quinta-feira, 24 de março de 2011

puta que o pariu

Não recordo o ano, Tinha seis, sete anos no máximo e cursava a primeira série do primário.

Eu voltava da escola todos os dias na perua escolar; era assim que chamavam aquela Kombi branca com uma faixa amarela que hoje nem existe mais, recheada de crianças ansiosas para voltar pra casa. Não tanto quanto eu, que não me divertia naquela que para a maioria era uma viagem alucinante.

Quem dirigia aquela caixa barulhenta sobre rodas era um jovem senhor de cinqüenta e poucos anos, acho que; cabelos brancos penteados para o lado, camisa pólo e um par de óculos. Chamava-se Vilmar.

A alegria de todas as crianças, inclusive a minha, era voltar pra casa no “banco da frente”. Quando o Seu Vilmar chegava para nos buscar e descia da Kombi todos iam atrás dele, pedindo, suplicando para ir no banco da frente. Eu não lembro se tinha coragem suficiente para agir daquela forma, mas eu consigo me ver no meio daquele ninho de crianças, quase todas banguelas, sem um ou dois “dentes da frente”.

Eu não recordo claramente qual era a “regra” para poder se sentar no banco do passageiro, mas lembro que o Seu Vilmar até que deixava eu viajar ao seu lado quase sempre; o motivo era que eu me comportava, era “quietinha”, mas talvez, no fundo, era apenas dó.

Eu ficava feliz, embora não demonstrasse minha alegria com um sorriso (nunca fui boa nisso). Eu só queria me livrar daqueles seres barulhentos. Também gostava de ouvir a rádio - lembro-me que tocava muito Whitney Houston, por causa do filme O Guarda Costas e de ter uma janela só pra mim.

Independente do banco em que eu me sentava ouvia sempre o Seu Vilmar xingando as pessoas no trânsito e buzinando; lembro perfeitamente da sua voz dizendo “puta que o pariu”, mas quando eu sentava no banco do passageiro podia prestar mais atenção nos seus gestos; toda vez que ele falava puta que o pariu, batia, socava o painel da Kombi; e eu relacionava aquela expressão desconhecida – meus pais nunca foram de falar palavrão, àquela parte do veículo. Eu tentava entender e acabei acreditando, não por muito tempo, que puta que o pariu era o porta-luvas do carro.

Um dia cheguei em casa, e ainda não havia anoitecido porque lembro da tonalidade da luz desse momento; provavelmente eu entrei correndo e subi as escadas em direção ao banheiro para fazer xixi. Minha mãe estava no banheiro e num determinado instante - eu ainda sentada no vaso - perguntei a ela:

“Mãe, o que é puta que o pariu?”

Eu não sei se tentei, mas acho que sim, falar do porta-luvas. Acho que minha mãe se agachou para ficar exatamente na minha altura para responder, sem ar de surpresa a minha pergunta.

quarta-feira, 23 de março de 2011

autoajuda

Sua vida começa a mudar quando você corta aquele fiapo que está na sua calça há meses.

sexta-feira, 18 de março de 2011

a lâmpada

O que eu vi naquele começo de noite daquela terça-feira de verão quase fria com chuviscos foi a lâmpada de luz amarela que iluminava o jardim de inverno daquele casarão antigo de esquina, que ajudava, junto com as lentes grossas dos óculos, um velinho a ler o seu jornal. Pensei “que horário atípico para se ler notícias”; mas aquilo era de total compreensão, já que eu logo lembrei que também prefiro ler o jornal num horário incomum.

A gente acaba inventando cada regra boba dentro da nossa cabeça...

Aquela lâmpada iluminava algo que também me chamou a atenção: uma tela pendurada na parede; pintada por uma criança, obviamente; seu neto, obviamente.

Não consegui identificar o que estava desenhado ali. Lembro-me das cores: azul claro e vermelho. O que importa é que eu lembrei.

Nem tudo o que a gente faz requer interpretação...

domingo, 13 de março de 2011

o intruso

Era para ter sido apenas a situação mais constrangedora da minha vida. Foi mais que isso.

Estava almoçando com minha amiga numa quarta-feira chuvosa e o telefone dela tocou. Era um amigo seu. Ariel. Estava triste e pediu que ela fosse visitá-lo se possível naquele instante.

