quinta-feira, 3 de março de 2011

sobre encontros

Junho. Final de outono, estação favorita de Miguel. Como estava chovendo muito naquela quinta-feira, deixou a bicicleta em casa e resolveu ir ao trabalho de metrô.

No final do dia, horário de pico, aquele tumulto para embarcar o deixava em estado de pânico. Ficou sentado em um daqueles bancos marrons até a situação se acalmar. Pelo menos tinha seu livro como distração, já que até observar aquelas pessoas apressadas o deixava inquieto. Quando estava prestes a tirar seu livro da bolsa, percebeu que uma garota estava encostada na parede ao seu lado com uma aparência um pouco pior que a sua. Perguntou o que ela estava sentindo e ofereceu seu lugar. Ela, pálida e indiferente agradeceu em voz baixa sem olhar para seu rosto, mas pelo menos respondeu sua pergunta:
- Minha pressão baixou.
Miguel saiu e comprou um copo d’ água, não sabia na verdade o que oferecer para alguém que está com a pressão baixa.
- Obrigada.
Passaram-se menos de cinco minutos e Miguel conseguiu arrancar daquela linda garota loira, informações para que ele pensasse nela durante as próximas horas.
-Acho que vou pegar um táxi, não me sinto bem. Mas obrigada pela água.
O garoto não conseguiu mais se concentrar no livro e viu que no banco em que a garota havia sentado ficara sua carteira. Abriu-a, num de seus cartões estava o nome da dona, Marcela. Mas ela já havia sido engolida pela multidão.

Quando chegou em casa, Miguel telefonou para o número do celular que estava na carteira. Ela atendeu, parecia que estava aguardando a ligação. Lembrou-se na hora de Miguel e marcaram de se ver.
-Você pode me encontrar amanhã perto do metrô? Umas três da tarde?
Miguel acabara de arranjar um emprego e não podia faltar, mas não pensou duas vezes.
-Pode ser, te espero ali em cima, na praça.
-Certo. Obrigada e até amanhã!

Na sexta-feira, Miguel acordou lá pelas dez horas, ligou para seu chefe e disse que estava com enxaqueca. Tomou um banho e colocou sua camisa favorita. Leu o jornal, deixou a TV ligada para se distrair enquanto almoçava e, ansioso, saiu mais cedo do que deveria.

Ainda faltavam quinze minutos para as três. Passou numa tabacaria e comprou um maço de cigarros para matar o tempo. Escolheu o banco mais limpo, que ficava bem no meio da praça, assim, ela não teria como não vê-lo. Agora só faltavam mais cinco minutos. “O tempo para terminar o meu cigarro”, pensou. Do seu lado, alguns senhores jogavam dominó e riam o tempo todo. Riu por dentro também quando percebeu que usava uma boina idêntica a de um senhor que olhava para ele com um sorriso no rosto terno e enrugado. Seu último trago e nem sinal de Marcela. Mas não havia problema, hoje em dia numa cidade caótica como São Paulo ninguém mais consegue ser pontual. Abriu seu livro, mas a cada dez segundos parava sua leitura para ver se ela não estava se aproximando. Quatro horas. Havia outro banco que parecia ser melhor, a mesa de dominó dos velhinhos poderia atrapalhar a visão de Marcela quando chegasse. Deu uma volta ao redor da praça, comprou uma revista e mudou de banco.

“É só uma carteira”. A última vez que Miguel ficara ansioso daquela forma foi há exatamente um ano, seu último encontro. Depois daquele momento, a vida parecia lhe dar dias repetidos e nada mais fazia com que ele perdesse um pouco de ar. Mais algumas horas se passaram, o Sol já não iluminava seu rosto. Terminou de ler a revista, o livro e fumou todos os cigarros. A fome batia impiedosamente em seu estômago, que ao contrário dele, não podia esperar. Mas e se ele fosse até o café e ela aparecesse por lá?

Comprou um cappuccino para viagem e tomou ali mesmo no banco, com uma certa desconfiança de que ela havia passado enquanto eles esteve fora durante aqueles longos três minutos. Perguntou aos velhinhos se eles não viram uma garota loira, de cabelos curtos por lá, eles disseram que não.

“Como alguém que perde a carteira com todos os documentos consegue passar o dia inteiro sem se preocupar em tê-la em mãos”. Miguel ligou várias vezes para Marcela, mas o celular parecia estar desligado. O que mais ele podia fazer? Pensou em ir até a sessão de achados e perdidos da estação e deixar a carteira lá, com um bilhete talvez. Mas ele deu sua palavra de que estaria lá...

Anoiteceu, os velhinhos foram para suas respectivas casas encontrar suas esposas, jantar ou fazer qualquer coisa rotineira e confortável. Alguém certamente estava esperando por eles. Sete, oito, nove horas e ela não apareceu. Miguel mudou de banco.

Nenhum comentário:

Postar um comentário