terça-feira, 26 de abril de 2011

tulipas

Aquele foi o primeiro apartamento que eu aluguei na minha vida. Eu tinha vinte e quatro anos e um emprego ruim. Não tão ruim ao ponto de não conseguir me virar, ou morrer de fome, ou acabar na casa dos meus pais pra sempre. Eu trabalhava numa livraria. Eu era teoricamente uma vendedora; mas fazia de tudo um pouco: cadastrava no sistema os títulos que chegavam, ajudava a arrumar o estoque, dava dicas dos melhores livros, das melhores edições, dos melhores preços, aos clientes.

Eu havia terminado a faculdade de letras há quase um ano e não sabia ao certo o que iria fazer com o meu diploma. Desde então não estava mais estudando, teoricamente, já que amo ler e.

Pela primeira vez na minha vida eu estava morando sozinha. Decidi isso porque não me acho interessante ao ponto de dividi-la com outra pessoa. Tinha três amigos que também moravam longe dos pais; então alugar um apartamento só pra mim parecia ter sido a melhor coisa a se fazer.

Assim como hoje eu estava solteira, não que eu me importe...

Meu apartamento era muito pequeno, então meu único animal de estimação era um peixe beta, o Ricardo. Ele vivia num aquário redondo e fácil de carregar, dessa forma, eu o levava comigo para todos os cantos da casa: sala, quarto, cozinha.

Eu nunca havia dado muita importância a decoração, mas depois que passei a viver sozinha, passei a pensar sobre. Comecei com uma tarefa que me parecia ser a menos difícil: flores. Como não gosto de nada muito artificial passei a frequentar a floricultura aqui perto uma vez por semana.

Um moço de avental azul, que assim como eu, usava óculos e diferente de mim, tinha um bigode engraçado, me atendeu.

- Posso ajudar a senhorita?

Contei a ele que eu gostaria de saber mais sobre flores e ele me ajudou; ele era a pessoa adequada para me ajudar nisso, já que trabalhava lá e, como me contou, estudava paisagismo, mas no fundo achei que ele me deu uma dica um tanto pessoal.

- Gosto de tulipas.

Foram as que eu acabei levando. E as levo até hoje.

Não sei se devo contar, mas acabei me apaixonando por aquele vendedor, o Mateus.

Tentei esconder aquele sentimento que tomou conta de mim, mas eu passei a frequentar até mesmo a padaria em que ele tomava café da manhã antes de ir para a floricultura só para dizer “oi”.

Depois de alguns dias passei a pedir tulipas pelo telefone e Mateus as trazia na porta de casa. Desde o início o porteiro do prédio deixava-o subir até meu apartamento, pois achava que ele era apenas um namorado maluco que me mandava flores toda semana.

Como sempre, tínhamos muito o que conversar. Acabei deixando-o entrar em casa depois de algumas semanas. Assim ele poderia ver como estavam as tulipas e até mesmo tomar chá de maçã comigo. Ele também gostava de colocar um pouco de canela.

Até que um dia ele apareceu com um pão doce recheado de maçãs acompanhado das flores. E. Bom. Vou logo dizer: nos beijamos nesse dia e começamos a namorar. Passamos a sair pelo centro da cidade para tomar sorvete, a ir ao cinema, a falar mais sobre nossas vidas.

No meu aniversário ele me escreveu um poema. Um poema sobre mim. Com o meu nome.

Acho que até Ricardo gostava de Mateus.

Mateus era tão cuidadoso que vez ou outra trazia ração para Ricardo, que já havia ganhado pedrinhas coloridas para seu aquário também.

Sexta-feira passada liguei na floricultura e quem atendeu o telefone foi dona Matilde. Para não haver nenhum mal entendido não pedi para falar com Mateus, apenas disse: “quero minhas tulipas de sempre”.

Pouco depois o porteiro me ligou dizendo que era da floricultura. Eu achei engraçado ele não dizer que era o Mateus. Era o marido da dona Matilde, seu Antônio. Eu o cumprimentei sem jeito, e para não parecer um mal entendido, apenas paguei as flores e me despedi.

À noite liguei para Mateus e ele não atendeu ao telefone. Liguei no sábado, no domingo e como eu não sabia o endereço de sua casa, tive de esperar até segunda-feira para ir até a floricultura.

Ele não estava lá.

Tive que perguntar por Mateus. Não agüentava mais aquele desespero todo.

- Ele não trabalha mais aqui, querida.

Eles acabaram contando-me que ele se demitira, que havia ido embora da floricultura na quinta-feira, mas não sabiam me dizer por quê e nem para onde ele foi.

Nós ainda tínhamos conversado na quinta-feira de manhã na padaria...

Tudo o que consegui foi o número do telefone da casa dos pais dele. Tomei coragem e liguei. Perguntei se sabiam onde é que ele estava.

Alternativa A: Ele estava na casa de sua esposa;
Alternativa B: Ele estava morto;
Alternativa C: Ele viajara para o exterior;
Alternativa D: Ele estava dormindo;
Alternativa E: “Vou chamá-lo, aguarde um instante”;

Desliguei o telefone.

domingo, 24 de abril de 2011

teclas, pouco ruído

Já faz anos e minha barba cresceu. Mas aquela história ainda possui o frescor de uma conversa pós-cinema. Falo sobre como se tivesse sido há apenas três minutos. A memória não falha.

E continuo almoçando no mesmo lugar. Na mesma mesa, quando dá.

E não tenho medo de assistir ao mesmo filme.

E sua camisa marcada com seu perfume está envolta da cadeira em que me sento para escrever isso aqui.

E você nunca lerá. E nem quero que.

