quinta-feira, 3 de março de 2011

pastel de queijo


O amor da vida de Isabel partira há um ano e três meses. Calada, engoliu as lágrimas. E não eram poucas, lágrimas por alguém que se vai depois de quase cinco décadas podem afogar qualquer um. Passou dias e noites acordadas, observando aquelas estantes da biblioteca de sua casa, ainda conservadas, pois havia quem as limpasse duas vezes por semana. Sobre a mesa, uma fruteira com maçãs verdes, vermelhas, uvas e peras. Ainda ali porque não havia quem as comesse, ainda brilhantes, pois havia quem as trocasse uma vez por semana.

Mas um dia deu um basta naquele silêncio. Quer dizer, ela resolveu tentar sobreviver a todas aquelas memórias que surgiam com o cheiro de frutas e voltou a frequentar a feira de sexta como fizera toda a vida. Se aquela mesa gigantesca em que mal se sentava para fazer suas refeições pedia por belas frutas, ela mesma iria buscá-las, e, quem sabe, come-las, ou ao menos convidar alguém para tirá-las de cena.

Claudia, sua única filha não tinha como deixar seu filho, Lucas, sozinho em casa e pediu a Isabel para que o garoto passasse a manhã de uma sexta-feira em sua casa. Sexta-feira fria. Nublada. Mas mesmo assim, aquela senhora estava cansada de ficar empoeirando em casa, ela sabia que precisava sair dali, tomar um ar e tinha que ser aquele dia. Lucas, seu único neto, seria a sua companhia. Ele, tão extrovertido deixava a avó até constrangida por não poder compartilhar daquele sorriso que iluminava aquela manhã. Não existiam riscos. A saudade era a única que a poderia derrubar. Mas ela estava preparada e se Claudia chegasse antes do previsto, iria ler o bilhete na geladeira.

O garoto, todo feliz, acompanhou sua avó, de mãos dadas no começo, depois apenas lado a lado, ambos observando aquele lugar como se nunca tivessem ido para a feira. Os mesmos vendedores, algo que ela não desejava muito ver. Iriam fazer inúmeras perguntas “por onde andou?” “há quanto tempo!”... Seu Luis adorou o garoto, deu-lhe tangerinas e Dona Marta, um pedacinho de melão. Andaram, compraram pêssegos, maçãs e o fantasma de seu marido não estava lá, e sua voz era encoberta pela dos feirantes que anunciavam seus produtos. No final do passeio, Isabel levou Lucas para comer pastel com caldo de cana. Os olhos do garoto brilharam quando viu que se aproximavam daquela banca. O garoto quase nunca comia fritura, Claudia controlava sua alimentação de forma rigorosa. Pediu de queijo, claro, como toda criança. Isabel arriscou e pediu um para ela também. Sentaram-se e desfrutaram daquele momento, ambos sorrindo, sem nada a dizer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário