sábado, 19 de fevereiro de 2011

mate com limão

Chegando do trabalho Virgínia girava a chave para abrir a porta de seu apartamento lentamente. Não era desânimo. Era só falta de pressa. Falta de pressa pra viver.

Tirou seu casaco marrom, comprido, um tanto surrado e deixou-o em cima da mesa. Olhou fixamente para o toca-discos. Um olhar sem dúvida. A agulha já estava na posição para tocar Ballad Medley na versão de Sonny Rollins. Escutara essa música o final de semana inteiro. O som do piston a deixara completamente feliz por ser a pessoa mais triste do mundo. Às vezes Virgínia se importava mais com a trilha sonora que narrava sua vida do que com esta em si. Si menor.

Quem parecia mesmo estar triste naquela segunda-feira gelada era seu estômago. Mas a garota pouco se importou em agradá-lo. Após ligar a vitrola, colocou a chaleira no fogo. Mate com limão. Muito quente. Muito limão.

Sua cama estava à sua espera. Teve o domingo inteiro para arrumar aquela casa de um cômodo só. Em sua cama agora haviam apenas cobertores. Três cobertores que a aqueceram em antigos invernos. Ela não se importava com o tempo.

Acompanhada de sua caneca azul e de alguns livros dos quais teria tempo para folheá-los até adormecer. Mas na verdade Virgínia sentou-se, encostada na parede fria com seu chá que começara a baixar a temperatura. Olhou fixamente para a estante, que estava empoeirando novamente. Pensando em nada e no futuro. Em nada e se realmente queria seguir seu caminho daquela forma. Em nada e se deveria colocar o telefone novamente na tomada e fechou os olhos.

pasta de dente

Quando saí de casa senti aquela noite gelada com gosto de pasta de dente, menta, eucalipto, espuma, me pegar de vez.

Não era o vapor que saía da minha boca. Era a Lua o céu eu não sei mas fiquei. Ali, sentado nos degraus da escada do quintal ao lado do meu cachorro.

E então aquelas frases feitas sobre a possibilidade que cada minuto te oferece surgiram na minha cabeça e eu fiquei feliz por um momento.

Pensei em criar uma música, escrever uma carta ou até mesmo ligar pra você. Mas aquele suspiro era meu e de mais ninguém então desci a rua com minha bicicleta para sentir o vento beijar meu rosto e permiti que todos meus pensamentos caíssem no asfalto e eu encontrei a liberdade e voltei pra casa.

não continua

Ontem me demiti sem aviso prévio, pois estava com vontade de ir àquela livraria charmosa que conheci na semana passada e comprar todos os livros do Murakami que ainda não li. E ler todos de uma vez.

Foi então o que fiz.

Saí quase correndo do escritório e não eram nem cinco da tarde.

Ainda ofegante entrei no lugar onde queria me refugiar. Todos os livros pareciam estar a minha espera. Um do lado do outro.

E então na hora em que me dirigi ao caixa avistei a garota que estava atrás do balcão. Ela tinha cabelos claros, olhos atentos às páginas de um livro que não consegui identificar o título e fiquei com vergonha de perguntar pois iria parecer que eu queria puxar assunto e eu já não sei mais conversar. Enfim. Ela usava um sweater azul claro, tão claro quanto seus olhos e seus cabelos, ah! Isso eu já disse e ela estava numa cadeira de rodas e usava uma calça marrom de veludo cotelê.

E ela me deu um marcador de livros. Aliás, ela colocou no meio de Kafka à beira-mar e disse: Esse é o meu favorito.

E quando cheguei em casa coloquei a água na chaleira e logo comecei a lê-lo. E acho que me apaixonei.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

você e sua imagem distorcida pelas garrafas de vidro verde

Tudo o que eu queria ver está bem na minha frente. Ele falou. Você. Um tanto pálida. Um tanto rosada. De vinho. De álcool. O cabelo levemente despenteado. Esse sorriso amortecido. Essa mesa de madeira já gasta. Essa toalha manchada de alegria. Esse sobrado de esquina de bairro paulistano tradicional em que nos encontrávamos alojados naqueles dias de quase outono em que não tínhamos tantos problemas pra pensar. Naquele fim de noite. Essa sensação sonolenta que me dá vontade de não dormir nunca mais nessa vida e ficar do seu lado. Olhando esses seus olhos que sorriem para os meus. Meio sem querer. Mas é tão bom que eu só saberei o quanto depois que isso terminar. Por isso você. Pegue a câmera e tire uma fotografia de nós dois. Uma fotografia pra sempre. Pra amarelar o papel e não a memória.

oi meu nome é.

Definir palavras através de palavras é, no mínimo, limitar. Nunca fiz uma descrição para um blog e aqui não abro exceção. Por quase cinco anos escrevi num blog minhas anotações: ideias, ensaios, poemas, contos, tentativas, palavras. Aqui farei o mesmo e, quem me conhece sabe que adoro o que é simples, e que eu tento passar essa simplicidade, o despercebido, esse pouco, esse quase nada, em minhas palavras, na tentativa de mostrar que toda rotina tem seu clímax. Toda mesmice pode virar romance. Todo arroz feijão, hollywood.