O que eu pensei?

Bom. Quem é que não se sente triste em um dia nublado?

Minha amiga, inconveniente, porém não mais do que eu, me pediu para acompanhá-la.
“Em três não tem crise”. Ela falou.

E eu fui.

Na verdade pouco me importava aquela situação. Quando entramos naquele apartamento de paredes azul pastel que pendurava um pôster do disco Tigermilk do Belle and Sebastian tudo mudou e eu fiquei com vontade de ir embora. Parecia que aquele lugar era meu, criado pela minha fértil imaginação e eu não soube como reagir.
Ariel olhou pra mim e levou um susto. Quer dizer, seus olhos se arregalaram naquele momento em que eu não queria enxergar aquela cena constrangedora.

“Onde é que esse cara pensa que está?”. Ele deve ter pensado. Quase que em voz alta.
E eu, acreditando ingenuamente que podia corrigir o erro disse “Eu espero você no carro”.

A resposta da minha amiga?

“Deixa eu te apresentar o Igor”.

Daí ela contou que nós estávamos almoçando juntos etc. Mas não em tom de desculpas. Jamais.

Ariel mudo, só estendeu os braços nos convidando para entrar em sua casa.

“Pôster legal.” Arrisquei.

Ganhei um sorriso tímido.

“Podia ser pior”. Pensei.

Não podia.

Um toca-discos portátil de um laranja gritante, daqueles da década de 70, embalava aquela tarde cinza com Illumination, do The Pastels, acho que a música daquele momento era "Fragile Gang", nunca consegui me lembrar exatamente.

“Bom. Não deve estar tão triste”.

Sentamo-nos num sofá marrom, tão confortável, ao mesmo tempo em que eu queria pular da janela daquela sala e começava a gostar daquilo tudo.
“Estava tomando café, mas acho melhor abrirmos um vinho, não?”

Ninguém se opôs.

A conversa iniciava-se e percebi que Ariel queria companhia não para compartilhar tristezas, mas para ajudá-lo a esquecê-las. Sua barba e seus cabelos castanhos claro estavam com cheiro de shampoo e seu pijama, de sabonete.

“Já estive pior.” Pensei.

E só fui pensar comigo mesmo quando já havíamos tomado quatro garrafas de vinho e conversado tudo sobre Belle and Sebastian.

Fomos para a cozinha e preparamos um fettuccine ao molho branco. Ríamos e abrimos outra garrafa. Fazia tempo que não tomava vinho tinto feito um adolescente.

E depois?

Bom. Lembro que, ainda na cozinha, quando Ariel pegou a colher da minha mão para provar o molho eu o beijei. Não me sentia mais um intruso. Ele olhou pra mim e sorriu.

E eu nunca mais saí daquela casa.

sexta-feira, 11 de março de 2011

pão doce

Era o mesmo despertador que os acordava há mais de quarenta anos. Era irritante, mas tinha história.

Aquele dia amanheceu aborrecido e, devido a tanto rancor logo começou a chover. Jaime, teimoso que era saiu de casa mesmo assim. Tanto ele quanto Isabel acordavam por volta das nove da manhã. Um horário razoável, mas que os diferiam da maioria de seus amigos que, mesmo sem ter o que fazer, levantavam mais cedo só pra ter mais tempo para reclamar da vida. Naquele dia Jaime acordara primeiro e, sem avisar sua esposa saiu de casa para seguir sua rotina de comprar o pão e o jornal. Seu Antônio, o padeiro já sabia o pedido de Jaime “dois pãezinhos”, mas nesse dia ele resolvera matar alguns minutos na padaria e tomou um café com seus velhos amigos que viviam ali sentados no balcão. A chuva apertou e ele ficou lá até que o despertador tocou e Isabel viu que estava sozinha em casa. Na mesa da cozinha, havia um bilhete: “Não quis te acordar. Volto logo.”

