terça-feira, 6 de dezembro de 2011

ela se parece com mia farrow na década de 1960

Uso o meu sweater mais confortável, com cheiro de amaciante para me consolar. Talvez o cinza e o vermelho ajudem a disfarçar o sangue que escorre do meu peito.

Eu bem que tentei engolir tudo a seco e fugir.

Fugir para as páginas de meu livro favorito; para minha cama aconchegante; cheia de travesseiros e cobertores que aparentam poder aquecer o coração mais gelado.

Eu tentei apenas odiar e observar a chuva da janela.

Acabei não conseguindo abrir o livro.

Acabei escutando a mesma música centenas de vezes, Riding for the feeling, e encostando a cabeça na parede. Olhos em direção ao teto, porém fechados, deixando o líquido quente e salgado escorrer pelo meu rosto e lençóis.

Eu só quero me proteger de todos vocês.

Quero de volta os sonhos que reparti em fatias.

Quero viver numa cabana.

Quero viver numa cabana.

Quero viver numa cabana.

E terminar de ler meu livro.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

vapor que antes água de chuva

Quase dezembro e a noite é quente.

Saio na rua com meu shorts velhos e o tênis surrado. Eu e ela e sua bicicleta. O asfalto tem cheiro de vapor. Vapor que antes água de chuva.

Eu vou inalando essa atmosfera enquanto remo o meu tubarão sobre rodas. A rua de frente à minha é perfeita ou quase. Tem mais cachorros que pessoas e luzes de natal que piscam e repiscam.

E na esquina, na casa da esquina está. O que os meus ouvidos procuraram o ano inteiro. O solo do saxofone misterioso. Eu não conheço a melodia e a acho tão.

Ela até senta na calçada para descansar e escutar a música com mais atenção.

A gente escuta melhor de olhos fechados.

Eu continuo remando lentamente sobre o asfalto negro como o céu; que está tão limpo esta noite. Parece exalar mentol. Um sopro sobre nosso corpo frágil mas sempre cheio de expectativas.

Depois de muito voltamos para um sonho.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

quase sem vento

Não sinto vontade de dormir nas noites de verão. Uso pouca roupa e deixo a janela aberta.

Você poderia reduzir esse pouco ao nada. Penso.

Então abandono meu livro, lavo o rosto e tomo uma taça de vinho branco gelado. E tento sonhar com algo enquanto meus olhos abertos observam o céu estrelado.

suas pernas

Gosto da luz baixa que ilumina suas pernas nuas. Gosto da sombra. Do contraste. Nem as toco; só para manter essa luminosidade intacta.

Na parede vejo também a sombra de sua mão esquerda que escreve no caderno que se apóia em suas pernas. Então volto a elas. São lindas.

Fixo meus olhos por mais alguns minutos somente na sua pele.

E desligo o abajur.

novembro

Com a cabeça encostada na janela da van e com os olhos semi cerrados eu, de ouvidos semi atentos vou com vocês pelo asfalto escutando músicas FM.

E eu não quero que isso acabe nunca...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

observei com a ajuda de um binóculo a janela do quarto de pablo

Quando Pablo finalmente decidiu falar com Clara seus dedos não conseguiram discar o número do telefone.

Eles tremiam e não chegavam a completar o círculo.
Ele perdeu o número de tentativas e.

dezenove horas e alguns minutos


E o que devo fazer

se a única coisa que importa pra mim nessa vida é o recorte do telhado, dos galhos, das folhas, dos fio elétricos e suas linhas quase que exatas em que os pássaros pousam e o pôr-do-sol de encontro com a lua.

O que me importa é o encontro.
O desencontro.
Então não me acho
nesse pedaço
que encontrei.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

aquela montanha alcançava as nuvens

Você estava sem camisa com um cocar na cabeça; de mil cores.

As irmãs Casady aterrissaram no palco em cima de um corvo gigante.

O palco virou um lago e eu pude ver cavalos marinhos;de mil cores.

CocoRosie. Dinossauros. Chuva de estrelas. O arco-íris logo ali.

Como é que o corpo paralisa ao se emocionar?

Ele para e dança com você. Dança. Dança. Dança. Turn me on. E eu vou.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

pouco de verão


As horas de verão no horário de verão se rastejam se num ambiente de inverno. Olho por cima da tela do computador. O quintal. O sol batendo nas folhas verdes. Acho lindo. Embora eu não entenda nada sobre plantas. A mesa de madeira ressacada. O cinzeiro sobre. É verão. Mas as horas aqui dentro, desse lado da janela, me dizem o contrário. Viro uma duas três xícaras de café e me animo. Mas o tempo fora do meu corpo não. E não ajuda. E eu só queria um pouco desse verão pra mim.

Eu quero o verão pra mim.

Um pouco de verão.

Pra mim.

E você passa de vestido de algodão. Estampa em cores quentes. Laranja. Amarelo. E os cabelos castanhos. Ondulados.

Que se movimentam com o pouco de vento que passa por aqui nesse horário de verão.

Se movimentam para mim longe de mim.

Eu quero ver o pôr do sol longe daqui.

domingo, 16 de outubro de 2011

ida

E naquele domingo de chuva que pode muito bem ser este, sim, porque domingo vai e volta, eu deixei apenas o abajur ligado para iluminar apenas as páginas da minha HQ favorita.

E num volume razoável tocava meu disco favorito do Belle and Sebastian. E então sintonizou-se a melancolia. Tão afinada. Tão precisa. Que me deu vontade de.

Apenas observar com ajuda da luz escassa os detalhes da tinta da parede que se descasca com a umidade. Dos lençóis amassados. Da cama desarrumada e convidativa.

Das roupas no chão.

Dos títulos dos livros que não terminei de ler.

Se instalar por aqui para sempre não seria má ideia.

Aqui as horas não passam.

Como no domingo passado.

Domingo é o mesmo.

No domingo penso em tudo o que aconteceu no sábado. Mas sem vontade de voltar porque domingo não tem volta.

Se eu pudesse mergulhar nessa xícara de chá de morango.

sábado, 15 de outubro de 2011

são paulo

Minha cidade chove.
Chove e chove todo dia.
Mas ninguém fica em casa por.
E a gente escuta música triste porque combina mas é só por. Porque chove. Porque combina. Mas ninguém chora. Todos chovem.
Quem chora é quem olha da janela.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

sem pressa


Ninguém precisa de muito. E não precisa ser hoje; nem amanhã. Mas um dia seria.
Um dia de outono. Ou de céu de outono. E de frio. E de sol. Um dia. De domingo. De jardim botânico. De lago e. E grama verdinha.
E toalha vermelha quadriculada e vinho e sorriso. E tocaria Manhattan Skyline. Kings of Convenience.
Ninguém precisa de muito.
E nem precisa ser agora.
Eu não tenho pressa.
Só quero que essa.
Seja a meta de nossas vidas.
Deitar na grama e olhar pro céu.
E às vezes para os seus olhos e para os meus olhos.
E as cores se misturariam.
E o piano.
Ah, o piano...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

cadeira de praia

Naquela cadeira, de tons alaranjados, da mesma cor que o céu naquela tarde de verão, sentei-me. E olhei, com a ajuda dos óculos escuros, para cima, na horizontal e para cima. E lembrei apenas de palavras. Palavras de tons alaranjados. Lembrei de você do que você disse e sorri por mais de uma hora. O céu foi mudando de cor e tomei uma cerveja e imaginei como seria bom beijar seus lábios pôr-do-sol e por-lá-fiquei.

domingo, 31 de julho de 2011

tento um sonho

Aquele sábado era pra ser apenas um sábado de inverno. De julho, chuvoso, sem sol. Um sábado qualquer em que eu coloquei o despertador ao meio dia porque, afinal, eu queria insistir no dia que já nasceu errado. E então aquele sábado deixou de ser apenas um sábado acinzentado para ser triste apesar de tudo o que aconteceu.

Fomos ao parque e não fomos apenas nós. A qualidade da música do festival foi se diluindo com a chuva, mas continuamos lá, e não fomos apenas nós. O gramado estava encharcado de água e nós pisávamos nas poças d’água do asfalto também e não fomos só nós. Os cachorros, filhotes de dálmatas, labradores felizes e beagles sacudiam o corpo espalhando água de chuva como chafarizes ambulantes.

Vi garrafas de vinho caindo sobre as toalhas de piquenique já molhadas. Mas as pessoas continuavam sorrindo e bebendo e escutando aquela música que já não era tudo aquilo, assim como nós. Já que estávamos todos lá, porque voltar com as cestas e roupas e cachorros e garrafas, para a casa?

Então fiquei, bebi, sorri e caí. Te vi passar na velocidade da luz e não movi meus pés, só os olhos e o coração. Mas não me arrependo. Se eu estava lá era para.

A Lua surgiu no céu e me levou pra casa pra dormir e tentar um outro sonho.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

razzle dazzle rose

Foi a última música e o solo de trompete aqueceu a noite que estava fria, mas não tão fria como sua voz.

Eu estava com um copo de uísque escocês na mão e você cantava, apática, mas ainda assim de olhos fechados.

O que será que você estava pensando naquele momento?

Eu só penso naquele momento.

E eu estava tão perto mas não conseguia me aproximar de.

Você não me escutou te chamar.

E a música, já no finalzinho, me fez chorar. Um pouco. Lágrimas quentes. E me senti só.

Até que o fôlego do trompete se esgotou e todos nós fomos embora.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

no caixa da loja de discos

Ela está tão triste.
É bonito de se ver.
Mas dói.
Ela não gosta de seus colegas do trabalho. Aliás, ela os odeia.
Mas no fundo, o que ela mais quer é amar alguém.
Ela está tão triste.
Não consegue sequer tomar uma simples decisão.
Tão difícil.
Há tempos ela se concentrou num ponto fixo e nele se afundou.
Queria tocar seus ombros, chamá-la em voz baixa, com cuidado.
Queria abraçá-la e me afundar também em sua tristeza. Beijá-la.
Mas a beleza se dissolveria.
E ela é tão bonita de se ver.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

sibylle baier

Será que sou apenas eu que acho que, por trás da melodia simples de sua música se escondem mil segredos?

terça-feira, 14 de junho de 2011

saudades

Já vou logo dizendo: essa é uma carta (mesmo que o remetente e o destinatário sejam a mesma pessoa), um texto qualquer de arrependimento. Simplificando.

Heitor era vinte e dois anos mais velho que eu. Ele era dono de um sebo que, na verdade, conheci por acaso, que ficava do outro lado da cidade. Não era um daqueles típicos sebos do centro da cidade; ele era quase invisível mesmo. E eu sempre relacionei isso com a dó que Heitor sentia em se desfazer de seus livros. Ele não tinha nenhum ajudante; só ele sabia organizar aquele lugar repleto de bons livros – e alguns discos de jazz. Heitor detestava vender algo para alguém que tinha “jeito de quem vai deixar o livro empoeirando em algum canto”. Pra esses, ele fazia questão de dizer: “Pode devolver se não gostar”.

Eu estava no último ano da faculdade de cinema quando Heitor apareceu na minha vida. Eu estava escrevendo minha monografia e precisava de um livro sobre o documentário moderno da década de 1960 que só tinha ali. Como já escrevi, meu professor, que conhecia Heitor há décadas, me indicou o sebo. Fiquei interessada e disse a ele que passaria ali assim que a aula terminasse. Anotei o endereço e lá fui eu.

Fui sozinha. Quando encontrei o endereço, anotado num papel já borrado pelo suor das minhas mãos, fiquei na dúvida: aquele não parecia ser o lugar certo, não parecia sequer um lugar. Mas arrisquei. A porta que guardava uma escadaria em seu interior estava encostada apenas. Abri e, um pouco embaraçada, subi aqueles degraus que pareciam não ter fim.

Quando finalmente cheguei àquele cômodo respirei fundo e esperei três segundos antes de entrar. Estava um pouco sem fôlego e eu só queria parecer alguém em busca de um livro. Entrei. A primeira coisa que senti foi o cheiro de café, não o usual cheiro de mofo que nosso nariz costuma se deparar com esse tipo de lugar. Outra singularidade do local era a presença de um piano, bem antigo, de armário, que ficava perto das quatro, também antigas, estantes de discos. Aqueles móveis de madeira de cerejeira fizeram, por um breve momento, que eu imergisse na minha infância. A primeira casa em que morei na vida.

