era mais calmaria porque meu coração.

você era calmaria e iria. porque a calma vai

a calma não tem poltrona para se acomodar

então procuro por ela

porque eu amaria ter mais um pouco de algo tão imprevisível

não sei o que é calma

e eu insisti tanto pra você gravar uma fita com aquela música

e agora que ela está aqui num canto da estante ela é algo tão desinteressante quanto o que se deixa

num canto da estante

e eu não escutei e não quero escutar

eu sei que nunca vou acordar sentindo falta daquela janela e colocar sua música pra tocar

quinta-feira, 3 de março de 2016

não sou jesus

porque eu não me importo em tomar essa chuva

eu só não estou onde não devo estar

só não estou mais onde não devo estar

sem saber onde estou não estou

mas nem ali nem aqui nem

aí eu já não sei

porque eu não me importo em falar

que talvez eu tenha caído do barco e começado a boiar na tormenta do mar

parece até o que jesus faria

mas não me sinto poderosa em não afundar

eu não sei se quero me deixar levar

porque eu não me importo em tomar essa chuva

porque se for pra se molhar

que seja pisando nas poças do meu andar

e sobre todas essas rimas que faço sem querer

eu ainda devo aprender a

mas é como o bom e velho mar

que não controla a hora de cessar

ah que calmaria que

eu quero o meu barco de volta

domingo, 21 de fevereiro de 2016

e as luzes que oscilam

esse som quebrado em que o pianista parece correr lado a lado por todas as teclas possíveis dentro de um compasso e o trompetista bipolar berra pouco antes do prato atacar para depois se lamentar.

era um quinteto mas não vou detalhar
uma pena não poder ouvir ao vivo um dia
mas nem dá pra reclamar

já que como o jazz me movo sem parar

dentro de um ônibus que mesmo não espacial já me tirou de onde eu não queria estar
e não sei em qual cidade estou, mas vejo estrelas e letreiros de motéis em neon que raramente acendem inteiros me deixando imaginar assim tantas outras palavras
partir é estar em outro lugar mesmo que na transição da rodovia para o mar
e a música e a constelação e as luzes que oscilam não me dão motivos para fechar os olhos
logo eu pego um café preto na estrada
como é bom viajar

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

marcador/mar/marca/dor

ela me deu um marcador.
naquela noite de inverno no trem em que eu carregava um livro antigo da biblioteca do meu avô.
trabalhadores do mar, de victor hugo. capa azul marinho e marcador em fita de cetim da mesma cor.
sendo assim perdi o marcador. que ela estendeu enquanto olhava pra mim e seguia pelo corredor.
com o seu número de telefone.
eu não gosto de telefone, mas se soubesse que seria a última vez que a veria. discaria. guardaria melhor aquela tira de papel que, por timidez deixei de observar os detalhes da estampa impressa e coloquei dentro do chapéu que segurava no colo. eram flores e eu acho que petúnias. só lembro do seu nome escrito em letra cursiva com caneta esferográfica de tinta preta.
desembarquei uma estação antes e acenei por movimento de rotina.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

filme sem título

fico próxima a janela
próxima o bastante pro vapor da respiração encontrar o vidro
que do outro lado encontra a água em estado líquido
as gotas batem e viram riscos diagonais
as gotas caem à deriva
e o céu transpõe seu cinza para os olhos de quem assiste
e a cidade molhada parece um daqueles filmes gravados na década de 1940
em que a tempestade não apagava o neon nem o cigarro
sequer borrava os roteiros datilografados
a vida é frágil fora de um estúdio em hollywood
a água não