A velhinha olhou para toda bagunça que enchia aquela casa e se sentiu vazia. Não lembrava mais quando fora a última vez em que tomaram café naquela mesa que hoje os jornais, as caixas de remédios e os livros ocupavam. A sala era a mesma coisa. O quarto também. Nenhum deles ligava pra isso. Isabel, orgulhosa, não queria que ninguém viesse limpar a casa, Jaime não sentia tal necessidade. Ficava por isso. Mas aquela quinta-feira a incomodou, aquela mesa a incomodou, estar sozinha não parecia tão cômodo como ela pensava. Não naquela manhã, sem Jaime, que podia estar tomando chuva, que podia nem estar pensando nela. O que se espera de alguém depois de tantos anos juntos? Apenas o estar, o estar é o máximo que alguém pode alcançar, a estabilidade de ter alguém do seu lado para ouvir você reclamando do tempo nublado, do despertador, da vida. Um par. E como era bom estar.

Isabel tomou um banho demorado. Atrás das orelhas e nos punhos colocou algumas gotinhas do perfume que Jaime tanto gostava. Seu brinco de pérolas, seu casaquinho de lã. Empilhou todos os jornais, não deixou nada na mesa daquela cozinha que agora parecia maior. Abriu a gaveta e procurou seu caderno de receitas. Ela sabia todas de cor, mas fazia questão de reler a receita. Pão doce. Faria um pão doce para seu marido. Ele chegaria daquela tempestade e o comeria acompanhado de uma xícara de chá.

Quando Jaime chegou, estava ensopado. Isabel o ajudou a tirar o casaco. Ele tomou um banho quente e quando terminou o pão doce já estava pronto. O cheiro se misturava com o perfume de sua amada esposa que sorria ternamente por sentir aquela paz, por sentir aquela companhia, Jaime retribuiu. Sentaram-se a mesa surpreendentemente espaçosa e riram durante um bom tempo, relembrando do dia em que se conheceram, do perfume que marcara para sempre as narinas de seu marido, do dia em que compraram a mesa e sobre aquele momento. Sem jamais pensar no dia seguinte.

quinta-feira, 10 de março de 2011

domingo, abril

É domingo. Padaria, café, jornal. Tarde de outono ensolarada. Hoje vou dar uma chance. Até que é fácil, apenas não ligar a TV, apenas não ouvir a voz do Faustão, que deve ter medo de si mesmo. Um suspiro, um abraço. Se tem amigos. A folha de papel pra descrever os detalhes que ninguém vê. Inventa uma estória e escolhe o dia da semana, se é isso que aflige.

medo infantil de adulto

Não há nada pior que acordar cedo. Oh Deus! Ainda é quarta-feira. Ainda são seis da manhã e você tem que estar de pé, você, ser anônimo como todos os outros que tem a obrigação de acordar cedo toda a vida. O cheiro do café, o barulho do espremedor de laranjas, causa um barulho em seu estômago, que na verdade parece estar sendo espremido também. Olha só, já não pensa nem o que irá vestir. Ninguém se importa mesmo. A vida é tão sem graça que dá vontade de chorar.

E saber que chorar é a única coisa que pode fazer. Depois respira fundo e abre a porta pra rua. Sem olhar pra cara de ninguém. O mundo não sorri. O mundo também chora, é maior e mais velho que você, mas consegue ser discreto. Você, com essa cara barbuda, e ainda com medo de dias cinzentos. Nessa cidade, toda manhã é cinza e você nunca tentou se acostumar. Nunca parou para pensar que todos ao seu lado no ônibus também andam de saco cheio.

Mas te entendo. Parece que é só você que acorda e se vê abraçado com o travesseiro de tanto medo do dia comum.

No fim, ninguém cresce o suficiente para abandonar os medos que nos acompanham desde a infância.

feliz aniversário

Eu até lhe preparei um bolo de aniversário, dei banho no cachorro e arrumei nosso quarto.

Você ainda não voltou do trabalho...

Cansada de esperar assisti a seus filmes favoritos e cochilei no sofá.
Abri a garrafa de champagne e eu não sei onde você está.

Você ainda não voltou do trabalho...

Já conversei com a caixa postal do seu celular, chamei nossos amigos para dividir o pequeno jantar que fiz.
Onde você foi parar.

Você ainda não voltou do trabalho...

Boa-noite amor. Espero acordar ao seu lado.
Se for pra não por favor, me deixa sonhar.

Você ainda não voltou do trabalho...

quarta-feira, 9 de março de 2011

nuvens e paredes

Há quem tente olhar para algum objeto ou imaginar alguma cena antes de apagar a luz do abajur, fechar os olhos e dormir.