Aquele canto me chamou a atenção; tinha um certo charme. Não sou nenhuma especialista em jazz, mas encontrei ali alguns nomes que me agradavam como Stan Getz, Chet Baker e Sonny Rollins.

Do outro lado ficava a mesa de Heitor: o mesmo tipo de madeira dos outros móveis da loja, uma mesa bastante espaçosa que contava com um computador – não o último modelo do mercado nem nada perto disso, uma pilha de revistas dos mais variados temas – sociologia, cinema, filosofia, o exemplar do jornal diário, um cinzeiro e um maço de cigarros ainda lacrado, um cachimbo, uma lupa e claro, vários livros.
Não havia ninguém ali. Olhei superficialmente os temas dos livros que estavam a venda pelos corredores que os dividiam: história contemporânea, política, cinema, história da arte, poesia, literatura. Parei na pequena, porém interessante seção de cinema e senti o cheiro de café se aproximando de mim. Os passos lentos de Heitor não queriam me assustar; pelo menos estavam longe de soar como aqueles vendedores desesperados que nos abordam como se fosse um assalto. “Acabei de passar um café, você aceita?”.

Tirei os olhos do livro que eu estava folheando e vi Heitor do meu lado: um homem de quarenta e poucos anos, de olhos quase pequenos e bem escuros; de barba, mas comprida que o normal, mas bem aparada, da mesma cor que seu cabelo castanho claro. Ele vestia uma camiseta branca, já bem surrada, uma calça vinho de veludo cotelê e uma boina marrom. Não me lembro dos sapatos, mas isso não importa. Eu disse olá e agradeci o café, disse que não precisava se incomodar e logo falei sobre a indicação que havia recebido do meu professor.

“Somos velhos amigos”, Ele respondeu.

Contei a ele que precisava de um certo livro, que, felizmente tinha na loja.

“Por ora só preciso disso mesmo, mas voltarei aqui para conhecer melhor o acervo da loja”. Falei.

“Faça isso. Da próxima vez você prova meu café também”

Perguntei a Heitor se ele podia me dar o cartão da loja pra eu anotar o telefone, mas ele não tinha.

Não sei por quê, mas fiquei com vergonha de pedir o telefone de lá; eu peço da próxima vez, pensei.

“Mande lembranças ao Martinez”, meu professor.

Passei o resto da semana pensando numa desculpa para voltar ali.

O livro ajudou muito no meu trabalho e eu, vez ou outra, deixava-me interromper pelos meus próprios pensamentos.Por que eu havia achado aquele cara que tinha praticamente a idade do meu pai e que provavelmente passava o dia sozinho naquele sebo, interessante?
Não que eu ligue muito para essas “neuroses”. Sou relativamente nova, mas já me apaixonei por tantas pessoas... muitas mesmo.

Enfim, voltei lá na semana seguinte. Não lembro o motivo, mas não comentei nada sobre essa visita com meu professor. Aliás, não contei pra ninguém sobre o lugar; ele havia me passado a sensação de esconderijo secreto, ou algo parecido; então, sem motivo aparente, retornei a loja de Heitor.

A porta estava novamente encostada e, com fôlego suficiente dessa vez, subi as escadas. Quando entrei no sebo vi que Heitor estava acompanhado de sua xícara de café e de um casal de amigos, que, aparentemente estavam levando dezenas de livros.
Na verdade eu não quis que ele me reconhecesse naquele instante. Mas reconheceu.

“Chegou na hora certa. Toma um café com a gente?”

Respondi, morrendo de vergonha, que sim. Aí ele me apresentou para seus amigos: “Ela cursa cinema com um amigo meu”. E teve a delicadeza de perguntar meu nome apenas depois que o casal foi embora.

“Gostou do livro?”

“Sim. Já terminei a leitura. Me ajudou bastante”

E tinha lido mesmo. E me ajudou mesmo.

“Fico feliz em saber”

E fui procurar algo de interessante para ler por ali.
Acabei levando apenas um disco para não sair de mãos vazias.
“Coltrane é sempre bom”. Ele disse sorrindo, de forma tímida.
Sabia que aquele foi um comentário natural, mas mesmo assim fiquei sem jeito.
“Escuta, sábado que vem faço uma reunião aqui na loja; tocamos discos, uns amigos meus costumam fazer uma sessão de jazz... se você quiser aparecer está convidada. Pode trazer seus discos, seus amigos, quem você quiser, tudo bem?”
“Me parece interessante”

E parecia mesmo.

“Então nos vemos sábado. Aliás, você pode dar o telefone daqui? Caso eu precise encomendar algum livro?”

“Sim”

Depois de muita insistência convenci minha amiga de passar no sebo comigo. Não levei disco nenhum; acho que na verdade eu me sentia intelectualmente inferior a Heitor. Eu não via isso como algo ruim. É sempre melhor conhecer pessoas que acrescentam algo do que o contrário.

Quando abrimos a porta, que estava apenas encostada, ouvimos o som de música ao vivo. Algo meio bebop, mas não pude reconhecer qual era a música.
Ao entrarmos na loja vimos que era Heitor quem estava tocando piano. Ele e seus amigos tinham uma banda e o mais legal é que tinham suas próprias músicas.
Cumprimentamos as mais ou menos vinte pessoas que estavam lá apenas com o olhar e um sorriso tímido; pegamos uma cerveja e depois de um tempo Heitor e sua banda pararam de tocar e ele logo veio dizer que ficou surpreso de eu ter aparecido. Ele provavelmente devia pensar que eu tinha uns quinze anos e que ouvia FM, só pode ser, porque ele realmente ficou surpreso.

Porém, surpresa ficou eu com o que aconteceu com a minha amiga que simplesmente desmaiou. No mesmo momento Heitor veio nos socorrer e disse que ia pegar a chave do carro para a levarmos ao hospital. Ele pediu para um amigo fechar a loja porque não sabia se iria voltar ainda naquela noite. Descemos as escadas e Heitor carregou minha amiga até o carro.

Fomos os três em busca do hospital mais próximo. No caminho ela acordou e disse que estava se sentindo bem, mas a levamos mesmo assim.

Entrei com ela no consultório e o médico disse que tinha sido apenas uma queda de pressão e que ela devia voltar para casa para descansar.

Heitor fez questão de deixá-la em casa. Quando ficamos só nós dois no carro eu pedi que me deixasse numa estação de metrô próxima dali e ele respondeu:

“Está com fome?”

Eu demorei a responder e ele acrescentou:

“Conheço uma pizzaria muito boa aqui perto”

Não respondi de novo.

Nós nunca tínhamos conversado de verdade nem nada.

A pizzaria era pequena e aconchegante, mas lá só havia casais e acho que nós dois acabamos ficando constrangidos. Mas isso durou pouco. Começamos ali nossa primeira conversa, logo depois de fazer o pedido: vinho tinto e a pizza da casa.
Acho que essa é a parte mais importante da história mesmo.
Depois desse dia, passamos quase o tempo todo juntos.
Eu ia ao sebo passar minhas tardes lendo, escutando música e tomando o melhor café do mundo. Apaixonei-me por Heitor e fui morar com ele. Foi então que pensei que me desapaixonei.

Ele era perfeccionista demais, crítico demais e depois que passamos a viver juntos ele nunca mais quis sair para lugar nenhum. Eu mal podia assistir a um filme em paz. Ele criticava tudo. Do começo ao fim. Meus gostos e minhas ideias eram sempre inferiores e eu não queria acreditar nisso. Fora o cheiro de tabaco que impregnava pela casa toda, inclusive dentro do meu guarda-roupa. Eu não podia deixar os meus discos perto dos dele. Nem escutá-los perto dele.
Tínhamos nossos momentos. Claro. Mas eu não agüentei. Eu precisava descobrir a vida através dos meus erros e acertos para saber o que era bom ou ruim. Por mais que eu gostasse de Heitor nunca me senti totalmente a vontade em nossas conversas, que foram se tornando cada vez mais curtas.

Um dia qualquer eu acordei triste, com as pálpebras pesadas. Saí de casa bem cedo, sem tomar café da manhã nem nada; peguei um cigarro de Heitor e fui andar. Acho que andei por umas duas horas. Voltei pra casa e fiz minhas malas.
Deixei uma carta em cima da mesa. Ele já tinha ido para a loja. Nunca mais nos falamos.

Acho que agora estou apaixonada novamente por ele. Ou só estou sentindo muitas saudades.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A lista dos pequenos grandes momentos da vida de holga

Holga sabia que a história de sua vida estava prestes a terminar.

Deitada em sua cama pegou seu caderno de couro marrom e, ao invés de finalizar o romance que estava escrevendo, decidiu listar os acontecimentos que deram vida a sua vida.

Aqueles seus olhos verdes brilhavam de maneira incomum naquela tarde de pouco sol, em que, recapitulando tudo o que aconteceu, ela assistia, como num vídeo editado, os melhores momentos de sua vida novamente diante de si. Holga estava feliz.

Não vou reescrever a lista inteira aqui, mas quero citar o primeiro item da lista:
“Dedico o primeiro lugar ao momento mais precioso da minha vida. Um momento particular e que, certamente, teve importância somente para mim. O que aconteceu antes e depois disso, minha memória fez questão de apagar. Enfim, o momento mais feliz da minha vida, o que, dessa forma, dispensa qualquer outra descrição, aconteceu no dia 29 de maio de 1952 numa festa. Uma festa pequena, de aniversário; mas Natasha, a garota que eu amava e amei todos os anos da minha vida estava lá.

Eu segurava o meu drinque e conversava com ela num bonito sofá. Não me recordo o tema da conversa, mas foi a melhor conversa de todas. Eu olhava fixamente para seus olhos azuis quando, de repente, deixei cair um pouco da minha bebida em seu vestido. Pedi desculpas. Ela apenas sorriu e disse que logo secaria. Natasha também olhava para os meus olhos um tanto tristes, um tanto envergonhados; ela disse para eu não me desculpar por aquilo, enquanto descabelava minha franja com seus dedos da cor do gelo”.

murakami sob o sol

Aquele sábado de outono do começo do mês de junho estava especialmente lindo. Um vento gelado contrariava os raios de luz enviados pelo sol.

Eu só tinha uma hora para abraçar tudo aquilo. Dei início ao meu horário de almoço e vi que era desperdício ficar comendo uma comida requentada dentro daquela cozinha triste e sem a luz do dia.

Fui até a praça, ali, do lado. Gosto daquela praça porque no centro há uma árvore centenária, bicentenária, não sei, mas gosto de me sentar embaixo dela e olhar os raios solares tentando, com muita dificuldade, ultrapassar as folhas.

Mas naquele sábado a árvore permitiu. Eu carregava embaixo do braço Minha Querida Sputnik e o sol bateu diretamente na direção do livro no momento em que eu abri na página marcada, como se fosse uma luminária particular.

Eu já devia ter apenas trinta minutos restantes até voltar ao trabalho, mas meu corpo permaneceu sob a mesma temperatura até o final do dia e as gargalhadas das crianças que ouvi na praça ecoaram até a hora de dormir.

sábado, 4 de junho de 2011

manhã

Olhos fechados pela manhã. Não importa aonde eu esteja. Nesse caso no metrô. Nesse caso num sábado frio a caminho do trabalho. Olhos fechados pela manhã que pra mim é madrugada ainda crua. Narinas abertas. Estou sentada num banco verde, daqueles pra uma pessoa só. Eu prefiro estar sozinha. Principalmente no metrô e pela manhã. Sinto que tem alguém em pé na minha frente. Não me atrevo a abrir os olhos. Não tenho curiosidade a não ser. Pelo perfume. Aquele perfume que também era o seu. Engraçado. Deixei de gostar de você há tanto tempo mas ainda não aprendi a deixar de gostar de seu perfume e sim, isso me faz tornar a gostar de você de uma forma ou de outra. Resolvo então deixar minha vista descansando e preservar a memória e alimentar dentro de mim a ilusão de que era você quem estava lá.

terça-feira, 31 de maio de 2011

olhos gelados mas vermelhos

Com Moon Love, de Chet Baker, te digo adeus.

o amor mora dentro de uma caixinha de música

Sem dúvida alguma esse foi o domingo mais frio do ano. Mas não pra todos.

