quinta-feira, 24 de março de 2011

puta que o pariu

Não recordo o ano, Tinha seis, sete anos no máximo e cursava a primeira série do primário.

Eu voltava da escola todos os dias na perua escolar; era assim que chamavam aquela Kombi branca com uma faixa amarela que hoje nem existe mais, recheada de crianças ansiosas para voltar pra casa. Não tanto quanto eu, que não me divertia naquela que para a maioria era uma viagem alucinante.

Quem dirigia aquela caixa barulhenta sobre rodas era um jovem senhor de cinqüenta e poucos anos, acho que; cabelos brancos penteados para o lado, camisa pólo e um par de óculos. Chamava-se Vilmar.

A alegria de todas as crianças, inclusive a minha, era voltar pra casa no “banco da frente”. Quando o Seu Vilmar chegava para nos buscar e descia da Kombi todos iam atrás dele, pedindo, suplicando para ir no banco da frente. Eu não lembro se tinha coragem suficiente para agir daquela forma, mas eu consigo me ver no meio daquele ninho de crianças, quase todas banguelas, sem um ou dois “dentes da frente”.

Eu não recordo claramente qual era a “regra” para poder se sentar no banco do passageiro, mas lembro que o Seu Vilmar até que deixava eu viajar ao seu lado quase sempre; o motivo era que eu me comportava, era “quietinha”, mas talvez, no fundo, era apenas dó.

Eu ficava feliz, embora não demonstrasse minha alegria com um sorriso (nunca fui boa nisso). Eu só queria me livrar daqueles seres barulhentos. Também gostava de ouvir a rádio - lembro-me que tocava muito Whitney Houston, por causa do filme O Guarda Costas e de ter uma janela só pra mim.

Independente do banco em que eu me sentava ouvia sempre o Seu Vilmar xingando as pessoas no trânsito e buzinando; lembro perfeitamente da sua voz dizendo “puta que o pariu”, mas quando eu sentava no banco do passageiro podia prestar mais atenção nos seus gestos; toda vez que ele falava puta que o pariu, batia, socava o painel da Kombi; e eu relacionava aquela expressão desconhecida – meus pais nunca foram de falar palavrão, àquela parte do veículo. Eu tentava entender e acabei acreditando, não por muito tempo, que puta que o pariu era o porta-luvas do carro.

Um dia cheguei em casa, e ainda não havia anoitecido porque lembro da tonalidade da luz desse momento; provavelmente eu entrei correndo e subi as escadas em direção ao banheiro para fazer xixi. Minha mãe estava no banheiro e num determinado instante - eu ainda sentada no vaso - perguntei a ela:

“Mãe, o que é puta que o pariu?”

Eu não sei se tentei, mas acho que sim, falar do porta-luvas. Acho que minha mãe se agachou para ficar exatamente na minha altura para responder, sem ar de surpresa a minha pergunta.

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