Há quem tente olhar para algum objeto ou imaginar alguma cena antes de acordar, abrir os olhos e abrir a janela em busca do sol.

a conclusão é que

Na vida, existem anos em que amamos e anos em que cortamos as unhas dos pés.

terça-feira, 8 de março de 2011

francisco

É triste dizer. Mas se Francisco fosse um pássaro, ele seria um pombo.

primeiros-e-últimos-encontros

Vila Mariana. Te vejo na fila aguardando o ônibus. Venta pouco, mas mesmo assim seus cabelos parecem querer voar para longe. Seus olhos atentos ao livro de Garcia Marquez. Não consegui ler o título, não consegui ler seus olhos e fui embora.

-

Antes de anoitecer te pedi o isqueiro emprestado. Você, séria, procurou na bolsa e demorou um certo tempo para encontrá-lo, o que te deixou um pouco sem jeito. Eu olhei atenta para seu rosto sem traço algum – talvez por ser nova demais, já que cometia a ousadia de fumar um Marlboro vermelho – e sorri. Você não devolveu o gesto. Durante uns três minutos ficamos lá, próxima uma da outra pensando no que dizer – já que resolvi fumar aquele cigarro apenas para puxar uma conversa, imagina – mas o último trago foi dela. Quando me virei para perguntar algo, ela já havia desaparecido.

sexta-feira, 4 de março de 2011

eco

A nova casa tinha cheiro de tinta fresca, de folhas secas e parecia ser muito maior agora que Álvaro estava sozinho. Ainda sem móveis. Um árduo trabalho pela frente, já que preencher e decorar requer inspiração, requer um novo fôlego. Completar cada centímetro dessa casa não seria tarefa fácil, mas Álvaro sabia da urgência em começar uma nova vida, uma vida que não queria nascer. A sensação era muito pior do que seu primeiro dia no trabalho. Ele se sentia como um garoto perdido, indefeso. Não sabia como calar aquele grito de medo em seus pensamentos. Os fantasmas de dias passados não poderiam descobrir onde ele estava.

Não dessa vez.

A vida, dividida em passado, presente e futuro, como devia ser, e ele estaria no tempo e no lugar certo. Hoje era aquela casa na beira da estrada, hoje sua cabeça, seu corpo e todas suas ideias faziam dele um só, e daí pra frente esse seria seu consolo, estar intacto, sem ter de correr para agarrar as palavras que escaparam de sua boca, sem ter que apagar as frases impulsivas que escreveu, era só ele, e a partir desse passo, o passo de não se mover, encontraria a paz. E quando os móveis ficam no passado, o conceito também é material.

Ele pediria pra alguém fazer a mudança? Sua nova história acabara de começar, não havia personagens naquele cenário vazio, de céu nublado onde só o vento improvisava a trilha sonora.

Quem é forte o suficiente pra ir até lá e voltar, ir até o fim do túnel já sem luz e agarrar todos seus pertences? Profundo é o poço do passado, que nos enfraquece e nos deixa incapaz de voltar ao presente. Não sem arranhões. O passado te convida pra ficar, pra ser parte dele. Seria melhor então gastar suas economias e comprar móveis novos? Ainda assim, teria de abandonar, como já havia prometido a si mesmo, as fotografias, as cartas e sua coleção de discos. Um homem sem passado, fingindo eternamente a inocência de ter nascido hoje.

Aguentaria um dia. Se fosse preciso, deixaria o sono de lado. E para que esse dia durasse para sempre, foi até o centro da pequena cidade, comprou uma cafeteira, pó de café e um maço de cigarros.

quinta-feira, 3 de março de 2011

sobre encontros

Junho. Final de outono, estação favorita de Miguel. Como estava chovendo muito naquela quinta-feira, deixou a bicicleta em casa e resolveu ir ao trabalho de metrô.