Melhor eu lavar o rosto.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

antes mesmo do almoço

Segunda-feira de manhã de outono de abril que mais parece de tarde de verão, de dezembro, de final de dezembro. Eu saio de sua casa antes mesmo do almoço. Nossa conversa foi tão agradável que. Resolvo tomar um sorvete enquanto aprecio uma exposição de fotografias. Baunilha, chocolate, fotojornalismo. Antes mesmo do almoço. E foi tão agradável.

Às vezes gosto de andar só pelas galerias, de apreciar as vitrines das grandes livrarias, sem pressa sem esperar.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

praça da república - são paulo

Te amo há tanto tempo e lembro muito bem que a primeira vez em que te liguei para marcarmos nosso primeiro encontro foi num orelhão da Telesp.

da janela


Parece que todo mundo parou de fazer o que estava fazendo para poder apreciar aquele céu amarelo das cinco e pouco da tarde que estampava um arco-íris. Segunda-feira de abril e um arco-íris bem na janela do meu quarto. A última vez que vi um desses foi num sonho. Abril tem disso. E eu não quero que acabe...

sobre sete anos atrás

Ternura tergal terça-feira.

terça-feira, 12 de abril de 2011

pijama de patinhos

Eram quase três da tarde quando Nicolas acordou. Sem tirar o tampão de seus olhos, estendeu suas mãos em direção ao criado-mudo e pegou alguns soníferos, depois tomou um gole d'água, virou para o lado direito, contra a parede, e voltou a dormir. Enquanto isso, sua mãe terminava de almoçar, em companhia do telejornal. Ninguém mais parecia se importar, esta rotina solitária havia começado há quase um ano.
A garagem estava cheia de telas pintadas por sua mãe, que se considerava uma “ex-artista plástica”. Em seu quarto, não se via mais janelas, não havia claridade alguma, apenas um sonho. O sonho de um garoto que não queria ser despertado.

Nos últimos anos, Nicolas havia feito alguns amigos, a maioria da faculdade de cinema, da qual desistiu de cursar quando estava no segundo ano. O pai do velho garoto falecera há cinco anos. Viviam de sua herança e da aposentadoria de sua mãe. Ele não pensava em trabalhar, já não se importava com o futuro, com a carreira que iria seguir, ou o que iria comer no jantar.

Como qualquer um, ele saía quando algum amigo seu ligava, às vezes ia para o cinema, ou algum pub, passar a noite adentro, nada demais. Mas o que ele mais gostava era de comprar pijamas, presentes para sua namorada e visitar as farmácias da redondeza. Também gostava de tocar piano, sua mãe adorava ouví-lo, mas o instrumento estava todo empoeirado, já havia um tempo.

- Filho, está com fome?

- Não. Perdi o sono.

- Já estava na hora. Vou comprar alguns livros hoje, quer me acompanhar?

-Tudo bem, assim passo na farmácia.

- Você está mesmo viciado nesses soníferos.

- Amo você.

- Vá tomar um banho, enquanto eu me troco.

Foram à livraria, foi divertido até. Sua mãe sugeriu de irem tomar um café, mas Nicolas preferiu tomar um sorvete. Assim, não perdia o sono à noite.

- Você poderia me acompanhar mais vezes, já que não faz questão de sair com seus amigos, e com sua namorada, que por sinal, você nunca levou lá em casa.

- Pode ser.

- Mesmo com essa expressão de desânimo, você parece estar muito bem hoje.

- Nem tanto. Não dormi direito.

Nicolas comprou três livrinhos ilustrados do Charlie Brown e um CD do Camera Obscura, Underachievers Please Try Harder, na livraria. Depois de terem tomado sorvete, passaram na farmácia, onde ele comprou duas caixas de soníferos, apresentando uma receita médica que sua mãe desconhecia.

Faltava apenas uma semana para seu aniversário, dia vinte e um de novembro. Nicolas iria completar vinte e dois anos.
Quando estavam voltando para casa, sua mãe comentou:

- Já planejou o que vai fazer no seu aniversário?

- Acho que sim

- Posso saber o quê?

- Vou passar o dia com minha namorada.

- Por que você não a convida para jantar em casa, com seus amigos?

- Já chega.

- Quer alugar um filme?

- Não.

A mãe de Nicolas bem que tentava não palpitar ou se intrometer em sua vida. Mas o velho garoto estava cada vez mais isolado. Fazia quase um ano que estava namorando e ela nem sequer sabia qual era o nome da garota. Não desconfiava que ele estivesse inventando a história, nem que ele fosse gay, pois ele vivia comprando flores, perfumes, vestidos e uma porção de bugigangas de presente a ela. Às vezes, quase nunca na verdade, eles saíam. Era sempre ele que ia buscá-la em casa, ou marcavam de se encontrar em algum lugar. Ela não aparecia sequer na porta de sua casa. Os amigos de Nicolas achavam tudo isso muito estranho, o velho garoto não falava sobre ela com ninguém, e não fazia questão de dar satisfação alguma.

Esta era a segunda namorada de toda sua vida. A primeira ele conheceu quando estava na faculdade, chamava-se Bianca. Eles não se falaram mais, depois que Nicolas foi embora, perderam o contato.

Quando alguém lhe perguntava onde ele conheceu sua atual namorada, Nicolas respondia "Em meus sonhos". Depois disso, ninguém dava continuidade no assunto.

Mas esta era a verdade. Ele jamais mentira.