Eu estava na livraria coberta de agasalhos e com os dedos das mãos quase roxos quando meu dia foi salvo.

O casal mais simpático do mundo entrou ali. Ela era alta, magra e morena. Ele, gordinho, mais baixo, loiro. Mas eles resolveram acabar com todas suas diferenças através de um gesto curioso. Para muitos, cafona, não pra mim.

Ambos vestiam camisas idênticas, de flanela, xadrez, vermelha, de lenhador mesmo.

Fiquei sem graça de perguntar por que eles estavam vestindo aquelas camisas, até porque, a princípio, não sabia se eles eram realmente um casal de namorados. Podiam ser qualquer coisa e podiam estar fazendo aquilo por qualquer motivo.

Foi então que meu colega se atreveu a fazer a pergunta que acabaria com o mistério. Ela lhe contou que ela mesma fez aquelas camisas para que fossem usadas como uma “prova de amor”.

Aquilo mexeu comigo. Prova de amor mesmo. Foi o que ela disse. Aquele frio pedia um cobertor inteiro de flanela, não apenas uma camisa.

Eles deviam estar morrendo de frio, mas não mais do que eu.

Levaram um livro, que não consegui ler qual era o título, e uma caixinha de música que tocava La internacional.

domingo, 8 de maio de 2011

operação andaluz

Na verdade o momento de pavor só veio à tona minutos antes de aplicarem o colírio anestésico no meu olho esquerdo e entrar na sala de cirurgia.

Durante a semana minha irmã me dizia pra assistir Um cão andaluz para ir me acostumando com a ideia de entrar na faca e eu achava mesmo engraçado. Como já disse, eu não estava nervosa pra valer.

Se tem uma coisa que me deixa mal de verdade é perceber que não estou conseguindo “tirar proveito” da vida. Nesses últimos dias essa sensação só tem piorado, mas ainda bem que pelo menos ainda me resta a percepção. O que fiz? Arranjei um espaço no meio das incontáveis horas de estudo para ler pela terceira ou quarta vez O apanhador no campo de centeio; parece pouco, não pra mim.

E no fundo bem que pensei: talvez seja a última leitura da minha vida, meio que brincando, meio que dramatizando, mas sendo sincera. Levei comigo o livro no dia da cirurgia. Às vezes chego a pensar que Holden Caulfield é a única pessoa que amo nessa vida; ele tinha de ir comigo enfrentar aquela situação.

Na sala de espera tinha mais uma pessoa com o mesmo nome que o meu, quando a chamaram, seu marido pediu para que aguardassem um minuto, pois ela tinha ido dar “uma voltinha”.

Fui chamada logo em seguida. Subi as escadas em direção à sala de espera das pessoas que iam fazer cirurgia. Essa fulana chegou atrasada, ao lado de seu filho e de um saco gigante de batata frita. Cada um se refugia à sua maneira. Mas achei aquilo um tanto nojento e comentei com a minha mãe, que respondeu brincando: vai que essa é a última refeição dela. Me assustei e continuei com meu livro. Holden estava andando pela Broadway e dizendo o quanto odiava cinema, aí me chamaram.

Minhas mãos começaram a suar frio. Aplicaram o colírio no meu olho esquerdo.

Perguntei: Esse é o colírio anestésico? O enfermeiro confirmou que sim, então pedi que aplicasse mais um pouco porque o líquido não havia caído nos meus olhos. Eu não queria sentir dor. Não queria sentir nada.

Sentia medo, muito medo. Eu sou medrosa mesmo. Não posso nem sentir o cheiro do álcool que esteriliza aquelas drogas de ferramentas que já quero desmaiar. Meu corpo estava gelado. Eu devia estar morta. Daí mandaram-me sentar naquela porcaria daquela cama. Colocaram uma luz bem na minha cara que eu já pensei que ficaria cega só com aquilo. Mais colírio. Fechei os olhos bem apertado. O assistente daquele médico com cara de assassino percebeu o quão nervosa eu estava e segurou a minha mão durante toda a droga da cirurgia. Eu apertei tanto sua mão que acho que ele deve ter se arrependido de ter sido gentil comigo. Não importa, porque pra ele aquilo durou no máximo cinco minutos.

Saí da sala sem me despedir dos médicos nem nada, segurando uma receita médica de um colírio que devia usar por 10 dias. O mais idiota disso tudo é que não sei abrir um olho só, nunca pisquei pra ninguém, eu não sei mesmo e, como estava com o tampão no olho operado, tive de sair com os dois olhos fechados, me apoiando em minha mãe e no corrimão da escada.

Quando desci as escadas comecei a sentir a típica tontura que se sente ao tomar, por exemplo, uma injeção. Pedi pra sentar novamente. Uma perna gelada, a outra pegando fogo, o coração na garganta, minha mãe disse que eu sussurrei, mas ouvi minha voz mais alta do que nunca dizendo que ia desmaiar. E desmaiei. Meu pescoço caiu pra trás e isso deve ter durado uns sete minutos. Mas quando acordei não podia abrir os olhos e não sabia onde estava. Que terrível foi aquela sensação.

Enquanto isso os outros estavam saindo e entrando da sala de cirurgia sorridentes. Comendo batata frita ou qualquer coisa que o valha.

terça-feira, 26 de abril de 2011

tulipas

Aquele foi o primeiro apartamento que eu aluguei na minha vida. Eu tinha vinte e quatro anos e um emprego ruim. Não tão ruim ao ponto de não conseguir me virar, ou morrer de fome, ou acabar na casa dos meus pais pra sempre. Eu trabalhava numa livraria. Eu era teoricamente uma vendedora; mas fazia de tudo um pouco: cadastrava no sistema os títulos que chegavam, ajudava a arrumar o estoque, dava dicas dos melhores livros, das melhores edições, dos melhores preços, aos clientes.

Eu havia terminado a faculdade de letras há quase um ano e não sabia ao certo o que iria fazer com o meu diploma. Desde então não estava mais estudando, teoricamente, já que amo ler e.

Pela primeira vez na minha vida eu estava morando sozinha. Decidi isso porque não me acho interessante ao ponto de dividi-la com outra pessoa. Tinha três amigos que também moravam longe dos pais; então alugar um apartamento só pra mim parecia ter sido a melhor coisa a se fazer.

Assim como hoje eu estava solteira, não que eu me importe...

Meu apartamento era muito pequeno, então meu único animal de estimação era um peixe beta, o Ricardo. Ele vivia num aquário redondo e fácil de carregar, dessa forma, eu o levava comigo para todos os cantos da casa: sala, quarto, cozinha.

Eu nunca havia dado muita importância a decoração, mas depois que passei a viver sozinha, passei a pensar sobre. Comecei com uma tarefa que me parecia ser a menos difícil: flores. Como não gosto de nada muito artificial passei a frequentar a floricultura aqui perto uma vez por semana.

Um moço de avental azul, que assim como eu, usava óculos e diferente de mim, tinha um bigode engraçado, me atendeu.

- Posso ajudar a senhorita?

Contei a ele que eu gostaria de saber mais sobre flores e ele me ajudou; ele era a pessoa adequada para me ajudar nisso, já que trabalhava lá e, como me contou, estudava paisagismo, mas no fundo achei que ele me deu uma dica um tanto pessoal.

- Gosto de tulipas.

Foram as que eu acabei levando. E as levo até hoje.

Não sei se devo contar, mas acabei me apaixonando por aquele vendedor, o Mateus.

Tentei esconder aquele sentimento que tomou conta de mim, mas eu passei a frequentar até mesmo a padaria em que ele tomava café da manhã antes de ir para a floricultura só para dizer “oi”.

Depois de alguns dias passei a pedir tulipas pelo telefone e Mateus as trazia na porta de casa. Desde o início o porteiro do prédio deixava-o subir até meu apartamento, pois achava que ele era apenas um namorado maluco que me mandava flores toda semana.

Como sempre, tínhamos muito o que conversar. Acabei deixando-o entrar em casa depois de algumas semanas. Assim ele poderia ver como estavam as tulipas e até mesmo tomar chá de maçã comigo. Ele também gostava de colocar um pouco de canela.

Até que um dia ele apareceu com um pão doce recheado de maçãs acompanhado das flores. E. Bom. Vou logo dizer: nos beijamos nesse dia e começamos a namorar. Passamos a sair pelo centro da cidade para tomar sorvete, a ir ao cinema, a falar mais sobre nossas vidas.

No meu aniversário ele me escreveu um poema. Um poema sobre mim. Com o meu nome.

Acho que até Ricardo gostava de Mateus.

Mateus era tão cuidadoso que vez ou outra trazia ração para Ricardo, que já havia ganhado pedrinhas coloridas para seu aquário também.

Sexta-feira passada liguei na floricultura e quem atendeu o telefone foi dona Matilde. Para não haver nenhum mal entendido não pedi para falar com Mateus, apenas disse: “quero minhas tulipas de sempre”.

Pouco depois o porteiro me ligou dizendo que era da floricultura. Eu achei engraçado ele não dizer que era o Mateus. Era o marido da dona Matilde, seu Antônio. Eu o cumprimentei sem jeito, e para não parecer um mal entendido, apenas paguei as flores e me despedi.

À noite liguei para Mateus e ele não atendeu ao telefone. Liguei no sábado, no domingo e como eu não sabia o endereço de sua casa, tive de esperar até segunda-feira para ir até a floricultura.

Ele não estava lá.

Tive que perguntar por Mateus. Não agüentava mais aquele desespero todo.

- Ele não trabalha mais aqui, querida.

Eles acabaram contando-me que ele se demitira, que havia ido embora da floricultura na quinta-feira, mas não sabiam me dizer por quê e nem para onde ele foi.

Nós ainda tínhamos conversado na quinta-feira de manhã na padaria...

Tudo o que consegui foi o número do telefone da casa dos pais dele. Tomei coragem e liguei. Perguntei se sabiam onde é que ele estava.

Alternativa A: Ele estava na casa de sua esposa;
Alternativa B: Ele estava morto;
Alternativa C: Ele viajara para o exterior;
Alternativa D: Ele estava dormindo;
Alternativa E: “Vou chamá-lo, aguarde um instante”;

Desliguei o telefone.

domingo, 24 de abril de 2011

teclas, pouco ruído

Já faz anos e minha barba cresceu. Mas aquela história ainda possui o frescor de uma conversa pós-cinema. Falo sobre como se tivesse sido há apenas três minutos. A memória não falha.

E continuo almoçando no mesmo lugar. Na mesma mesa, quando dá.

E não tenho medo de assistir ao mesmo filme.

E sua camisa marcada com seu perfume está envolta da cadeira em que me sento para escrever isso aqui.

E você nunca lerá. E nem quero que.

Melhor eu lavar o rosto.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

antes mesmo do almoço

Segunda-feira de manhã de outono de abril que mais parece de tarde de verão, de dezembro, de final de dezembro. Eu saio de sua casa antes mesmo do almoço. Nossa conversa foi tão agradável que. Resolvo tomar um sorvete enquanto aprecio uma exposição de fotografias. Baunilha, chocolate, fotojornalismo. Antes mesmo do almoço. E foi tão agradável.

Às vezes gosto de andar só pelas galerias, de apreciar as vitrines das grandes livrarias, sem pressa sem esperar.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

praça da república - são paulo

Te amo há tanto tempo e lembro muito bem que a primeira vez em que te liguei para marcarmos nosso primeiro encontro foi num orelhão da Telesp.

da janela


Parece que todo mundo parou de fazer o que estava fazendo para poder apreciar aquele céu amarelo das cinco e pouco da tarde que estampava um arco-íris. Segunda-feira de abril e um arco-íris bem na janela do meu quarto. A última vez que vi um desses foi num sonho. Abril tem disso. E eu não quero que acabe...

sobre sete anos atrás

Ternura tergal terça-feira.

terça-feira, 12 de abril de 2011

pijama de patinhos

Eram quase três da tarde quando Nicolas acordou. Sem tirar o tampão de seus olhos, estendeu suas mãos em direção ao criado-mudo e pegou alguns soníferos, depois tomou um gole d'água, virou para o lado direito, contra a parede, e voltou a dormir. Enquanto isso, sua mãe terminava de almoçar, em companhia do telejornal. Ninguém mais parecia se importar, esta rotina solitária havia começado há quase um ano.
A garagem estava cheia de telas pintadas por sua mãe, que se considerava uma “ex-artista plástica”. Em seu quarto, não se via mais janelas, não havia claridade alguma, apenas um sonho. O sonho de um garoto que não queria ser despertado.