No final do dia, horário de pico, aquele tumulto para embarcar o deixava em estado de pânico. Ficou sentado em um daqueles bancos marrons até a situação se acalmar. Pelo menos tinha seu livro como distração, já que até observar aquelas pessoas apressadas o deixava inquieto. Quando estava prestes a tirar seu livro da bolsa, percebeu que uma garota estava encostada na parede ao seu lado com uma aparência um pouco pior que a sua. Perguntou o que ela estava sentindo e ofereceu seu lugar. Ela, pálida e indiferente agradeceu em voz baixa sem olhar para seu rosto, mas pelo menos respondeu sua pergunta:
- Minha pressão baixou.
Miguel saiu e comprou um copo d’ água, não sabia na verdade o que oferecer para alguém que está com a pressão baixa.
- Obrigada.
Passaram-se menos de cinco minutos e Miguel conseguiu arrancar daquela linda garota loira, informações para que ele pensasse nela durante as próximas horas.
-Acho que vou pegar um táxi, não me sinto bem. Mas obrigada pela água.
O garoto não conseguiu mais se concentrar no livro e viu que no banco em que a garota havia sentado ficara sua carteira. Abriu-a, num de seus cartões estava o nome da dona, Marcela. Mas ela já havia sido engolida pela multidão.

Quando chegou em casa, Miguel telefonou para o número do celular que estava na carteira. Ela atendeu, parecia que estava aguardando a ligação. Lembrou-se na hora de Miguel e marcaram de se ver.
-Você pode me encontrar amanhã perto do metrô? Umas três da tarde?
Miguel acabara de arranjar um emprego e não podia faltar, mas não pensou duas vezes.
-Pode ser, te espero ali em cima, na praça.
-Certo. Obrigada e até amanhã!

Na sexta-feira, Miguel acordou lá pelas dez horas, ligou para seu chefe e disse que estava com enxaqueca. Tomou um banho e colocou sua camisa favorita. Leu o jornal, deixou a TV ligada para se distrair enquanto almoçava e, ansioso, saiu mais cedo do que deveria.

Ainda faltavam quinze minutos para as três. Passou numa tabacaria e comprou um maço de cigarros para matar o tempo. Escolheu o banco mais limpo, que ficava bem no meio da praça, assim, ela não teria como não vê-lo. Agora só faltavam mais cinco minutos. “O tempo para terminar o meu cigarro”, pensou. Do seu lado, alguns senhores jogavam dominó e riam o tempo todo. Riu por dentro também quando percebeu que usava uma boina idêntica a de um senhor que olhava para ele com um sorriso no rosto terno e enrugado. Seu último trago e nem sinal de Marcela. Mas não havia problema, hoje em dia numa cidade caótica como São Paulo ninguém mais consegue ser pontual. Abriu seu livro, mas a cada dez segundos parava sua leitura para ver se ela não estava se aproximando. Quatro horas. Havia outro banco que parecia ser melhor, a mesa de dominó dos velhinhos poderia atrapalhar a visão de Marcela quando chegasse. Deu uma volta ao redor da praça, comprou uma revista e mudou de banco.

“É só uma carteira”. A última vez que Miguel ficara ansioso daquela forma foi há exatamente um ano, seu último encontro. Depois daquele momento, a vida parecia lhe dar dias repetidos e nada mais fazia com que ele perdesse um pouco de ar. Mais algumas horas se passaram, o Sol já não iluminava seu rosto. Terminou de ler a revista, o livro e fumou todos os cigarros. A fome batia impiedosamente em seu estômago, que ao contrário dele, não podia esperar. Mas e se ele fosse até o café e ela aparecesse por lá?

Comprou um cappuccino para viagem e tomou ali mesmo no banco, com uma certa desconfiança de que ela havia passado enquanto eles esteve fora durante aqueles longos três minutos. Perguntou aos velhinhos se eles não viram uma garota loira, de cabelos curtos por lá, eles disseram que não.

“Como alguém que perde a carteira com todos os documentos consegue passar o dia inteiro sem se preocupar em tê-la em mãos”. Miguel ligou várias vezes para Marcela, mas o celular parecia estar desligado. O que mais ele podia fazer? Pensou em ir até a sessão de achados e perdidos da estação e deixar a carteira lá, com um bilhete talvez. Mas ele deu sua palavra de que estaria lá...