Há dez, onze meses, Nicolas sonhou estar numa cidade que ele jamais estivera até aquele momento. Curioso, porém amedrontado se refugiou no lugar mais próximo e mais familiar que encontrara ali. Entrou num café e pediu um café gelado. Havia apenas uma mesa vazia. Sentou e começou a folhear uma revista de celebridades que estava sobre a mesa quando uma garota entrou: seus olhos escuros procuravam por uma mesa. Nicolas era extremamente tímido, mas por um impulso desconhecido ele olhou nos olhos da garota e disse:

- Se você quiser se sentar aqui não tem problema, estou só e logo vou embora.

E o que para ele era inesperado aconteceu:

- Eu aceito. Obrigada.

- Nunca estive aqui, sabe onde eu posso pegar um ônibus?

- Há uma praça aqui em frente, e o ponto de ônibus fica ao lado direito do coreto.

- Obrigado!
Eu não conheço esta cidade...

- É. Nunca te vi por aqui.

Nicolas se esquecera de tomar o café. Olhava para aquela linda garota ruiva de cabelos compridos e levemente ondulados de jaqueta marrom e camiseta listrada e não prestava atenção em mais nada.

- E você, para onde vai?

- Vou assistir a um filme, comprei o ingresso, e como ainda é cedo, resolvi tomar um chá...

- Gostei deste lugar, voltarei aqui mais vezes. Posso saber qual é o seu nome?

- Natasha.

- Aceita tomar um café comigo amanhã?

- Só se for neste horário. À noite viajo com uns amigos...

- Pode ser aqui mesmo então?

- Sim.

- Agora vou pra casa. Minha mãe deve estar preocupada. Estou fora da cidade e ela nem sabe.

Nicolas se aproximou de Natasha para beijar seu rosto e ela sussurrou em seu ouvido: até amanhã.

Quando o velho garoto estava correndo em direção ao ponto de ônibus, acordou. Daí em diante Nicolas ficou obcecado por Natasha, a garota mais real da sua vida que vivia numa cidade que não existia. Ao invés de tentar esquecer aquilo Nicolas deixou de lado todos os livros de literatura e estudos do cinema de lado e embarcou numa leitura sobre o mundo dos sonhos, da psicanálise e aprendeu a controlar seus sonhos até conseguir encontrar a garota sempre que quisesse.

Milhares de soníferos, dezenas de pijamas, presentes espalhados pelo quarto completamente escuro, onde nada se ouvia. Nicolas isolou todo o som daquela realidade infeliz e entediante e desejou dormir pra sempre. Ninguém poderia entender tal desejo. Todos achavam que ele estava em depressão, enquanto ele vivia a mais bela história de amor de sua vida.

Ele acreditava que a cidade e em que encontrara Natasha era real, porque lá havia uma condução que ia até a rua da sua casa. Mas toda vez que Nicolas ia pegar ônibus, ele acordava ou algo o impedia. Na verdade, ele ficara preso ali desde a primeira vez em que sonhou com aquele lugar e ficou para tomar um café, mas não queria pensar sobre isso. Acordado estava fora, estava longe.

A semana de seu aniversário chegara. Sua mãe sugeriu mais uma vez em dar-lhe uma festa.

-Não quero nada, já disse.

- Não aguento te ver deste jeito, Nic.

- Faça o que achar melhor então.

-Tudo bem, boa-noite!

-Boa-noite.

O telefone tocou:

- Nicolas, está me ouvindo?

- Oi, é o Álvaro, o que acha de sairmos para beber um pouco e jogar sinuca?

- Melhor não.

- Ora, seu aniversário é neste sábado, vamos comemorar, podemos sair para dançar depois. O Benjamin, a Stella e a Sofia também estão aqui te convidando. Você faz falta!

- Está bem, venham aqui em casa me buscar.

- Já estamos a caminho!

Nicolas desligou o telefone e foi tomar um banho.

Passaram a noite fora, todos juntos, mas o velho garoto tinha uma certa dificuldade em se divertir. As músicas eram as mesmas como sempre, as pessoas eram as mesmas também. E ele tão sóbreo, mesmo com seus pensamentos longe dali. Talvez ele pudesse sorrir se Natasha estivesse lá.

"Bem que ela podia estar sentada no balcão do bar" pensou.

Mas ele estava só. Sem se despedir de seus amigos foi embora às quatro e vinte da madrugada. Pegou um taxi. Parou numa farmácia, comprou uma caixa de soníferos e uma garrafa de água. Não podia esperar chegar em casa. Sem medo de misturar o remédio com a vodka que não provocou efeito algum, Nicolas pegou alguns comprimidos e engoliu. Pediu um cigarro ao taxista, abriu o vidro da janela, e suas lágrimas correram contra o vento, contra aquela cidade que não dormia, contra seus pensamentos e todas aquelas pessoas que não significavam nada para ele, deixando seu rosto úmido e gelado.

Quando chegou em casa tomou um banho demorado e preparou um chá de camomila. "Espero que ela não esteja dormindo". Ele já nem pensava naquela situação contraditória de ter que dormir para encontrar alguém acordado. Entrou em seu quarto, trancou a porta e logo adormeceu.

- Nicolas! Estava preocupada, procurei por você em todo lugar, por onde esteve?

- Saí com uns amigos, mas senti sua falta e vim pra cá...

- Agora preciso ir, já é tarde!

- Volte comigo então!

- Não posso, meus pais devem estar preocupados, estou te esperando aqui há horas...

- Preciso que fique comigo.

- Aonde nessa hora da madrugada?!

- Pode ser na praça do ponto de ônibus, ou na ponte do lago, no parque, qualquer lugar. Não quero mais perder você.

-Você nunca me perdeu, mas eu realmente preciso ir. Se você realmente gosta de mim, vai entender.