Nos últimos anos, Nicolas havia feito alguns amigos, a maioria da faculdade de cinema, da qual desistiu de cursar quando estava no segundo ano. O pai do velho garoto falecera há cinco anos. Viviam de sua herança e da aposentadoria de sua mãe. Ele não pensava em trabalhar, já não se importava com o futuro, com a carreira que iria seguir, ou o que iria comer no jantar.

Como qualquer um, ele saía quando algum amigo seu ligava, às vezes ia para o cinema, ou algum pub, passar a noite adentro, nada demais. Mas o que ele mais gostava era de comprar pijamas, presentes para sua namorada e visitar as farmácias da redondeza. Também gostava de tocar piano, sua mãe adorava ouví-lo, mas o instrumento estava todo empoeirado, já havia um tempo.

- Filho, está com fome?

- Não. Perdi o sono.

- Já estava na hora. Vou comprar alguns livros hoje, quer me acompanhar?

-Tudo bem, assim passo na farmácia.

- Você está mesmo viciado nesses soníferos.

- Amo você.

- Vá tomar um banho, enquanto eu me troco.

Foram à livraria, foi divertido até. Sua mãe sugeriu de irem tomar um café, mas Nicolas preferiu tomar um sorvete. Assim, não perdia o sono à noite.

- Você poderia me acompanhar mais vezes, já que não faz questão de sair com seus amigos, e com sua namorada, que por sinal, você nunca levou lá em casa.

- Pode ser.

- Mesmo com essa expressão de desânimo, você parece estar muito bem hoje.

- Nem tanto. Não dormi direito.

Nicolas comprou três livrinhos ilustrados do Charlie Brown e um CD do Camera Obscura, Underachievers Please Try Harder, na livraria. Depois de terem tomado sorvete, passaram na farmácia, onde ele comprou duas caixas de soníferos, apresentando uma receita médica que sua mãe desconhecia.

Faltava apenas uma semana para seu aniversário, dia vinte e um de novembro. Nicolas iria completar vinte e dois anos.
Quando estavam voltando para casa, sua mãe comentou:

- Já planejou o que vai fazer no seu aniversário?

- Acho que sim

- Posso saber o quê?

- Vou passar o dia com minha namorada.

- Por que você não a convida para jantar em casa, com seus amigos?

- Já chega.

- Quer alugar um filme?

- Não.

A mãe de Nicolas bem que tentava não palpitar ou se intrometer em sua vida. Mas o velho garoto estava cada vez mais isolado. Fazia quase um ano que estava namorando e ela nem sequer sabia qual era o nome da garota. Não desconfiava que ele estivesse inventando a história, nem que ele fosse gay, pois ele vivia comprando flores, perfumes, vestidos e uma porção de bugigangas de presente a ela. Às vezes, quase nunca na verdade, eles saíam. Era sempre ele que ia buscá-la em casa, ou marcavam de se encontrar em algum lugar. Ela não aparecia sequer na porta de sua casa. Os amigos de Nicolas achavam tudo isso muito estranho, o velho garoto não falava sobre ela com ninguém, e não fazia questão de dar satisfação alguma.

Esta era a segunda namorada de toda sua vida. A primeira ele conheceu quando estava na faculdade, chamava-se Bianca. Eles não se falaram mais, depois que Nicolas foi embora, perderam o contato.

Quando alguém lhe perguntava onde ele conheceu sua atual namorada, Nicolas respondia "Em meus sonhos". Depois disso, ninguém dava continuidade no assunto.

Mas esta era a verdade. Ele jamais mentira.

Há dez, onze meses, Nicolas sonhou estar numa cidade que ele jamais estivera até aquele momento. Curioso, porém amedrontado se refugiou no lugar mais próximo e mais familiar que encontrara ali. Entrou num café e pediu um café gelado. Havia apenas uma mesa vazia. Sentou e começou a folhear uma revista de celebridades que estava sobre a mesa quando uma garota entrou: seus olhos escuros procuravam por uma mesa. Nicolas era extremamente tímido, mas por um impulso desconhecido ele olhou nos olhos da garota e disse:

- Se você quiser se sentar aqui não tem problema, estou só e logo vou embora.

E o que para ele era inesperado aconteceu:

- Eu aceito. Obrigada.

- Nunca estive aqui, sabe onde eu posso pegar um ônibus?

- Há uma praça aqui em frente, e o ponto de ônibus fica ao lado direito do coreto.

- Obrigado!
Eu não conheço esta cidade...

- É. Nunca te vi por aqui.

Nicolas se esquecera de tomar o café. Olhava para aquela linda garota ruiva de cabelos compridos e levemente ondulados de jaqueta marrom e camiseta listrada e não prestava atenção em mais nada.

- E você, para onde vai?

- Vou assistir a um filme, comprei o ingresso, e como ainda é cedo, resolvi tomar um chá...

- Gostei deste lugar, voltarei aqui mais vezes. Posso saber qual é o seu nome?

- Natasha.

- Aceita tomar um café comigo amanhã?

- Só se for neste horário. À noite viajo com uns amigos...

- Pode ser aqui mesmo então?

- Sim.

- Agora vou pra casa. Minha mãe deve estar preocupada. Estou fora da cidade e ela nem sabe.

Nicolas se aproximou de Natasha para beijar seu rosto e ela sussurrou em seu ouvido: até amanhã.

Quando o velho garoto estava correndo em direção ao ponto de ônibus, acordou. Daí em diante Nicolas ficou obcecado por Natasha, a garota mais real da sua vida que vivia numa cidade que não existia. Ao invés de tentar esquecer aquilo Nicolas deixou de lado todos os livros de literatura e estudos do cinema de lado e embarcou numa leitura sobre o mundo dos sonhos, da psicanálise e aprendeu a controlar seus sonhos até conseguir encontrar a garota sempre que quisesse.

Milhares de soníferos, dezenas de pijamas, presentes espalhados pelo quarto completamente escuro, onde nada se ouvia. Nicolas isolou todo o som daquela realidade infeliz e entediante e desejou dormir pra sempre. Ninguém poderia entender tal desejo. Todos achavam que ele estava em depressão, enquanto ele vivia a mais bela história de amor de sua vida.

Ele acreditava que a cidade e em que encontrara Natasha era real, porque lá havia uma condução que ia até a rua da sua casa. Mas toda vez que Nicolas ia pegar ônibus, ele acordava ou algo o impedia. Na verdade, ele ficara preso ali desde a primeira vez em que sonhou com aquele lugar e ficou para tomar um café, mas não queria pensar sobre isso. Acordado estava fora, estava longe.

A semana de seu aniversário chegara. Sua mãe sugeriu mais uma vez em dar-lhe uma festa.

-Não quero nada, já disse.

- Não aguento te ver deste jeito, Nic.

- Faça o que achar melhor então.

-Tudo bem, boa-noite!

-Boa-noite.

O telefone tocou:

- Nicolas, está me ouvindo?

- Oi, é o Álvaro, o que acha de sairmos para beber um pouco e jogar sinuca?

- Melhor não.

- Ora, seu aniversário é neste sábado, vamos comemorar, podemos sair para dançar depois. O Benjamin, a Stella e a Sofia também estão aqui te convidando. Você faz falta!

- Está bem, venham aqui em casa me buscar.

- Já estamos a caminho!

Nicolas desligou o telefone e foi tomar um banho.

Passaram a noite fora, todos juntos, mas o velho garoto tinha uma certa dificuldade em se divertir. As músicas eram as mesmas como sempre, as pessoas eram as mesmas também. E ele tão sóbreo, mesmo com seus pensamentos longe dali. Talvez ele pudesse sorrir se Natasha estivesse lá.

"Bem que ela podia estar sentada no balcão do bar" pensou.

Mas ele estava só. Sem se despedir de seus amigos foi embora às quatro e vinte da madrugada. Pegou um taxi. Parou numa farmácia, comprou uma caixa de soníferos e uma garrafa de água. Não podia esperar chegar em casa. Sem medo de misturar o remédio com a vodka que não provocou efeito algum, Nicolas pegou alguns comprimidos e engoliu. Pediu um cigarro ao taxista, abriu o vidro da janela, e suas lágrimas correram contra o vento, contra aquela cidade que não dormia, contra seus pensamentos e todas aquelas pessoas que não significavam nada para ele, deixando seu rosto úmido e gelado.

Quando chegou em casa tomou um banho demorado e preparou um chá de camomila. "Espero que ela não esteja dormindo". Ele já nem pensava naquela situação contraditória de ter que dormir para encontrar alguém acordado. Entrou em seu quarto, trancou a porta e logo adormeceu.

- Nicolas! Estava preocupada, procurei por você em todo lugar, por onde esteve?

- Saí com uns amigos, mas senti sua falta e vim pra cá...

- Agora preciso ir, já é tarde!

- Volte comigo então!

- Não posso, meus pais devem estar preocupados, estou te esperando aqui há horas...

- Preciso que fique comigo.

- Aonde nessa hora da madrugada?!

- Pode ser na praça do ponto de ônibus, ou na ponte do lago, no parque, qualquer lugar. Não quero mais perder você.

-Você nunca me perdeu, mas eu realmente preciso ir. Se você realmente gosta de mim, vai entender.

- Não entendo absolutamente nada. Não entendo por que você não pode ir comigo, não entendo como fui parar nesta cidade que nem sequer tem nome. Não entendo porque só eu posso te ver e agora não posso voltar à minha antiga vida e te esquecer, como num sonho normal.

- Não fique assim.

-Estou cansado. Acho melhor pegar aquele ônibus para minha outra vida. Aquele ônibus que nunca apareceu.

- Até amanhã, então.

- Tchau.

Nicolas acordou umas sete da manhã. Tentou dormir novamente, mas não queria pensar em Natasha nem em ninguém. Queria descansar. Mais soníferos.

Resolveu ler os livrinhos do Charlie Brown para se distrair, pensando como seria confortável ser apenas um personagem daquela história em que nada de mal poderia acontecer. Seu personagem preferido era Linus Van Pelt.

Saiu da cama, tomou mais um banho e, ao colocar um pijama limpo decidiu ficar apenas de samba-canção e uma camiseta regata branca. Foi até a cozinha, onde estava sua mãe. Deu-lhe um beijo na testa. Ela sorriu.

Faltavam apenas dois dias para seu aniversário. E ao contrário do que ele planejava há um dia, ele não passaria com Natasha.

- Vamos tomar um café?

-Claro que sim querido, enjoou de tomar chá?!

- Sim.

- Então vou preparar um café para nós dois.

- Te amo.

- Eu também filho!

- Notei que você saiu ontem a noite, como foi?

- Não muito bom. Mas as coisas vão melhorar.

- E sua namorada virá aqui no sábado?

- Não tenho mais namorada.

- Bom, acredito que você fez a coisa certa. Você não estava se divertindo mais depois que começou a namorar.

- Está pronto. Quero sem açúcar.

- O que acha de comprarmos umas roupas novas?

- Tenho tantos pijamas que já não cabe mais nada no meu closet.

- Se desfaça de alguns, aquele de patinhos, por exemplo. Vamos, tome este café, vai te animar!

-Tem razão. Vamos.

Nicolas foi dirigindo até o shopping. Comprou um tênis, uma jaqueta, duas calças, quatro camisas e um chapéu. O que ele mais gostou foi do chapéu. Sua mãe nem tanto, mas estava feliz em estar ao lado de seu filho que não se importava com nada mais na vida. Naquela noite Nicolas decidiu ficar acordado o máximo de tempo que conseguisse. Foi à farmácia e comprou algumas caixas de Benflogin. Ligou para um amigo da época da faculdade, Felipe, e perguntou se havia como ele arranjar cocaína para ele. Ele tinha uma boa quantia, e estava disposto a vender para o pobre Nic.