Anoiteceu, os velhinhos foram para suas respectivas casas encontrar suas esposas, jantar ou fazer qualquer coisa rotineira e confortável. Alguém certamente estava esperando por eles. Sete, oito, nove horas e ela não apareceu. Miguel mudou de banco.

pastel de queijo


O amor da vida de Isabel partira há um ano e três meses. Calada, engoliu as lágrimas. E não eram poucas, lágrimas por alguém que se vai depois de quase cinco décadas podem afogar qualquer um. Passou dias e noites acordadas, observando aquelas estantes da biblioteca de sua casa, ainda conservadas, pois havia quem as limpasse duas vezes por semana. Sobre a mesa, uma fruteira com maçãs verdes, vermelhas, uvas e peras. Ainda ali porque não havia quem as comesse, ainda brilhantes, pois havia quem as trocasse uma vez por semana.

Mas um dia deu um basta naquele silêncio. Quer dizer, ela resolveu tentar sobreviver a todas aquelas memórias que surgiam com o cheiro de frutas e voltou a frequentar a feira de sexta como fizera toda a vida. Se aquela mesa gigantesca em que mal se sentava para fazer suas refeições pedia por belas frutas, ela mesma iria buscá-las, e, quem sabe, come-las, ou ao menos convidar alguém para tirá-las de cena.

Claudia, sua única filha não tinha como deixar seu filho, Lucas, sozinho em casa e pediu a Isabel para que o garoto passasse a manhã de uma sexta-feira em sua casa. Sexta-feira fria. Nublada. Mas mesmo assim, aquela senhora estava cansada de ficar empoeirando em casa, ela sabia que precisava sair dali, tomar um ar e tinha que ser aquele dia. Lucas, seu único neto, seria a sua companhia. Ele, tão extrovertido deixava a avó até constrangida por não poder compartilhar daquele sorriso que iluminava aquela manhã. Não existiam riscos. A saudade era a única que a poderia derrubar. Mas ela estava preparada e se Claudia chegasse antes do previsto, iria ler o bilhete na geladeira.

O garoto, todo feliz, acompanhou sua avó, de mãos dadas no começo, depois apenas lado a lado, ambos observando aquele lugar como se nunca tivessem ido para a feira. Os mesmos vendedores, algo que ela não desejava muito ver. Iriam fazer inúmeras perguntas “por onde andou?” “há quanto tempo!”... Seu Luis adorou o garoto, deu-lhe tangerinas e Dona Marta, um pedacinho de melão. Andaram, compraram pêssegos, maçãs e o fantasma de seu marido não estava lá, e sua voz era encoberta pela dos feirantes que anunciavam seus produtos. No final do passeio, Isabel levou Lucas para comer pastel com caldo de cana. Os olhos do garoto brilharam quando viu que se aproximavam daquela banca. O garoto quase nunca comia fritura, Claudia controlava sua alimentação de forma rigorosa. Pediu de queijo, claro, como toda criança. Isabel arriscou e pediu um para ela também. Sentaram-se e desfrutaram daquele momento, ambos sorrindo, sem nada a dizer.

elisa

Hoje não tem problema. Elisa disse para si. Já nem sabia mais exatamente há quantos dias não escutava aquela música. Eu bem que tentei. Tentou mesmo. Mas isso não é de hoje. E bem que arriscou o amor de outras pessoas. Substituir. Não deu certo. Nunca dá. Elisa não tem forças para tentar correr atrás. Pra seguir em frente muito menos. Arranjou um gatinho de estimação. Comprou roupas novas. Tem um amante. Mas tem aquele velho disco guardado ainda. Não com o resto de sua coleção. Ela bem que tem consciência do vício. Mas o que se conversa com o amante? Mas o que se faz numa segunda-feira chuvosa? É tão normal...cair.

Lê, faz o gato dormir, dá comida para os peixes, prepara um café. Mas ele não está lá. Não está pensando nela e nem vai pensar. E ela sabe. E ela tentou. E a cortina da sala se movimenta com o vento de uma forma tão triste que dá vontade de chorar. Ao mesmo tempo que ela te chama pra ficar ali, encostada por horas com sua xícara olhando lá de cima a cidade adormecer. Ela nunca adormece. Elisa nunca adormece. Mesmo sendo viciada em café. Ela tem um vício muito pior. Ela tem uma memória. Ela ainda tem aquele disco.

terça-feira, 1 de março de 2011

red apples

As férias de janeiro para uma fotógrafa freelancer podem não ser tão animadas.