- Não entendo absolutamente nada. Não entendo por que você não pode ir comigo, não entendo como fui parar nesta cidade que nem sequer tem nome. Não entendo porque só eu posso te ver e agora não posso voltar à minha antiga vida e te esquecer, como num sonho normal.

- Não fique assim.

-Estou cansado. Acho melhor pegar aquele ônibus para minha outra vida. Aquele ônibus que nunca apareceu.

- Até amanhã, então.

- Tchau.

Nicolas acordou umas sete da manhã. Tentou dormir novamente, mas não queria pensar em Natasha nem em ninguém. Queria descansar. Mais soníferos.

Resolveu ler os livrinhos do Charlie Brown para se distrair, pensando como seria confortável ser apenas um personagem daquela história em que nada de mal poderia acontecer. Seu personagem preferido era Linus Van Pelt.

Saiu da cama, tomou mais um banho e, ao colocar um pijama limpo decidiu ficar apenas de samba-canção e uma camiseta regata branca. Foi até a cozinha, onde estava sua mãe. Deu-lhe um beijo na testa. Ela sorriu.

Faltavam apenas dois dias para seu aniversário. E ao contrário do que ele planejava há um dia, ele não passaria com Natasha.

- Vamos tomar um café?

-Claro que sim querido, enjoou de tomar chá?!

- Sim.

- Então vou preparar um café para nós dois.

- Te amo.

- Eu também filho!

- Notei que você saiu ontem a noite, como foi?

- Não muito bom. Mas as coisas vão melhorar.

- E sua namorada virá aqui no sábado?

- Não tenho mais namorada.

- Bom, acredito que você fez a coisa certa. Você não estava se divertindo mais depois que começou a namorar.

- Está pronto. Quero sem açúcar.

- O que acha de comprarmos umas roupas novas?

- Tenho tantos pijamas que já não cabe mais nada no meu closet.

- Se desfaça de alguns, aquele de patinhos, por exemplo. Vamos, tome este café, vai te animar!

-Tem razão. Vamos.

Nicolas foi dirigindo até o shopping. Comprou um tênis, uma jaqueta, duas calças, quatro camisas e um chapéu. O que ele mais gostou foi do chapéu. Sua mãe nem tanto, mas estava feliz em estar ao lado de seu filho que não se importava com nada mais na vida. Naquela noite Nicolas decidiu ficar acordado o máximo de tempo que conseguisse. Foi à farmácia e comprou algumas caixas de Benflogin. Ligou para um amigo da época da faculdade, Felipe, e perguntou se havia como ele arranjar cocaína para ele. Ele tinha uma boa quantia, e estava disposto a vender para o pobre Nic.

Quando eram mais ou menos duas horas da madrugada, o velho garoto encontrou uma amiga, Lívia. Eles foram até um bar encontrar Felipe. Aquela quantia o faria ficar acordado por uma semana. Depois ele daria um jeito de conseguir mais, ou então, encontraria outra alternativa.

Como Lívia e Nicolas quase não saíam juntos, resolveram virar a noite numa festa. Ele gostava de Lívia. Era uma garota interessante. Cabelo loiro, não muito comprido, quase que curto; usava óculos e tinha olhos azuis. Era Linda. Lívia era jornalista, trabalhava como redatora em um site e escrevia em sua coluna sobre música.

Há muito tempo Nicolas não se sentia tão bem. Estava bêbado, tentando fugir de Natasha. Mas estava feliz. Felicidade é momento. Lívia também tinha uma namorada. Mas naquela noite isso não foi problema para eles. Acabaram indo dormir na casa dela. Não foi difícil passar a primeira noite acordado com tanta munição e na cama da garota mais atraente que ele conhecia.

- Nic, vá embora antes que ela chegue.

- Ok.

O velho garoto se levantou, lavou o rosto, tomou um gole de Coca -Cola Light e voltou pra casa. Eram quase onze de manhã.

Quando entrou em casa, viu que sua mãe acabara de chegar do supermercado; mal notou que horas eram. O cheiro do perfume de Lívia estava impregnado em sua camisa. Já não era tão agradável quanto na noite anterior. Precisava de um banho, voltar e dormir e talvez pedir desculpas à Natasha.

Sem remorso de ter traído o amor de sua vida, Nicolas se entupiu de soníferos e dormiu. Não tentou pensar em algo que viesse a se tornar um sonho depois.

Às vezes acabava naquela cidade sem nome. Sentava no banco da praça para pensar sobre sua vida, sobre Lívia, sobre seu aniversário. Viu Natasha se aproximando e acordou. Eram duas e trinta da tarde. Preferiu se vestir antes de sair do quarto. Quando chegou à sala de jantar, viu seus amigos sentados à mesa. Estavam em seis.

- Feliz aniversário, filho!

Sua mãe lhe beijou. Todos o cumprimentaram.

- Acabamos de nos sentar para o almoço. Não sabia se te acordava ou não.

Nicolas estava sem fome, mas não quis ser desagradável e comeu um pouco de torta de caramelo e sorvete, enquanto todos estavam indo para a sala assistir filmes. De presente, ganhou alguns discos de vinil -Nicolas tinha uma coleção deles e livros de seus amigos. De sua mãe ganhou uma câmera. Ela ainda acreditava na carreira de cineasta do filho.

-Filho, coloque aquele último filme que você fez para eles assistirem...

- Nic, o que pretende fazer hoje?

- Não sei.

- Sua amiga, a Lívia ligou te chamando para sair.

Os amigos de Nicolas acharam aquilo um pouco estranho, mas não comentaram nada na frente de sua mãe.

