sexta-feira, 4 de março de 2011

eco

A nova casa tinha cheiro de tinta fresca, de folhas secas e parecia ser muito maior agora que Álvaro estava sozinho. Ainda sem móveis. Um árduo trabalho pela frente, já que preencher e decorar requer inspiração, requer um novo fôlego. Completar cada centímetro dessa casa não seria tarefa fácil, mas Álvaro sabia da urgência em começar uma nova vida, uma vida que não queria nascer. A sensação era muito pior do que seu primeiro dia no trabalho. Ele se sentia como um garoto perdido, indefeso. Não sabia como calar aquele grito de medo em seus pensamentos. Os fantasmas de dias passados não poderiam descobrir onde ele estava.

Não dessa vez.

A vida, dividida em passado, presente e futuro, como devia ser, e ele estaria no tempo e no lugar certo. Hoje era aquela casa na beira da estrada, hoje sua cabeça, seu corpo e todas suas ideias faziam dele um só, e daí pra frente esse seria seu consolo, estar intacto, sem ter de correr para agarrar as palavras que escaparam de sua boca, sem ter que apagar as frases impulsivas que escreveu, era só ele, e a partir desse passo, o passo de não se mover, encontraria a paz. E quando os móveis ficam no passado, o conceito também é material.

Ele pediria pra alguém fazer a mudança? Sua nova história acabara de começar, não havia personagens naquele cenário vazio, de céu nublado onde só o vento improvisava a trilha sonora.

Quem é forte o suficiente pra ir até lá e voltar, ir até o fim do túnel já sem luz e agarrar todos seus pertences? Profundo é o poço do passado, que nos enfraquece e nos deixa incapaz de voltar ao presente. Não sem arranhões. O passado te convida pra ficar, pra ser parte dele. Seria melhor então gastar suas economias e comprar móveis novos? Ainda assim, teria de abandonar, como já havia prometido a si mesmo, as fotografias, as cartas e sua coleção de discos. Um homem sem passado, fingindo eternamente a inocência de ter nascido hoje.

Aguentaria um dia. Se fosse preciso, deixaria o sono de lado. E para que esse dia durasse para sempre, foi até o centro da pequena cidade, comprou uma cafeteira, pó de café e um maço de cigarros.

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