Quando eram mais ou menos duas horas da madrugada, o velho garoto encontrou uma amiga, Lívia. Eles foram até um bar encontrar Felipe. Aquela quantia o faria ficar acordado por uma semana. Depois ele daria um jeito de conseguir mais, ou então, encontraria outra alternativa.

Como Lívia e Nicolas quase não saíam juntos, resolveram virar a noite numa festa. Ele gostava de Lívia. Era uma garota interessante. Cabelo loiro, não muito comprido, quase que curto; usava óculos e tinha olhos azuis. Era Linda. Lívia era jornalista, trabalhava como redatora em um site e escrevia em sua coluna sobre música.

Há muito tempo Nicolas não se sentia tão bem. Estava bêbado, tentando fugir de Natasha. Mas estava feliz. Felicidade é momento. Lívia também tinha uma namorada. Mas naquela noite isso não foi problema para eles. Acabaram indo dormir na casa dela. Não foi difícil passar a primeira noite acordado com tanta munição e na cama da garota mais atraente que ele conhecia.

- Nic, vá embora antes que ela chegue.

- Ok.

O velho garoto se levantou, lavou o rosto, tomou um gole de Coca -Cola Light e voltou pra casa. Eram quase onze de manhã.

Quando entrou em casa, viu que sua mãe acabara de chegar do supermercado; mal notou que horas eram. O cheiro do perfume de Lívia estava impregnado em sua camisa. Já não era tão agradável quanto na noite anterior. Precisava de um banho, voltar e dormir e talvez pedir desculpas à Natasha.

Sem remorso de ter traído o amor de sua vida, Nicolas se entupiu de soníferos e dormiu. Não tentou pensar em algo que viesse a se tornar um sonho depois.

Às vezes acabava naquela cidade sem nome. Sentava no banco da praça para pensar sobre sua vida, sobre Lívia, sobre seu aniversário. Viu Natasha se aproximando e acordou. Eram duas e trinta da tarde. Preferiu se vestir antes de sair do quarto. Quando chegou à sala de jantar, viu seus amigos sentados à mesa. Estavam em seis.

- Feliz aniversário, filho!

Sua mãe lhe beijou. Todos o cumprimentaram.

- Acabamos de nos sentar para o almoço. Não sabia se te acordava ou não.

Nicolas estava sem fome, mas não quis ser desagradável e comeu um pouco de torta de caramelo e sorvete, enquanto todos estavam indo para a sala assistir filmes. De presente, ganhou alguns discos de vinil -Nicolas tinha uma coleção deles e livros de seus amigos. De sua mãe ganhou uma câmera. Ela ainda acreditava na carreira de cineasta do filho.

-Filho, coloque aquele último filme que você fez para eles assistirem...

- Nic, o que pretende fazer hoje?

- Não sei.

- Sua amiga, a Lívia ligou te chamando para sair.

Os amigos de Nicolas acharam aquilo um pouco estranho, mas não comentaram nada na frente de sua mãe.

Acabaram saindo junto com Lívia, que desta vez estava acompanhada, para um pub que havia sido inaugurado. Conversaram sobre o passado, música, filmes, e sobre o fim de seu namoro. Mas logo o velho garoto começou a sentir falta de Natasha. Não queria ficar deprê no seu aniversário. Mas quando o DJ tocou Tear us Apart, do She Wants Revenge, ele deixou escapar uma lágrima. Neste mesmo instante uma garota pálida, de cabelos escuros surgiu a sua frente e o beijou. Ele quis chorar ainda mais e começou a tremer. A garota olhou em seus olhos:

- Por que você fez isso?

- Não sei, você parece estar sozinho...

- Sim. Exatamente porque eu quero estar sozinho.

- Aceita uma vodka?

- Sim.

- Eu já volto.

A garota o embebedou e Nicolas foi parar acordando na casa dela.
Anna era o seu nome. À luz do dia ela era ainda mais pálida e mais bonita. Nicolas acordou confuso.

- Não se preocupe, eu trouxe seu carro. Você bebeu demais...

-Você está bem?

-Não

-Volte a dormir.

Foi o que ele fez.

Quando voltou pra casa, prometeu a si mesmo nunca mais sair de lá.
Durante esses dias, Nicolas assistiu à sua coleção de filmes, criou um blog e escreveu sobre cinema e tomou incontáveis litros de café. Mas não demorou muito para começar a sentir saudades de Natasha. Foi procurá-la.

Quando chegou a cidade sem nome, Nicolas foi até a casa da garota - ele se surpreendeu por saber o caminho. Uma das grandes vantagens do mundo dos sonhos - perguntou ao porteiro se ela estava lá. Ele disse que sim.

- Quem é você?

- Sou o namorado dela.

O porteiro deu uma risada sarcástica e interfonou.

- Ela disse que você não pode subir.

E ainda acrescentou:

- Não agora. Deve estar ocupada.

Aquela situação era estranha. "Será mesmo o endereço dela?" pensou.
Resolveu ir até o café. Ficou por lá durante uns quarenta minutos. Comprou um maço de cigarros e foi até sua casa novamente. Quando chegou na esquina, viu Natasha acompanhada de um homem de mais ou menos trinta e cinco anos. Usava um blazer marrom e parecia ser muito mais velho que Nicolas. Ele sabia que Natasha era três anos mais velha que ele, mas mesmo assim, aquela cena era inesperada. Ele não queria acreditar que era por isso que ela mandou dizer ao porteiro que ela estava ocupada.

Natasha nunca estivera tão linda. Seus cabelos vermelhos balançavam ao vento com certa rebeldia, seus braços estavam cruzados, se protegendo daquela noite fria, enquanto aquele homem não parava de falar, beijando-a às vezes. Aquilo era demais para Nicolas, que havia se esquecido que passara duas noites acompanhado de duas garotas diferentes. Enfim, o amante dela, ou quem quer que tenha sido aquele cara, foi embora. Esperou alguns minutos e foi atrás dela.
O porteiro deu a mesma risada idiota quando Nicolas respondeu dizendo que era seu namorado.

- Pode subir.

Suando frio, subiu de elevador até o nono andar, apartamento noventa e quatro. Era quase uma da madrugada. Ele tocou a campainha. Ela atendeu. Parecia abatida. Ele resolveu então começar o diálogo:

- Como vai?

- Bem.

Ficaram sem se falar por dez eternos segundos.

- Eu posso entrar?

- Se você tem algo a dizer, pode falar aqui mesmo. Minha casa está toda bagunçada.

- Eu não ligo. Me deixa entrar.

- Como você descobriu que eu moro aqui?

- Não sei, simplesmente vim parar aqui.

- Ok.

Ela abriu a porta.

Enquanto Nicolas procurava um lugar vazio no sofá para se sentar, Natasha preparava dois drinques. Uísque com gelo. Entregou um copo para ele:

- Agora você pode falar?

- Queria te pedir desculpas por ter desaparecido durante esses dias. Não ando muito bem. Estou confuso.

- Eu te esperei a noite inteira no dia do seu aniversário. Para você ter feito isso, pensei que algo grave havia acontecido.

- Me perdoa.

- Ok.

- Quem era aquele cara que passou a noite aqui?

- Estamos juntos.

- Quer dizer que acabou?

- Como assim?

- Não estamos namorando mais?

- Nicolas, quem decidiu isso foi você. E nem fez questão de contar pra mim!

- Só porque eu estive longe esses dias?

- Só por isso.

- Não quero que isso aconteça. Voltei porque sinto sua falta.

- Acho melhor você ir. Preciso acordar cedo, amanhã cedo vou viajar.

- Com ele?

- Com ele.

- Ok, mas de acordo com esse horário, não há como voltar pra casa, só se eu conseguir acordar.

Apesar de tudo, Natasha acreditava que Nicolas estava sonhando.

- Bem, então fique aqui até acordar. Mas eu preciso dormir agora.

- Deixa eu dormir com você.

- Não, vai ser melhor se você ficar na sala.

- Você não morava com seus pais?

- Morava. Mudei-me pra cá no dia do seu aniversário. Era uma surpresa. Assim, você não precisaria mais voltar pra sua casa.

Nicolas não conseguiu responder nada. Sabia que estava errado, não podia se justificar. Querer estar só, às vezes pode ser um desejo egoísta.

- Adeus.

- Não precisa ser dramático. Agora já passou.

- Melhor assim, como você disse. Pelo menos está com alguém real, no seu mundo.

- Eu amo você. Mas se gostasse pelo menos um pouco de mim, não sumiria deste jeito. Você só pensa em si mesmo.

- Já te pedi desculpas.

-Tudo bem. Mas agora sou eu quem quer desaparecer. Se você me ama, vai me esperar.

- Me deixa ficar aqui esta noite.

- Você quem sabe.

Eles dormiram de mãos dadas. Aquela foi a melhor noite da vida de Nicolas. Ele a observou dormindo o tempo todo. Depois, sem se despedir acordou.

"Espero que ela entenda o que aconteceu". Pensou.

Quando Natasha voltou de viagem, Nicolas estava no portão de seu prédio. Mal conseguiu respirar quando a viu. Ela estava de volta. Foi correndo em sua direção e a abraçou fortemente, também morrera de saudades.

- Não posso mais ficar sem você. Já não sei a que mundo pertenço!

- Eu também não, quero ficar ao seu lado a todo momento, não apenas enquanto você está sonhando. Preciso sair dessa cidade, ela não me parece mais real...

- Volte comigo hoje.

- Descobri uma estação de trem que vai até minha cidade!

- Então vamos tentar!

Nicolas acordou. Se concentrou ao máximo para voltar aquela cena. Natasha estava indo embora, já estava quase invisível.

- Natasha, volte!

Ela não ouviu.

O velho garoto começou a sonhar com a padaria da esquina. Ele estava pedindo cinco pães ao padeiro, enquanto Natasha gritou do lado de fora:

-Estou aqui! Conseguimos!

Nicolas foi até ela:

- Mas estou sonhando. Embora esta padaria exista de verdade...

- De qualquer forma, avançamos um pouco, não?!

- Acho que sim. Vamos ao cinema...

- Esqueceu-se dos pães...

-Tudo bem.

De mãos dadas atravessaram a rua em direção ao cinema, que ficara na rua de sua casa. Natasha deixou sua bolsa cair.

-Espere, minha bolsa!

- O carro! Volte!

Natasha foi atropelada.

Nicolas acordou, ouviu um barulho e saiu correndo de seu quarto, descalço, apenas com seu pijama de patinhos. Sua mãe estava indo para a rua conferir o que havia acontecido. Ele a seguiu.

- Para trás!

O enfermeiro da ambulância gritou.

- Abram espaço, pelo amor de Deus!

Quando a multidão se afastou, Nicolas pode ver claramente o rosto de Natasha, mais pálido do que de costume. Seu vestido branco manchado de sangue, da mesma cor que sua bolsa, que suas mãos seguravam. A garota já não respirava.

sábado, 2 de abril de 2011

hermes baby 1976

Foi aí que ela me deu a máquina de escrever laranja. Todo aquele pó voando pela sala de estar e a aquela luz do sol batendo no meu rosto devem ter disfarçado as lágrimas que eu tentava conter. Era o fim. Na verdade não nos importava muito ter que encenar algo. Provavelmente não íamos nos ver mais. Embora houvesse liberdade para, nenhuma de nós queria fazer drama. Eu queria mesmo era sair daquele apartamento, sair correndo e tomar um chá gelado sem pensar no que havia acontecido nos últimos meses.

Até o final de setembro do ano passado eu entregava meu fanzine na loja de discos aqui perto de casa. Aqueles textos que eu escrevia sobre música, cinema e o que mais eu quisesse eram mais pra mim do que para os outros. Mas eu deixava lá; sem parar pra pensar se eles apenas tiravam aquele maço de papel que eu deixava no balcão e jogavam no lixo no final do mês ou se realmente as pessoas o levavam para casa. Não me importava.