Acabaram saindo junto com Lívia, que desta vez estava acompanhada, para um pub que havia sido inaugurado. Conversaram sobre o passado, música, filmes, e sobre o fim de seu namoro. Mas logo o velho garoto começou a sentir falta de Natasha. Não queria ficar deprê no seu aniversário. Mas quando o DJ tocou Tear us Apart, do She Wants Revenge, ele deixou escapar uma lágrima. Neste mesmo instante uma garota pálida, de cabelos escuros surgiu a sua frente e o beijou. Ele quis chorar ainda mais e começou a tremer. A garota olhou em seus olhos:

- Por que você fez isso?

- Não sei, você parece estar sozinho...

- Sim. Exatamente porque eu quero estar sozinho.

- Aceita uma vodka?

- Sim.

- Eu já volto.

A garota o embebedou e Nicolas foi parar acordando na casa dela.
Anna era o seu nome. À luz do dia ela era ainda mais pálida e mais bonita. Nicolas acordou confuso.

- Não se preocupe, eu trouxe seu carro. Você bebeu demais...

-Você está bem?

-Não

-Volte a dormir.

Foi o que ele fez.

Quando voltou pra casa, prometeu a si mesmo nunca mais sair de lá.
Durante esses dias, Nicolas assistiu à sua coleção de filmes, criou um blog e escreveu sobre cinema e tomou incontáveis litros de café. Mas não demorou muito para começar a sentir saudades de Natasha. Foi procurá-la.

Quando chegou a cidade sem nome, Nicolas foi até a casa da garota - ele se surpreendeu por saber o caminho. Uma das grandes vantagens do mundo dos sonhos - perguntou ao porteiro se ela estava lá. Ele disse que sim.

- Quem é você?

- Sou o namorado dela.

O porteiro deu uma risada sarcástica e interfonou.

- Ela disse que você não pode subir.

E ainda acrescentou:

- Não agora. Deve estar ocupada.

Aquela situação era estranha. "Será mesmo o endereço dela?" pensou.
Resolveu ir até o café. Ficou por lá durante uns quarenta minutos. Comprou um maço de cigarros e foi até sua casa novamente. Quando chegou na esquina, viu Natasha acompanhada de um homem de mais ou menos trinta e cinco anos. Usava um blazer marrom e parecia ser muito mais velho que Nicolas. Ele sabia que Natasha era três anos mais velha que ele, mas mesmo assim, aquela cena era inesperada. Ele não queria acreditar que era por isso que ela mandou dizer ao porteiro que ela estava ocupada.

Natasha nunca estivera tão linda. Seus cabelos vermelhos balançavam ao vento com certa rebeldia, seus braços estavam cruzados, se protegendo daquela noite fria, enquanto aquele homem não parava de falar, beijando-a às vezes. Aquilo era demais para Nicolas, que havia se esquecido que passara duas noites acompanhado de duas garotas diferentes. Enfim, o amante dela, ou quem quer que tenha sido aquele cara, foi embora. Esperou alguns minutos e foi atrás dela.
O porteiro deu a mesma risada idiota quando Nicolas respondeu dizendo que era seu namorado.

- Pode subir.

Suando frio, subiu de elevador até o nono andar, apartamento noventa e quatro. Era quase uma da madrugada. Ele tocou a campainha. Ela atendeu. Parecia abatida. Ele resolveu então começar o diálogo:

- Como vai?

- Bem.

Ficaram sem se falar por dez eternos segundos.

- Eu posso entrar?

- Se você tem algo a dizer, pode falar aqui mesmo. Minha casa está toda bagunçada.

- Eu não ligo. Me deixa entrar.

- Como você descobriu que eu moro aqui?

- Não sei, simplesmente vim parar aqui.

- Ok.

Ela abriu a porta.

Enquanto Nicolas procurava um lugar vazio no sofá para se sentar, Natasha preparava dois drinques. Uísque com gelo. Entregou um copo para ele:

- Agora você pode falar?

- Queria te pedir desculpas por ter desaparecido durante esses dias. Não ando muito bem. Estou confuso.

- Eu te esperei a noite inteira no dia do seu aniversário. Para você ter feito isso, pensei que algo grave havia acontecido.

- Me perdoa.

- Ok.

- Quem era aquele cara que passou a noite aqui?

- Estamos juntos.

- Quer dizer que acabou?

- Como assim?

- Não estamos namorando mais?

- Nicolas, quem decidiu isso foi você. E nem fez questão de contar pra mim!

- Só porque eu estive longe esses dias?

- Só por isso.

- Não quero que isso aconteça. Voltei porque sinto sua falta.

- Acho melhor você ir. Preciso acordar cedo, amanhã cedo vou viajar.

- Com ele?

- Com ele.

- Ok, mas de acordo com esse horário, não há como voltar pra casa, só se eu conseguir acordar.

Apesar de tudo, Natasha acreditava que Nicolas estava sonhando.

- Bem, então fique aqui até acordar. Mas eu preciso dormir agora.

- Deixa eu dormir com você.

- Não, vai ser melhor se você ficar na sala.

- Você não morava com seus pais?

- Morava. Mudei-me pra cá no dia do seu aniversário. Era uma surpresa. Assim, você não precisaria mais voltar pra sua casa.

Nicolas não conseguiu responder nada. Sabia que estava errado, não podia se justificar. Querer estar só, às vezes pode ser um desejo egoísta.

- Adeus.

- Não precisa ser dramático. Agora já passou.

- Melhor assim, como você disse. Pelo menos está com alguém real, no seu mundo.

- Eu amo você. Mas se gostasse pelo menos um pouco de mim, não sumiria deste jeito. Você só pensa em si mesmo.

