terça-feira, 1 de março de 2011

red apples

As férias de janeiro para uma fotógrafa freelancer podem não ser tão animadas.

As moedas em troca de seu trabalho mal deram para pagar o aluguel de sua kitnet quase invisível, engolida pelos grandes prédios do centro da cidade de São Paulo.

O que restou foram alguns rolos de filme. A luz da estação era perfeita para aproveitá-los e ela sabia disso. Mas para Laura isso não significava muita coisa, já que ela não tinha vontade de sair de casa e já havia fotografado o bairro da Santa Cecília de sua janela nos mais diferentes ângulos.

A falta de vontade apaga qualquer luz. Até mesmo a do sol.

Ao contrário do resto do mês, Laura acordou cedo nessa terça-feira. Aqui, cedo significa antes do meio dia.

Preparou uma grande xícara de café e leu seus e-mails. Nenhuma entrevista de emprego agendada. Tirou sua camisola. Pensou em tomar um longo banho e lavar seus cabelos castanhos e compridos e sair de casa e respirar ar fresco e cumprimentar as pessoas e ir à padaria e encontrar o amor de sua vida na fila do pão, mas colocou um shorts de nylon e uma camiseta velha de banda, com dezenas de furos e se sentou no sofá e lá ficou, paralisada por algumas horas e depois disso deitou-se e dormiu por uns dezessete minutos e acordou e seu estômago roncou.

Mas se ela quisesse matar a fome teria de ir até o supermercado ou pedir comida pelo telefone mas ela não queria falar com ninguém.

Então viu que havia uns três copos na pia, uma faca e dois garfos. Se levantou do sofá e resolveu lavá-los para se distrair. Procurou o CD mais próximo para escutar enquanto executava aquele árduo trabalho. Encontrou "The Covers Record", da Cat Power. Apertou o play. Laura costumava chorar toda vez que escutava aquele álbum, mas não se importou. Estava vazia. Tão.

Quando terminou a louça abriu a geladeira e pegou a única maçã que havia. Abriu a gaveta de talheres e apanhou uma faca e voltou para o sofá e por mais triste que se sentia, percebeu que aquela era a maçã mais bonita que já vira. Comeu-a lentamente e sentiu até vontade de fotografá-la.

Foi então que percebeu a mais cinematográfica das coincidências: a faixa que estava escutando era uma versão da música de Bill Callahan, Red Apples. Laura sentiu sua vida menos monótona depois daquele momento.

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