Eu colocara na minha cabeça de uma vez por todas que ia me concentrar apenas em escrever. Meus dias se resumiam em preparar o fanzine e tentar finalizar meu primeiro livro, que acabei apagando-o inteiro depois do mês de junho desse ano. Resolvi preencher as páginas do Word com essa nova história. Eu, que nunca quis me expor. Algumas noites da semana se passavam no curso de crítica cinematográfica. Vinte e cinco anos; jornalista; desempregada; vivendo da ajuda do governo e do que juntei na época que trabalhava na revista.

Enquanto estava passando um café, me preparando para escrever essa história, comecei a pensar que em épocas passadas os livros eram melhores; não havia computador para reescrever qualquer besteira que fosse considerada um erro pelo autor. Clarice Lispector que era esperta: entregava seus manuscritos sem ao menos corrigir erros gramaticais, pois sabia que se lesse o que havia escrito, se arrependeria e não os mandaria para a editora.

Não sei ao certo sobre o que quero registrar daquela história para esta daqui. Só não quero que os detalhes que a compuseram se percam por aí. Não sei até quando vou me lembrar, por exemplo, que Virgínia era viciada em mentos sabor melancia.

A fim de receber críticas, deixava meu contato no fanzine, o que parecia algo inútil. Até que um dia ela ligou para fazer alguns comentários sobre uma resenha que eu havia escrito sobre um disco do The Pastels, Illumination. De certa forma fiquei feliz, pois pensava que ninguém iria ler sobre algo que não era factual. Da mesma forma que Virgínia foi crítica comigo, (The Pastels era sua banda favorita) ao mesmo tempo se mostrou interessada pelo fanzine; pois tínhamos gostos musicais parecidos (quer dizer, ela escutava as mesmas bandas que eu alguns anos atrás). Depois de algumas conversas até sugeri dela participar do fanzine comigo. Mas isso nunca aconteceu.

Falávamo-nos por telefone, trocávamos e-mails e depois de quase um mês, resolvemos tomar uma cerveja. Foi incrível. Ao vê-la tive a certeza que aquele rosto cheio de sardas não iria desaparecer da minha vida facilmente.

Discutíamos a respeito de tantos assuntos... Eu mostrei a ela textos que até eu não queria ler mais. Deixamos tantos projetos guardados no papel, inclusive um livro de foto-poesia. Virgínia era fotógrafa; um pouco preguiçosa, mas tinha suas ambições. Entretanto, não tínhamos tempo para por em prática tudo aquilo que registramos apenas. Eu deixei até de escrever o fanzine e o andamento do romance que estava começando a escrever paralisou de vez.

Agora resolvi organizar esse amontoado de palavras sem rumo, não sei como elas vão chegar ao ponto final. Não sei o que quero registrar na verdade; apenas quero guardar algo aqui.

Acabamos nos conhecendo pessoalmente em meados de outubro do ano passado. O tempo passava de forma estranha. Lembro-me que na primeira vez que nos vimos eu estava usando minha flanela xadrez favorita. Sinto falta dela; acabei deixando na casa de Virgínia; esqueci algum dia e acabei deixando de lembrança. Enfim, tomamos algumas garrafas de Quilmes, ela me levou alguns esboços que escrevia nas horas vagas. Resenhas apaixonadas sobre discos do Dinossaur Jr, Sonic Youth, My Bloody Valentine... Senti-me um pouco velha; apesar de gostar de todas essas bandas, elas me remetiam à uma época distante, tempos de colégio, das bandas frustradas de garagem que eu tive. E Virgínia, apesar de conhecer muito sobre música, gostava sempre de estacionar seus ouvidos ali, em 1990; porém, quando conversávamos, ela não parecia ser uma pessoa nostálgica. Ao contrário de mim.

Virgínia gostou dos meus óculos. Eu gostei de seu sorriso, que raramente estampava seu rosto. Parece até que foi ontem... Desculpe-me por essas descrições, parece até que estou apaixonada. Não é isso, e apenas para esclarecer, quero contar a você que está lendo isso que só existe um tipo de amor verdadeiro para mim: o platônico. Amar alguém além do que se vê é impossível. Por isso nunca prezei por bons relacionamentos. Amor de papel, sempre.

Mas não vou contar sobre um amor de papel aqui, vou contar sobre os meses, sobre Virgínia e sua máquina de escrever. Virgínia nunca usou aquela máquina que ganhara de seu avô. Foi o primeiro objeto que me chamou atenção dentro daquele apartamento no bairro de Perdizes. O piso de taco; paredes azul pastel; e lá, num canto, laranja, empoeirada, escondendo seu brilho natural, a máquina de escrever.

No sábado seguinte Virgínia me ligou de manhã perguntando se não gostaria de tomar o café da manhã com ela e depois sairmos ao centro da cidade em busca de um toca discos que tocasse seus 78’s, que nem eram muitos. Sem vontade nenhuma de me levantar da cama, fui. Aquela manhã estava cinzenta; acabei esperando o dia inteiro pela chuva que não veio. Não encontramos o toca discos. Sugeri já cansada, que procurasse na internet. Apesar de não sentir a muito tempo aquela vontade de andar pelo centro histórico da cidade, eu podia entender Virgínia e seus 22 anos. Virgínia é a minha música favorita dos Mutantes. Já escrevi até um conto com esse nome... Às vezes não me dou conta de algumas coincidências... Naquele dia acabei comprando alguns livros pelos sebos da cidade.

No final da tarde fomos para minha casa. Emprestei uma camiseta para Virgínia vestir depois do banho. Boris, meu bulldog, adorou assistir TV no colo dela. Pedimos comida mexicana e assistimos The Graduate até pegar no sono.

Domingo preparei o almoço e ficamos em casa sem fazer nada. Escutamos uns vinis que compramos no dia anterior e no começo da noite saímos para dar uma volta. Deixei Virgínia em casa e ela me beijou. Fui embora e no caminho passei na padaria perto de casa para comprar uma cerveja. Fiquei pensando naquelas últimas semanas. Em nossas conversas, nos discos que escutamos juntas, das fotografias que tiramos. Não sabia se estava feliz em tê-la conhecido. Nunca gostei de dividir minha vida, meus textos e minha cama e até mesmo minhas opiniões com os outros, já que os outros nunca me agradaram em sua maioria. Pelo menos o Boris gostou dela. Então acho que estava feliz.

Saí numa tarde qualquer para conversar com Miguel, meu amigo que trabalhava na loja onde eu entregava o fanzine. Combinamos um cinema. No meio do caminho, enquanto estávamos subindo a Rua da Consolação, ele disse que havia uma garota que ia sempre à loja para ver se a nova edição da folhinha já havia chegado. Parecia um comentário despretensioso, talvez só quisesse me agradar, já que eu desconfiava que ele os jogasse no lixo. Perguntei como ela era. Alta, cabelos compridos, negros, sardas. Era ela. Não pude deixar de dizer que nós havíamos nos conhecido.

Cansou de ler?

Acho que não tenho muito que dizer sobre aqueles dias que eu tanto faço questão de escrever aqui.

De vez em quando fazia alguns freelas; no mais, acordava tarde, levava Boris para passear, passava na banca de jornal para cumprimentar seu Joaquim, almoçava no Sujinho.

Confesso que apesar do tédio (aliás, nos últimos momentos de tédio pintei minha casa e comprei uma cômoda para meu quarto), cortei alguns hábitos, como escutar Wilco por vários dias seguidos. Agora eu tinha companhia para ir ao cinema de dia de semana, para discutir sobre música e com quem tomar o chá da tarde. Estávamos juntas. Quer dizer, nos víamos todos os dias. Virgínia não saía da minha casa, e quando queríamos variar um pouco, passávamos o tempo na casa dela. Ela fotografava a monotonia de nossos dias; fotografava os móveis, Boris, minhas chaves, a lixeira da cozinha e escutava Sibylle Baier. Eu a observava e não escrevia mais nada. Não fazia mais nada. Quando terminei o curso de crítica cinematográfica não tinha mais compromisso algum. Não tinha por que ficar em São Paulo olhando a vida respirar do outro lado da janela. Eu já estava pilhada, queria barulho, queria gritar, queria uma história, um cenário para descrever. Parece que quem era mesmo fã de Sonic Youth era mesmo eu. Então vi quanto tinha ainda de dinheiro e resolvi viajar.

A verdade é que eu não tinha quase nada mesmo. Mas a vontade do ar fresco e do desconhecido era maior. Eu nunca suportei seguir uma rotina. Virgínia era minha rotina e tudo parecia uma total contradição. Acabei que resolvi passar uns dias no Rio de Janeiro. Havia um amigo meu que trabalhava numa editora no Leblon, contei a ele que iria passar uns dias por lá e ele me ofereceu um freela. Aceitei na hora.

Dias depois estava de malas prontas. Contei a Virgínia que passaria o final do ano no Rio, pois havia um trabalho por lá. Não a convidei. Ela me pareceu decepcionada, mesmo com seu olhar sempre apático; mas eu precisava saber se queria continuar aquela vida que nascera há poucos dias. Ela disse que iria pra lá no réveillon me visitar, eu disse tudo bem. Até lá eu estaria melhor e com um pouco de dinheiro.

Fui de carro e levei Boris comigo. Queria pegar uma estrada, sentir o vento bagunçar meu cabelo, ouvir Velvet Underground no volume que eu quisesse. Foi bom. Foi ótimo. Senti-me como Jack Kerouac, se quer saber. Eu nunca havia dirigido tanto. Quando eu morava com a minha família meu pai sempre ficava com medo quando eu saia com meu Voyage 89. Mas ele não me deixou na mão.

Eu adoro mudanças. Mas preciso saber o que está acontecendo na minha vida quando ela chega; eu tenho que enxergar tudo do lado de fora pra entender melhor. Ri com meus amigos e conversei. Eu vi o por do sol e o mar. Trabalhei um pouco e me senti bem.

No Rio voltei a escrever meu livro. Quando tenho outra ocupação consigo me empenhar muito melhor em outras. Se não faço nada não faço nada. Pensei que seria bom escrever aqueles manuscritos na Hermes Baby de Virgínia. Pensei que seria bom estar com ela em Copacabana ouvindo Chet Baker, conversando sobre qualquer coisa. Mas eu não liguei pra ela.

Faltavam duas semanas para o ano novo. Fazia muito calor, mas, após ter entrevistado todas as fontes para minha última matéria, me tranquei por uma semana e escrevi até não poder mais mover meus dedos. Fui à redação entregar o material para o meu amigo e, no dia seguinte recebi o dinheiro das matérias que fiz. À noite, caminhei com Boris no calçadão e quando ele se cansou, levei-o para dormir, mas voltei e fui para o mar. Já era quase meia-noite quando eu resolvi jantar. Como sou paulistana tenho dificuldades de encontrar bons lugares para comer em outros lugares. São Paulo é sempre melhor. Pra mim, claro. Mas fui num sushi bar que me recomendaram e era realmente bom. Na hora de ir embora ganhei uma bela dose de saquê.

Eu iria dormir bem.

Quando me deitei o telefone tocou. Era Virgínia. Queria passar os últimos dias do ano ao meu lado.

No dia seguinte fui buscá-la no aeroporto. Foi bom vê-la novamente; Boris também ficou feliz e foi sentado em seu colo durante o caminho até o hotel.

Eu podia parar por aqui, mas. Em março Virgínia viajou para Glasgow e eu arranjei um emprego estúpido e continuei em São Paulo.

Tudo tende ao tédio.

E nós não nos falamos mais. Só sei que ela começou um curso de fotografia que irá durar uns dois anos e. Eu não preciso mais saber.

Antes de partir deu uma festinha e eu dormi em sua casa. Disse que a levaria ao aeroporto para. Para nunca mais.