- Já te pedi desculpas.

-Tudo bem. Mas agora sou eu quem quer desaparecer. Se você me ama, vai me esperar.

- Me deixa ficar aqui esta noite.

- Você quem sabe.

Eles dormiram de mãos dadas. Aquela foi a melhor noite da vida de Nicolas. Ele a observou dormindo o tempo todo. Depois, sem se despedir acordou.

"Espero que ela entenda o que aconteceu". Pensou.

Quando Natasha voltou de viagem, Nicolas estava no portão de seu prédio. Mal conseguiu respirar quando a viu. Ela estava de volta. Foi correndo em sua direção e a abraçou fortemente, também morrera de saudades.

- Não posso mais ficar sem você. Já não sei a que mundo pertenço!

- Eu também não, quero ficar ao seu lado a todo momento, não apenas enquanto você está sonhando. Preciso sair dessa cidade, ela não me parece mais real...

- Volte comigo hoje.

- Descobri uma estação de trem que vai até minha cidade!

- Então vamos tentar!

Nicolas acordou. Se concentrou ao máximo para voltar aquela cena. Natasha estava indo embora, já estava quase invisível.

- Natasha, volte!

Ela não ouviu.

O velho garoto começou a sonhar com a padaria da esquina. Ele estava pedindo cinco pães ao padeiro, enquanto Natasha gritou do lado de fora:

-Estou aqui! Conseguimos!

Nicolas foi até ela:

- Mas estou sonhando. Embora esta padaria exista de verdade...

- De qualquer forma, avançamos um pouco, não?!

- Acho que sim. Vamos ao cinema...

- Esqueceu-se dos pães...

-Tudo bem.

De mãos dadas atravessaram a rua em direção ao cinema, que ficara na rua de sua casa. Natasha deixou sua bolsa cair.

-Espere, minha bolsa!

- O carro! Volte!

Natasha foi atropelada.

Nicolas acordou, ouviu um barulho e saiu correndo de seu quarto, descalço, apenas com seu pijama de patinhos. Sua mãe estava indo para a rua conferir o que havia acontecido. Ele a seguiu.

- Para trás!

O enfermeiro da ambulância gritou.

- Abram espaço, pelo amor de Deus!

Quando a multidão se afastou, Nicolas pode ver claramente o rosto de Natasha, mais pálido do que de costume. Seu vestido branco manchado de sangue, da mesma cor que sua bolsa, que suas mãos seguravam. A garota já não respirava.

sábado, 2 de abril de 2011

hermes baby 1976

Foi aí que ela me deu a máquina de escrever laranja. Todo aquele pó voando pela sala de estar e a aquela luz do sol batendo no meu rosto devem ter disfarçado as lágrimas que eu tentava conter. Era o fim. Na verdade não nos importava muito ter que encenar algo. Provavelmente não íamos nos ver mais. Embora houvesse liberdade para, nenhuma de nós queria fazer drama. Eu queria mesmo era sair daquele apartamento, sair correndo e tomar um chá gelado sem pensar no que havia acontecido nos últimos meses.

Até o final de setembro do ano passado eu entregava meu fanzine na loja de discos aqui perto de casa. Aqueles textos que eu escrevia sobre música, cinema e o que mais eu quisesse eram mais pra mim do que para os outros. Mas eu deixava lá; sem parar pra pensar se eles apenas tiravam aquele maço de papel que eu deixava no balcão e jogavam no lixo no final do mês ou se realmente as pessoas o levavam para casa. Não me importava.

Eu colocara na minha cabeça de uma vez por todas que ia me concentrar apenas em escrever. Meus dias se resumiam em preparar o fanzine e tentar finalizar meu primeiro livro, que acabei apagando-o inteiro depois do mês de junho desse ano. Resolvi preencher as páginas do Word com essa nova história. Eu, que nunca quis me expor. Algumas noites da semana se passavam no curso de crítica cinematográfica. Vinte e cinco anos; jornalista; desempregada; vivendo da ajuda do governo e do que juntei na época que trabalhava na revista.

Enquanto estava passando um café, me preparando para escrever essa história, comecei a pensar que em épocas passadas os livros eram melhores; não havia computador para reescrever qualquer besteira que fosse considerada um erro pelo autor. Clarice Lispector que era esperta: entregava seus manuscritos sem ao menos corrigir erros gramaticais, pois sabia que se lesse o que havia escrito, se arrependeria e não os mandaria para a editora.

Não sei ao certo sobre o que quero registrar daquela história para esta daqui. Só não quero que os detalhes que a compuseram se percam por aí. Não sei até quando vou me lembrar, por exemplo, que Virgínia era viciada em mentos sabor melancia.

A fim de receber críticas, deixava meu contato no fanzine, o que parecia algo inútil. Até que um dia ela ligou para fazer alguns comentários sobre uma resenha que eu havia escrito sobre um disco do The Pastels, Illumination. De certa forma fiquei feliz, pois pensava que ninguém iria ler sobre algo que não era factual. Da mesma forma que Virgínia foi crítica comigo, (The Pastels era sua banda favorita) ao mesmo tempo se mostrou interessada pelo fanzine; pois tínhamos gostos musicais parecidos (quer dizer, ela escutava as mesmas bandas que eu alguns anos atrás). Depois de algumas conversas até sugeri dela participar do fanzine comigo. Mas isso nunca aconteceu.

Falávamo-nos por telefone, trocávamos e-mails e depois de quase um mês, resolvemos tomar uma cerveja. Foi incrível. Ao vê-la tive a certeza que aquele rosto cheio de sardas não iria desaparecer da minha vida facilmente.