As moedas em troca de seu trabalho mal deram para pagar o aluguel de sua kitnet quase invisível, engolida pelos grandes prédios do centro da cidade de São Paulo.

O que restou foram alguns rolos de filme. A luz da estação era perfeita para aproveitá-los e ela sabia disso. Mas para Laura isso não significava muita coisa, já que ela não tinha vontade de sair de casa e já havia fotografado o bairro da Santa Cecília de sua janela nos mais diferentes ângulos.

A falta de vontade apaga qualquer luz. Até mesmo a do sol.

Ao contrário do resto do mês, Laura acordou cedo nessa terça-feira. Aqui, cedo significa antes do meio dia.

Preparou uma grande xícara de café e leu seus e-mails. Nenhuma entrevista de emprego agendada. Tirou sua camisola. Pensou em tomar um longo banho e lavar seus cabelos castanhos e compridos e sair de casa e respirar ar fresco e cumprimentar as pessoas e ir à padaria e encontrar o amor de sua vida na fila do pão, mas colocou um shorts de nylon e uma camiseta velha de banda, com dezenas de furos e se sentou no sofá e lá ficou, paralisada por algumas horas e depois disso deitou-se e dormiu por uns dezessete minutos e acordou e seu estômago roncou.

Mas se ela quisesse matar a fome teria de ir até o supermercado ou pedir comida pelo telefone mas ela não queria falar com ninguém.

Então viu que havia uns três copos na pia, uma faca e dois garfos. Se levantou do sofá e resolveu lavá-los para se distrair. Procurou o CD mais próximo para escutar enquanto executava aquele árduo trabalho. Encontrou "The Covers Record", da Cat Power. Apertou o play. Laura costumava chorar toda vez que escutava aquele álbum, mas não se importou. Estava vazia. Tão.

Quando terminou a louça abriu a geladeira e pegou a única maçã que havia. Abriu a gaveta de talheres e apanhou uma faca e voltou para o sofá e por mais triste que se sentia, percebeu que aquela era a maçã mais bonita que já vira. Comeu-a lentamente e sentiu até vontade de fotografá-la.

Foi então que percebeu a mais cinematográfica das coincidências: a faixa que estava escutando era uma versão da música de Bill Callahan, Red Apples. Laura sentiu sua vida menos monótona depois daquele momento.

a caneta bic e o verão

Noite de verão. Janeiro diz olá e oferece um pouco de chuva para enfeitar nossa dança. Para refrescar.

Segunda feira que parece final de semana. Eu só quero o bem. Eu só quero o seu bem, o nosso bem, mesmo que pontuando, mesmo que sem fôlego. Às vezes.

Tenho um rolo de filme para fotografar, desbotar, dissolver, enfim, registrar o sol de amanhã. Sim, amanhã tem sol. No verão, o verão não termina depois de uma simples chuva. E vai ser tão legal.

Mas como Ken Kesey e seus discípulos quero registrar o agora também. Quero dominar a linha do tempo, assim como domino a linha desse Moleskine. Aqui com essa caneta Bic de quatro cores, mas que tem apenas a cor azul funcionando direito. Eu costumo usar a cor azul com mais freqüência e ela é a única cor que não falha. Nem sequer acaba.

Assim como Ozu, só quero registrar o encanto da rotina. O sabor do chá mate gelado que mata minha sede e me dá vontade de levantar dessa cama e fazer algo que. E toda essa vontade de, começou quando ascendi a luminária, coloquei o fone de ouvido e comecei a escutar álbum Tigh Knit, do Vetiver, Rolling Sea me despertou.

E eu senti, aliás, me sinto, ainda estou aqui fazendo o mesmo. Tão confortável assim como estar vestindo essa camiseta branca regata e essa bermuda xadrez de algodão, que rima com verão, e nos intervalos de cada gole que dei nesse chá, antes de começar a fotografar com a caneta, eu virava uma página do Teste do Ácido do Refresco Elétrico e pensei que seria fantástico possuir um terço do talento de Tom Wolfe.

Mas isso está um pouco longe de acontecer, já que quando eu perco o fôlego das palavras começo a observar minhas unhas e subitamente coloco um ponto final na minha linha de pensamento, que assim como as outras cores dessa caneta, falha.

E a noite está tão bonita e o livro me chama de volta e eu não tenho outra saída a não ser.