sexta-feira, 11 de março de 2011

pão doce

Era o mesmo despertador que os acordava há mais de quarenta anos. Era irritante, mas tinha história.

Aquele dia amanheceu aborrecido e, devido a tanto rancor logo começou a chover. Jaime, teimoso que era saiu de casa mesmo assim. Tanto ele quanto Isabel acordavam por volta das nove da manhã. Um horário razoável, mas que os diferiam da maioria de seus amigos que, mesmo sem ter o que fazer, levantavam mais cedo só pra ter mais tempo para reclamar da vida. Naquele dia Jaime acordara primeiro e, sem avisar sua esposa saiu de casa para seguir sua rotina de comprar o pão e o jornal. Seu Antônio, o padeiro já sabia o pedido de Jaime “dois pãezinhos”, mas nesse dia ele resolvera matar alguns minutos na padaria e tomou um café com seus velhos amigos que viviam ali sentados no balcão. A chuva apertou e ele ficou lá até que o despertador tocou e Isabel viu que estava sozinha em casa. Na mesa da cozinha, havia um bilhete: “Não quis te acordar. Volto logo.”

A velhinha olhou para toda bagunça que enchia aquela casa e se sentiu vazia. Não lembrava mais quando fora a última vez em que tomaram café naquela mesa que hoje os jornais, as caixas de remédios e os livros ocupavam. A sala era a mesma coisa. O quarto também. Nenhum deles ligava pra isso. Isabel, orgulhosa, não queria que ninguém viesse limpar a casa, Jaime não sentia tal necessidade. Ficava por isso. Mas aquela quinta-feira a incomodou, aquela mesa a incomodou, estar sozinha não parecia tão cômodo como ela pensava. Não naquela manhã, sem Jaime, que podia estar tomando chuva, que podia nem estar pensando nela. O que se espera de alguém depois de tantos anos juntos? Apenas o estar, o estar é o máximo que alguém pode alcançar, a estabilidade de ter alguém do seu lado para ouvir você reclamando do tempo nublado, do despertador, da vida. Um par. E como era bom estar.

Isabel tomou um banho demorado. Atrás das orelhas e nos punhos colocou algumas gotinhas do perfume que Jaime tanto gostava. Seu brinco de pérolas, seu casaquinho de lã. Empilhou todos os jornais, não deixou nada na mesa daquela cozinha que agora parecia maior. Abriu a gaveta e procurou seu caderno de receitas. Ela sabia todas de cor, mas fazia questão de reler a receita. Pão doce. Faria um pão doce para seu marido. Ele chegaria daquela tempestade e o comeria acompanhado de uma xícara de chá.

Quando Jaime chegou, estava ensopado. Isabel o ajudou a tirar o casaco. Ele tomou um banho quente e quando terminou o pão doce já estava pronto. O cheiro se misturava com o perfume de sua amada esposa que sorria ternamente por sentir aquela paz, por sentir aquela companhia, Jaime retribuiu. Sentaram-se a mesa surpreendentemente espaçosa e riram durante um bom tempo, relembrando do dia em que se conheceram, do perfume que marcara para sempre as narinas de seu marido, do dia em que compraram a mesa e sobre aquele momento. Sem jamais pensar no dia seguinte.

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