Discutíamos a respeito de tantos assuntos... Eu mostrei a ela textos que até eu não queria ler mais. Deixamos tantos projetos guardados no papel, inclusive um livro de foto-poesia. Virgínia era fotógrafa; um pouco preguiçosa, mas tinha suas ambições. Entretanto, não tínhamos tempo para por em prática tudo aquilo que registramos apenas. Eu deixei até de escrever o fanzine e o andamento do romance que estava começando a escrever paralisou de vez.

Agora resolvi organizar esse amontoado de palavras sem rumo, não sei como elas vão chegar ao ponto final. Não sei o que quero registrar na verdade; apenas quero guardar algo aqui.

Acabamos nos conhecendo pessoalmente em meados de outubro do ano passado. O tempo passava de forma estranha. Lembro-me que na primeira vez que nos vimos eu estava usando minha flanela xadrez favorita. Sinto falta dela; acabei deixando na casa de Virgínia; esqueci algum dia e acabei deixando de lembrança. Enfim, tomamos algumas garrafas de Quilmes, ela me levou alguns esboços que escrevia nas horas vagas. Resenhas apaixonadas sobre discos do Dinossaur Jr, Sonic Youth, My Bloody Valentine... Senti-me um pouco velha; apesar de gostar de todas essas bandas, elas me remetiam à uma época distante, tempos de colégio, das bandas frustradas de garagem que eu tive. E Virgínia, apesar de conhecer muito sobre música, gostava sempre de estacionar seus ouvidos ali, em 1990; porém, quando conversávamos, ela não parecia ser uma pessoa nostálgica. Ao contrário de mim.

Virgínia gostou dos meus óculos. Eu gostei de seu sorriso, que raramente estampava seu rosto. Parece até que foi ontem... Desculpe-me por essas descrições, parece até que estou apaixonada. Não é isso, e apenas para esclarecer, quero contar a você que está lendo isso que só existe um tipo de amor verdadeiro para mim: o platônico. Amar alguém além do que se vê é impossível. Por isso nunca prezei por bons relacionamentos. Amor de papel, sempre.

Mas não vou contar sobre um amor de papel aqui, vou contar sobre os meses, sobre Virgínia e sua máquina de escrever. Virgínia nunca usou aquela máquina que ganhara de seu avô. Foi o primeiro objeto que me chamou atenção dentro daquele apartamento no bairro de Perdizes. O piso de taco; paredes azul pastel; e lá, num canto, laranja, empoeirada, escondendo seu brilho natural, a máquina de escrever.

No sábado seguinte Virgínia me ligou de manhã perguntando se não gostaria de tomar o café da manhã com ela e depois sairmos ao centro da cidade em busca de um toca discos que tocasse seus 78’s, que nem eram muitos. Sem vontade nenhuma de me levantar da cama, fui. Aquela manhã estava cinzenta; acabei esperando o dia inteiro pela chuva que não veio. Não encontramos o toca discos. Sugeri já cansada, que procurasse na internet. Apesar de não sentir a muito tempo aquela vontade de andar pelo centro histórico da cidade, eu podia entender Virgínia e seus 22 anos. Virgínia é a minha música favorita dos Mutantes. Já escrevi até um conto com esse nome... Às vezes não me dou conta de algumas coincidências... Naquele dia acabei comprando alguns livros pelos sebos da cidade.

No final da tarde fomos para minha casa. Emprestei uma camiseta para Virgínia vestir depois do banho. Boris, meu bulldog, adorou assistir TV no colo dela. Pedimos comida mexicana e assistimos The Graduate até pegar no sono.

Domingo preparei o almoço e ficamos em casa sem fazer nada. Escutamos uns vinis que compramos no dia anterior e no começo da noite saímos para dar uma volta. Deixei Virgínia em casa e ela me beijou. Fui embora e no caminho passei na padaria perto de casa para comprar uma cerveja. Fiquei pensando naquelas últimas semanas. Em nossas conversas, nos discos que escutamos juntas, das fotografias que tiramos. Não sabia se estava feliz em tê-la conhecido. Nunca gostei de dividir minha vida, meus textos e minha cama e até mesmo minhas opiniões com os outros, já que os outros nunca me agradaram em sua maioria. Pelo menos o Boris gostou dela. Então acho que estava feliz.

Saí numa tarde qualquer para conversar com Miguel, meu amigo que trabalhava na loja onde eu entregava o fanzine. Combinamos um cinema. No meio do caminho, enquanto estávamos subindo a Rua da Consolação, ele disse que havia uma garota que ia sempre à loja para ver se a nova edição da folhinha já havia chegado. Parecia um comentário despretensioso, talvez só quisesse me agradar, já que eu desconfiava que ele os jogasse no lixo. Perguntei como ela era. Alta, cabelos compridos, negros, sardas. Era ela. Não pude deixar de dizer que nós havíamos nos conhecido.

Cansou de ler?

Acho que não tenho muito que dizer sobre aqueles dias que eu tanto faço questão de escrever aqui.

De vez em quando fazia alguns freelas; no mais, acordava tarde, levava Boris para passear, passava na banca de jornal para cumprimentar seu Joaquim, almoçava no Sujinho.