Virgínia acabou me dando aquela Hermes Baby 1976. E é nela que termino esta história. Com ponto final. Mas sem adeus.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

penúltimo banco à direita

Demorou poucas semanas pra eu notar. Umas duas, três. Era toda quinta-feira. Eu chegava em casa e minha esposa já estava dormindo. Eu, que depois de velho resolvi fazer finalmente o meu mestrado. Antes de chegar em casa e abrir o portão, com cuidado pro cachorro não latir e acordar todo mundo, eu a encontrava no ônibus. Quer dizer. Não nos encontrávamos. Eu a via. Ela sempre estava lá, lendo uns maços de papéis e sublinhando com uma caneta azul o que lhe interessava, ou era de importância, não sei. O tema daqueles textos despertava em mim uma certa curiosidade. Acho que você estudava Direito. Ou trabalhava com algum advogado. Eu ficava sempre em sua direção, sempre em pé; você sempre sentada. Chegava antes. Lembro um dia que dividi o banco com você, o penúltimo, à direita. Foi tão desagradável. Me empurraram e eu fui parar ali, do seu lado e eu te atrapalhei, esbarrei, de certa forma em você e naqueles seus papéis que você não larga por nada. Eu pedi desculpas mas você não escutou.

e o que eu levo dessa vida

é aquele amor em silêncio que vivemos em 2006. amor em silêncio.

quinta-feira, 24 de março de 2011

puta que o pariu

Não recordo o ano, Tinha seis, sete anos no máximo e cursava a primeira série do primário.

Eu voltava da escola todos os dias na perua escolar; era assim que chamavam aquela Kombi branca com uma faixa amarela que hoje nem existe mais, recheada de crianças ansiosas para voltar pra casa. Não tanto quanto eu, que não me divertia naquela que para a maioria era uma viagem alucinante.

Quem dirigia aquela caixa barulhenta sobre rodas era um jovem senhor de cinqüenta e poucos anos, acho que; cabelos brancos penteados para o lado, camisa pólo e um par de óculos. Chamava-se Vilmar.

A alegria de todas as crianças, inclusive a minha, era voltar pra casa no “banco da frente”. Quando o Seu Vilmar chegava para nos buscar e descia da Kombi todos iam atrás dele, pedindo, suplicando para ir no banco da frente. Eu não lembro se tinha coragem suficiente para agir daquela forma, mas eu consigo me ver no meio daquele ninho de crianças, quase todas banguelas, sem um ou dois “dentes da frente”.

Eu não recordo claramente qual era a “regra” para poder se sentar no banco do passageiro, mas lembro que o Seu Vilmar até que deixava eu viajar ao seu lado quase sempre; o motivo era que eu me comportava, era “quietinha”, mas talvez, no fundo, era apenas dó.

Eu ficava feliz, embora não demonstrasse minha alegria com um sorriso (nunca fui boa nisso). Eu só queria me livrar daqueles seres barulhentos. Também gostava de ouvir a rádio - lembro-me que tocava muito Whitney Houston, por causa do filme O Guarda Costas e de ter uma janela só pra mim.

Independente do banco em que eu me sentava ouvia sempre o Seu Vilmar xingando as pessoas no trânsito e buzinando; lembro perfeitamente da sua voz dizendo “puta que o pariu”, mas quando eu sentava no banco do passageiro podia prestar mais atenção nos seus gestos; toda vez que ele falava puta que o pariu, batia, socava o painel da Kombi; e eu relacionava aquela expressão desconhecida – meus pais nunca foram de falar palavrão, àquela parte do veículo. Eu tentava entender e acabei acreditando, não por muito tempo, que puta que o pariu era o porta-luvas do carro.

Um dia cheguei em casa, e ainda não havia anoitecido porque lembro da tonalidade da luz desse momento; provavelmente eu entrei correndo e subi as escadas em direção ao banheiro para fazer xixi. Minha mãe estava no banheiro e num determinado instante - eu ainda sentada no vaso - perguntei a ela:

“Mãe, o que é puta que o pariu?”

Eu não sei se tentei, mas acho que sim, falar do porta-luvas. Acho que minha mãe se agachou para ficar exatamente na minha altura para responder, sem ar de surpresa a minha pergunta.

quarta-feira, 23 de março de 2011

autoajuda

Sua vida começa a mudar quando você corta aquele fiapo que está na sua calça há meses.

sexta-feira, 18 de março de 2011

a lâmpada

O que eu vi naquele começo de noite daquela terça-feira de verão quase fria com chuviscos foi a lâmpada de luz amarela que iluminava o jardim de inverno daquele casarão antigo de esquina, que ajudava, junto com as lentes grossas dos óculos, um velinho a ler o seu jornal. Pensei “que horário atípico para se ler notícias”; mas aquilo era de total compreensão, já que eu logo lembrei que também prefiro ler o jornal num horário incomum.

A gente acaba inventando cada regra boba dentro da nossa cabeça...

Aquela lâmpada iluminava algo que também me chamou a atenção: uma tela pendurada na parede; pintada por uma criança, obviamente; seu neto, obviamente.

Não consegui identificar o que estava desenhado ali. Lembro-me das cores: azul claro e vermelho. O que importa é que eu lembrei.

Nem tudo o que a gente faz requer interpretação...

domingo, 13 de março de 2011

o intruso

Era para ter sido apenas a situação mais constrangedora da minha vida. Foi mais que isso.

Estava almoçando com minha amiga numa quarta-feira chuvosa e o telefone dela tocou. Era um amigo seu. Ariel. Estava triste e pediu que ela fosse visitá-lo se possível naquele instante.

O que eu pensei?

Bom. Quem é que não se sente triste em um dia nublado?

Minha amiga, inconveniente, porém não mais do que eu, me pediu para acompanhá-la.
“Em três não tem crise”. Ela falou.

E eu fui.

Na verdade pouco me importava aquela situação. Quando entramos naquele apartamento de paredes azul pastel que pendurava um pôster do disco Tigermilk do Belle and Sebastian tudo mudou e eu fiquei com vontade de ir embora. Parecia que aquele lugar era meu, criado pela minha fértil imaginação e eu não soube como reagir.
Ariel olhou pra mim e levou um susto. Quer dizer, seus olhos se arregalaram naquele momento em que eu não queria enxergar aquela cena constrangedora.

“Onde é que esse cara pensa que está?”. Ele deve ter pensado. Quase que em voz alta.
E eu, acreditando ingenuamente que podia corrigir o erro disse “Eu espero você no carro”.

A resposta da minha amiga?

“Deixa eu te apresentar o Igor”.

Daí ela contou que nós estávamos almoçando juntos etc. Mas não em tom de desculpas. Jamais.

Ariel mudo, só estendeu os braços nos convidando para entrar em sua casa.

“Pôster legal.” Arrisquei.

Ganhei um sorriso tímido.

“Podia ser pior”. Pensei.

Não podia.

Um toca-discos portátil de um laranja gritante, daqueles da década de 70, embalava aquela tarde cinza com Illumination, do The Pastels, acho que a música daquele momento era "Fragile Gang", nunca consegui me lembrar exatamente.

“Bom. Não deve estar tão triste”.

Sentamo-nos num sofá marrom, tão confortável, ao mesmo tempo em que eu queria pular da janela daquela sala e começava a gostar daquilo tudo.
“Estava tomando café, mas acho melhor abrirmos um vinho, não?”

Ninguém se opôs.

A conversa iniciava-se e percebi que Ariel queria companhia não para compartilhar tristezas, mas para ajudá-lo a esquecê-las. Sua barba e seus cabelos castanhos claro estavam com cheiro de shampoo e seu pijama, de sabonete.

“Já estive pior.” Pensei.

E só fui pensar comigo mesmo quando já havíamos tomado quatro garrafas de vinho e conversado tudo sobre Belle and Sebastian.

Fomos para a cozinha e preparamos um fettuccine ao molho branco. Ríamos e abrimos outra garrafa. Fazia tempo que não tomava vinho tinto feito um adolescente.

E depois?

Bom. Lembro que, ainda na cozinha, quando Ariel pegou a colher da minha mão para provar o molho eu o beijei. Não me sentia mais um intruso. Ele olhou pra mim e sorriu.

E eu nunca mais saí daquela casa.

sexta-feira, 11 de março de 2011

pão doce

Era o mesmo despertador que os acordava há mais de quarenta anos. Era irritante, mas tinha história.

Aquele dia amanheceu aborrecido e, devido a tanto rancor logo começou a chover. Jaime, teimoso que era saiu de casa mesmo assim. Tanto ele quanto Isabel acordavam por volta das nove da manhã. Um horário razoável, mas que os diferiam da maioria de seus amigos que, mesmo sem ter o que fazer, levantavam mais cedo só pra ter mais tempo para reclamar da vida. Naquele dia Jaime acordara primeiro e, sem avisar sua esposa saiu de casa para seguir sua rotina de comprar o pão e o jornal. Seu Antônio, o padeiro já sabia o pedido de Jaime “dois pãezinhos”, mas nesse dia ele resolvera matar alguns minutos na padaria e tomou um café com seus velhos amigos que viviam ali sentados no balcão. A chuva apertou e ele ficou lá até que o despertador tocou e Isabel viu que estava sozinha em casa. Na mesa da cozinha, havia um bilhete: “Não quis te acordar. Volto logo.”

A velhinha olhou para toda bagunça que enchia aquela casa e se sentiu vazia. Não lembrava mais quando fora a última vez em que tomaram café naquela mesa que hoje os jornais, as caixas de remédios e os livros ocupavam. A sala era a mesma coisa. O quarto também. Nenhum deles ligava pra isso. Isabel, orgulhosa, não queria que ninguém viesse limpar a casa, Jaime não sentia tal necessidade. Ficava por isso. Mas aquela quinta-feira a incomodou, aquela mesa a incomodou, estar sozinha não parecia tão cômodo como ela pensava. Não naquela manhã, sem Jaime, que podia estar tomando chuva, que podia nem estar pensando nela. O que se espera de alguém depois de tantos anos juntos? Apenas o estar, o estar é o máximo que alguém pode alcançar, a estabilidade de ter alguém do seu lado para ouvir você reclamando do tempo nublado, do despertador, da vida. Um par. E como era bom estar.

Isabel tomou um banho demorado. Atrás das orelhas e nos punhos colocou algumas gotinhas do perfume que Jaime tanto gostava. Seu brinco de pérolas, seu casaquinho de lã. Empilhou todos os jornais, não deixou nada na mesa daquela cozinha que agora parecia maior. Abriu a gaveta e procurou seu caderno de receitas. Ela sabia todas de cor, mas fazia questão de reler a receita. Pão doce. Faria um pão doce para seu marido. Ele chegaria daquela tempestade e o comeria acompanhado de uma xícara de chá.

Quando Jaime chegou, estava ensopado. Isabel o ajudou a tirar o casaco. Ele tomou um banho quente e quando terminou o pão doce já estava pronto. O cheiro se misturava com o perfume de sua amada esposa que sorria ternamente por sentir aquela paz, por sentir aquela companhia, Jaime retribuiu. Sentaram-se a mesa surpreendentemente espaçosa e riram durante um bom tempo, relembrando do dia em que se conheceram, do perfume que marcara para sempre as narinas de seu marido, do dia em que compraram a mesa e sobre aquele momento. Sem jamais pensar no dia seguinte.

quinta-feira, 10 de março de 2011

domingo, abril

É domingo. Padaria, café, jornal. Tarde de outono ensolarada. Hoje vou dar uma chance. Até que é fácil, apenas não ligar a TV, apenas não ouvir a voz do Faustão, que deve ter medo de si mesmo. Um suspiro, um abraço. Se tem amigos. A folha de papel pra descrever os detalhes que ninguém vê. Inventa uma estória e escolhe o dia da semana, se é isso que aflige.

medo infantil de adulto

Não há nada pior que acordar cedo. Oh Deus! Ainda é quarta-feira. Ainda são seis da manhã e você tem que estar de pé, você, ser anônimo como todos os outros que tem a obrigação de acordar cedo toda a vida. O cheiro do café, o barulho do espremedor de laranjas, causa um barulho em seu estômago, que na verdade parece estar sendo espremido também. Olha só, já não pensa nem o que irá vestir. Ninguém se importa mesmo. A vida é tão sem graça que dá vontade de chorar.

E saber que chorar é a única coisa que pode fazer. Depois respira fundo e abre a porta pra rua. Sem olhar pra cara de ninguém. O mundo não sorri. O mundo também chora, é maior e mais velho que você, mas consegue ser discreto. Você, com essa cara barbuda, e ainda com medo de dias cinzentos. Nessa cidade, toda manhã é cinza e você nunca tentou se acostumar. Nunca parou para pensar que todos ao seu lado no ônibus também andam de saco cheio.

