domingo, 13 de março de 2011

o intruso

Era para ter sido apenas a situação mais constrangedora da minha vida. Foi mais que isso.

Estava almoçando com minha amiga numa quarta-feira chuvosa e o telefone dela tocou. Era um amigo seu. Ariel. Estava triste e pediu que ela fosse visitá-lo se possível naquele instante.

O que eu pensei?

Bom. Quem é que não se sente triste em um dia nublado?

Minha amiga, inconveniente, porém não mais do que eu, me pediu para acompanhá-la.
“Em três não tem crise”. Ela falou.

E eu fui.

Na verdade pouco me importava aquela situação. Quando entramos naquele apartamento de paredes azul pastel que pendurava um pôster do disco Tigermilk do Belle and Sebastian tudo mudou e eu fiquei com vontade de ir embora. Parecia que aquele lugar era meu, criado pela minha fértil imaginação e eu não soube como reagir.
Ariel olhou pra mim e levou um susto. Quer dizer, seus olhos se arregalaram naquele momento em que eu não queria enxergar aquela cena constrangedora.

“Onde é que esse cara pensa que está?”. Ele deve ter pensado. Quase que em voz alta.
E eu, acreditando ingenuamente que podia corrigir o erro disse “Eu espero você no carro”.

A resposta da minha amiga?

“Deixa eu te apresentar o Igor”.

Daí ela contou que nós estávamos almoçando juntos etc. Mas não em tom de desculpas. Jamais.

Ariel mudo, só estendeu os braços nos convidando para entrar em sua casa.

“Pôster legal.” Arrisquei.

Ganhei um sorriso tímido.

“Podia ser pior”. Pensei.

Não podia.

Um toca-discos portátil de um laranja gritante, daqueles da década de 70, embalava aquela tarde cinza com Illumination, do The Pastels, acho que a música daquele momento era "Fragile Gang", nunca consegui me lembrar exatamente.

“Bom. Não deve estar tão triste”.

Sentamo-nos num sofá marrom, tão confortável, ao mesmo tempo em que eu queria pular da janela daquela sala e começava a gostar daquilo tudo.
“Estava tomando café, mas acho melhor abrirmos um vinho, não?”

Ninguém se opôs.

A conversa iniciava-se e percebi que Ariel queria companhia não para compartilhar tristezas, mas para ajudá-lo a esquecê-las. Sua barba e seus cabelos castanhos claro estavam com cheiro de shampoo e seu pijama, de sabonete.

“Já estive pior.” Pensei.

E só fui pensar comigo mesmo quando já havíamos tomado quatro garrafas de vinho e conversado tudo sobre Belle and Sebastian.

Fomos para a cozinha e preparamos um fettuccine ao molho branco. Ríamos e abrimos outra garrafa. Fazia tempo que não tomava vinho tinto feito um adolescente.

E depois?

Bom. Lembro que, ainda na cozinha, quando Ariel pegou a colher da minha mão para provar o molho eu o beijei. Não me sentia mais um intruso. Ele olhou pra mim e sorriu.

E eu nunca mais saí daquela casa.

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