Confesso que apesar do tédio (aliás, nos últimos momentos de tédio pintei minha casa e comprei uma cômoda para meu quarto), cortei alguns hábitos, como escutar Wilco por vários dias seguidos. Agora eu tinha companhia para ir ao cinema de dia de semana, para discutir sobre música e com quem tomar o chá da tarde. Estávamos juntas. Quer dizer, nos víamos todos os dias. Virgínia não saía da minha casa, e quando queríamos variar um pouco, passávamos o tempo na casa dela. Ela fotografava a monotonia de nossos dias; fotografava os móveis, Boris, minhas chaves, a lixeira da cozinha e escutava Sibylle Baier. Eu a observava e não escrevia mais nada. Não fazia mais nada. Quando terminei o curso de crítica cinematográfica não tinha mais compromisso algum. Não tinha por que ficar em São Paulo olhando a vida respirar do outro lado da janela. Eu já estava pilhada, queria barulho, queria gritar, queria uma história, um cenário para descrever. Parece que quem era mesmo fã de Sonic Youth era mesmo eu. Então vi quanto tinha ainda de dinheiro e resolvi viajar.

A verdade é que eu não tinha quase nada mesmo. Mas a vontade do ar fresco e do desconhecido era maior. Eu nunca suportei seguir uma rotina. Virgínia era minha rotina e tudo parecia uma total contradição. Acabei que resolvi passar uns dias no Rio de Janeiro. Havia um amigo meu que trabalhava numa editora no Leblon, contei a ele que iria passar uns dias por lá e ele me ofereceu um freela. Aceitei na hora.

Dias depois estava de malas prontas. Contei a Virgínia que passaria o final do ano no Rio, pois havia um trabalho por lá. Não a convidei. Ela me pareceu decepcionada, mesmo com seu olhar sempre apático; mas eu precisava saber se queria continuar aquela vida que nascera há poucos dias. Ela disse que iria pra lá no réveillon me visitar, eu disse tudo bem. Até lá eu estaria melhor e com um pouco de dinheiro.

Fui de carro e levei Boris comigo. Queria pegar uma estrada, sentir o vento bagunçar meu cabelo, ouvir Velvet Underground no volume que eu quisesse. Foi bom. Foi ótimo. Senti-me como Jack Kerouac, se quer saber. Eu nunca havia dirigido tanto. Quando eu morava com a minha família meu pai sempre ficava com medo quando eu saia com meu Voyage 89. Mas ele não me deixou na mão.

Eu adoro mudanças. Mas preciso saber o que está acontecendo na minha vida quando ela chega; eu tenho que enxergar tudo do lado de fora pra entender melhor. Ri com meus amigos e conversei. Eu vi o por do sol e o mar. Trabalhei um pouco e me senti bem.

No Rio voltei a escrever meu livro. Quando tenho outra ocupação consigo me empenhar muito melhor em outras. Se não faço nada não faço nada. Pensei que seria bom escrever aqueles manuscritos na Hermes Baby de Virgínia. Pensei que seria bom estar com ela em Copacabana ouvindo Chet Baker, conversando sobre qualquer coisa. Mas eu não liguei pra ela.

Faltavam duas semanas para o ano novo. Fazia muito calor, mas, após ter entrevistado todas as fontes para minha última matéria, me tranquei por uma semana e escrevi até não poder mais mover meus dedos. Fui à redação entregar o material para o meu amigo e, no dia seguinte recebi o dinheiro das matérias que fiz. À noite, caminhei com Boris no calçadão e quando ele se cansou, levei-o para dormir, mas voltei e fui para o mar. Já era quase meia-noite quando eu resolvi jantar. Como sou paulistana tenho dificuldades de encontrar bons lugares para comer em outros lugares. São Paulo é sempre melhor. Pra mim, claro. Mas fui num sushi bar que me recomendaram e era realmente bom. Na hora de ir embora ganhei uma bela dose de saquê.

Eu iria dormir bem.

Quando me deitei o telefone tocou. Era Virgínia. Queria passar os últimos dias do ano ao meu lado.

No dia seguinte fui buscá-la no aeroporto. Foi bom vê-la novamente; Boris também ficou feliz e foi sentado em seu colo durante o caminho até o hotel.

Eu podia parar por aqui, mas. Em março Virgínia viajou para Glasgow e eu arranjei um emprego estúpido e continuei em São Paulo.

Tudo tende ao tédio.

E nós não nos falamos mais. Só sei que ela começou um curso de fotografia que irá durar uns dois anos e. Eu não preciso mais saber.

Antes de partir deu uma festinha e eu dormi em sua casa. Disse que a levaria ao aeroporto para. Para nunca mais.

Virgínia acabou me dando aquela Hermes Baby 1976. E é nela que termino esta história. Com ponto final. Mas sem adeus.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

penúltimo banco à direita

Demorou poucas semanas pra eu notar. Umas duas, três. Era toda quinta-feira. Eu chegava em casa e minha esposa já estava dormindo. Eu, que depois de velho resolvi fazer finalmente o meu mestrado. Antes de chegar em casa e abrir o portão, com cuidado pro cachorro não latir e acordar todo mundo, eu a encontrava no ônibus. Quer dizer. Não nos encontrávamos. Eu a via. Ela sempre estava lá, lendo uns maços de papéis e sublinhando com uma caneta azul o que lhe interessava, ou era de importância, não sei. O tema daqueles textos despertava em mim uma certa curiosidade. Acho que você estudava Direito. Ou trabalhava com algum advogado. Eu ficava sempre em sua direção, sempre em pé; você sempre sentada. Chegava antes. Lembro um dia que dividi o banco com você, o penúltimo, à direita. Foi tão desagradável. Me empurraram e eu fui parar ali, do seu lado e eu te atrapalhei, esbarrei, de certa forma em você e naqueles seus papéis que você não larga por nada. Eu pedi desculpas mas você não escutou.

e o que eu levo dessa vida

é aquele amor em silêncio que vivemos em 2006. amor em silêncio.