Mas te entendo. Parece que é só você que acorda e se vê abraçado com o travesseiro de tanto medo do dia comum.

No fim, ninguém cresce o suficiente para abandonar os medos que nos acompanham desde a infância.

feliz aniversário

Eu até lhe preparei um bolo de aniversário, dei banho no cachorro e arrumei nosso quarto.

Você ainda não voltou do trabalho...

Cansada de esperar assisti a seus filmes favoritos e cochilei no sofá.
Abri a garrafa de champagne e eu não sei onde você está.

Você ainda não voltou do trabalho...

Já conversei com a caixa postal do seu celular, chamei nossos amigos para dividir o pequeno jantar que fiz.
Onde você foi parar.

Você ainda não voltou do trabalho...

Boa-noite amor. Espero acordar ao seu lado.
Se for pra não por favor, me deixa sonhar.

Você ainda não voltou do trabalho...

quarta-feira, 9 de março de 2011

nuvens e paredes

Há quem tente olhar para algum objeto ou imaginar alguma cena antes de apagar a luz do abajur, fechar os olhos e dormir.

Há quem tente olhar para algum objeto ou imaginar alguma cena antes de acordar, abrir os olhos e abrir a janela em busca do sol.

a conclusão é que

Na vida, existem anos em que amamos e anos em que cortamos as unhas dos pés.

terça-feira, 8 de março de 2011

francisco

É triste dizer. Mas se Francisco fosse um pássaro, ele seria um pombo.

primeiros-e-últimos-encontros

Vila Mariana. Te vejo na fila aguardando o ônibus. Venta pouco, mas mesmo assim seus cabelos parecem querer voar para longe. Seus olhos atentos ao livro de Garcia Marquez. Não consegui ler o título, não consegui ler seus olhos e fui embora.

-

Antes de anoitecer te pedi o isqueiro emprestado. Você, séria, procurou na bolsa e demorou um certo tempo para encontrá-lo, o que te deixou um pouco sem jeito. Eu olhei atenta para seu rosto sem traço algum – talvez por ser nova demais, já que cometia a ousadia de fumar um Marlboro vermelho – e sorri. Você não devolveu o gesto. Durante uns três minutos ficamos lá, próxima uma da outra pensando no que dizer – já que resolvi fumar aquele cigarro apenas para puxar uma conversa, imagina – mas o último trago foi dela. Quando me virei para perguntar algo, ela já havia desaparecido.

sexta-feira, 4 de março de 2011

eco

A nova casa tinha cheiro de tinta fresca, de folhas secas e parecia ser muito maior agora que Álvaro estava sozinho. Ainda sem móveis. Um árduo trabalho pela frente, já que preencher e decorar requer inspiração, requer um novo fôlego. Completar cada centímetro dessa casa não seria tarefa fácil, mas Álvaro sabia da urgência em começar uma nova vida, uma vida que não queria nascer. A sensação era muito pior do que seu primeiro dia no trabalho. Ele se sentia como um garoto perdido, indefeso. Não sabia como calar aquele grito de medo em seus pensamentos. Os fantasmas de dias passados não poderiam descobrir onde ele estava.

Não dessa vez.

A vida, dividida em passado, presente e futuro, como devia ser, e ele estaria no tempo e no lugar certo. Hoje era aquela casa na beira da estrada, hoje sua cabeça, seu corpo e todas suas ideias faziam dele um só, e daí pra frente esse seria seu consolo, estar intacto, sem ter de correr para agarrar as palavras que escaparam de sua boca, sem ter que apagar as frases impulsivas que escreveu, era só ele, e a partir desse passo, o passo de não se mover, encontraria a paz. E quando os móveis ficam no passado, o conceito também é material.

Ele pediria pra alguém fazer a mudança? Sua nova história acabara de começar, não havia personagens naquele cenário vazio, de céu nublado onde só o vento improvisava a trilha sonora.

Quem é forte o suficiente pra ir até lá e voltar, ir até o fim do túnel já sem luz e agarrar todos seus pertences? Profundo é o poço do passado, que nos enfraquece e nos deixa incapaz de voltar ao presente. Não sem arranhões. O passado te convida pra ficar, pra ser parte dele. Seria melhor então gastar suas economias e comprar móveis novos? Ainda assim, teria de abandonar, como já havia prometido a si mesmo, as fotografias, as cartas e sua coleção de discos. Um homem sem passado, fingindo eternamente a inocência de ter nascido hoje.

Aguentaria um dia. Se fosse preciso, deixaria o sono de lado. E para que esse dia durasse para sempre, foi até o centro da pequena cidade, comprou uma cafeteira, pó de café e um maço de cigarros.

quinta-feira, 3 de março de 2011

sobre encontros

Junho. Final de outono, estação favorita de Miguel. Como estava chovendo muito naquela quinta-feira, deixou a bicicleta em casa e resolveu ir ao trabalho de metrô.

No final do dia, horário de pico, aquele tumulto para embarcar o deixava em estado de pânico. Ficou sentado em um daqueles bancos marrons até a situação se acalmar. Pelo menos tinha seu livro como distração, já que até observar aquelas pessoas apressadas o deixava inquieto. Quando estava prestes a tirar seu livro da bolsa, percebeu que uma garota estava encostada na parede ao seu lado com uma aparência um pouco pior que a sua. Perguntou o que ela estava sentindo e ofereceu seu lugar. Ela, pálida e indiferente agradeceu em voz baixa sem olhar para seu rosto, mas pelo menos respondeu sua pergunta:
- Minha pressão baixou.
Miguel saiu e comprou um copo d’ água, não sabia na verdade o que oferecer para alguém que está com a pressão baixa.
- Obrigada.
Passaram-se menos de cinco minutos e Miguel conseguiu arrancar daquela linda garota loira, informações para que ele pensasse nela durante as próximas horas.
-Acho que vou pegar um táxi, não me sinto bem. Mas obrigada pela água.
O garoto não conseguiu mais se concentrar no livro e viu que no banco em que a garota havia sentado ficara sua carteira. Abriu-a, num de seus cartões estava o nome da dona, Marcela. Mas ela já havia sido engolida pela multidão.

Quando chegou em casa, Miguel telefonou para o número do celular que estava na carteira. Ela atendeu, parecia que estava aguardando a ligação. Lembrou-se na hora de Miguel e marcaram de se ver.
-Você pode me encontrar amanhã perto do metrô? Umas três da tarde?
Miguel acabara de arranjar um emprego e não podia faltar, mas não pensou duas vezes.
-Pode ser, te espero ali em cima, na praça.
-Certo. Obrigada e até amanhã!

Na sexta-feira, Miguel acordou lá pelas dez horas, ligou para seu chefe e disse que estava com enxaqueca. Tomou um banho e colocou sua camisa favorita. Leu o jornal, deixou a TV ligada para se distrair enquanto almoçava e, ansioso, saiu mais cedo do que deveria.

Ainda faltavam quinze minutos para as três. Passou numa tabacaria e comprou um maço de cigarros para matar o tempo. Escolheu o banco mais limpo, que ficava bem no meio da praça, assim, ela não teria como não vê-lo. Agora só faltavam mais cinco minutos. “O tempo para terminar o meu cigarro”, pensou. Do seu lado, alguns senhores jogavam dominó e riam o tempo todo. Riu por dentro também quando percebeu que usava uma boina idêntica a de um senhor que olhava para ele com um sorriso no rosto terno e enrugado. Seu último trago e nem sinal de Marcela. Mas não havia problema, hoje em dia numa cidade caótica como São Paulo ninguém mais consegue ser pontual. Abriu seu livro, mas a cada dez segundos parava sua leitura para ver se ela não estava se aproximando. Quatro horas. Havia outro banco que parecia ser melhor, a mesa de dominó dos velhinhos poderia atrapalhar a visão de Marcela quando chegasse. Deu uma volta ao redor da praça, comprou uma revista e mudou de banco.

“É só uma carteira”. A última vez que Miguel ficara ansioso daquela forma foi há exatamente um ano, seu último encontro. Depois daquele momento, a vida parecia lhe dar dias repetidos e nada mais fazia com que ele perdesse um pouco de ar. Mais algumas horas se passaram, o Sol já não iluminava seu rosto. Terminou de ler a revista, o livro e fumou todos os cigarros. A fome batia impiedosamente em seu estômago, que ao contrário dele, não podia esperar. Mas e se ele fosse até o café e ela aparecesse por lá?

Comprou um cappuccino para viagem e tomou ali mesmo no banco, com uma certa desconfiança de que ela havia passado enquanto eles esteve fora durante aqueles longos três minutos. Perguntou aos velhinhos se eles não viram uma garota loira, de cabelos curtos por lá, eles disseram que não.

“Como alguém que perde a carteira com todos os documentos consegue passar o dia inteiro sem se preocupar em tê-la em mãos”. Miguel ligou várias vezes para Marcela, mas o celular parecia estar desligado. O que mais ele podia fazer? Pensou em ir até a sessão de achados e perdidos da estação e deixar a carteira lá, com um bilhete talvez. Mas ele deu sua palavra de que estaria lá...

Anoiteceu, os velhinhos foram para suas respectivas casas encontrar suas esposas, jantar ou fazer qualquer coisa rotineira e confortável. Alguém certamente estava esperando por eles. Sete, oito, nove horas e ela não apareceu. Miguel mudou de banco.

pastel de queijo


O amor da vida de Isabel partira há um ano e três meses. Calada, engoliu as lágrimas. E não eram poucas, lágrimas por alguém que se vai depois de quase cinco décadas podem afogar qualquer um. Passou dias e noites acordadas, observando aquelas estantes da biblioteca de sua casa, ainda conservadas, pois havia quem as limpasse duas vezes por semana. Sobre a mesa, uma fruteira com maçãs verdes, vermelhas, uvas e peras. Ainda ali porque não havia quem as comesse, ainda brilhantes, pois havia quem as trocasse uma vez por semana.

Mas um dia deu um basta naquele silêncio. Quer dizer, ela resolveu tentar sobreviver a todas aquelas memórias que surgiam com o cheiro de frutas e voltou a frequentar a feira de sexta como fizera toda a vida. Se aquela mesa gigantesca em que mal se sentava para fazer suas refeições pedia por belas frutas, ela mesma iria buscá-las, e, quem sabe, come-las, ou ao menos convidar alguém para tirá-las de cena.

Claudia, sua única filha não tinha como deixar seu filho, Lucas, sozinho em casa e pediu a Isabel para que o garoto passasse a manhã de uma sexta-feira em sua casa. Sexta-feira fria. Nublada. Mas mesmo assim, aquela senhora estava cansada de ficar empoeirando em casa, ela sabia que precisava sair dali, tomar um ar e tinha que ser aquele dia. Lucas, seu único neto, seria a sua companhia. Ele, tão extrovertido deixava a avó até constrangida por não poder compartilhar daquele sorriso que iluminava aquela manhã. Não existiam riscos. A saudade era a única que a poderia derrubar. Mas ela estava preparada e se Claudia chegasse antes do previsto, iria ler o bilhete na geladeira.

O garoto, todo feliz, acompanhou sua avó, de mãos dadas no começo, depois apenas lado a lado, ambos observando aquele lugar como se nunca tivessem ido para a feira. Os mesmos vendedores, algo que ela não desejava muito ver. Iriam fazer inúmeras perguntas “por onde andou?” “há quanto tempo!”... Seu Luis adorou o garoto, deu-lhe tangerinas e Dona Marta, um pedacinho de melão. Andaram, compraram pêssegos, maçãs e o fantasma de seu marido não estava lá, e sua voz era encoberta pela dos feirantes que anunciavam seus produtos. No final do passeio, Isabel levou Lucas para comer pastel com caldo de cana. Os olhos do garoto brilharam quando viu que se aproximavam daquela banca. O garoto quase nunca comia fritura, Claudia controlava sua alimentação de forma rigorosa. Pediu de queijo, claro, como toda criança. Isabel arriscou e pediu um para ela também. Sentaram-se e desfrutaram daquele momento, ambos sorrindo, sem nada a dizer.