sábado, 2 de abril de 2011

hermes baby 1976

Foi aí que ela me deu a máquina de escrever laranja. Todo aquele pó voando pela sala de estar e a aquela luz do sol batendo no meu rosto devem ter disfarçado as lágrimas que eu tentava conter. Era o fim. Na verdade não nos importava muito ter que encenar algo. Provavelmente não íamos nos ver mais. Embora houvesse liberdade para, nenhuma de nós queria fazer drama. Eu queria mesmo era sair daquele apartamento, sair correndo e tomar um chá gelado sem pensar no que havia acontecido nos últimos meses.

Até o final de setembro do ano passado eu entregava meu fanzine na loja de discos aqui perto de casa. Aqueles textos que eu escrevia sobre música, cinema e o que mais eu quisesse eram mais pra mim do que para os outros. Mas eu deixava lá; sem parar pra pensar se eles apenas tiravam aquele maço de papel que eu deixava no balcão e jogavam no lixo no final do mês ou se realmente as pessoas o levavam para casa. Não me importava.

Eu colocara na minha cabeça de uma vez por todas que ia me concentrar apenas em escrever. Meus dias se resumiam em preparar o fanzine e tentar finalizar meu primeiro livro, que acabei apagando-o inteiro depois do mês de junho desse ano. Resolvi preencher as páginas do Word com essa nova história. Eu, que nunca quis me expor. Algumas noites da semana se passavam no curso de crítica cinematográfica. Vinte e cinco anos; jornalista; desempregada; vivendo da ajuda do governo e do que juntei na época que trabalhava na revista.

Enquanto estava passando um café, me preparando para escrever essa história, comecei a pensar que em épocas passadas os livros eram melhores; não havia computador para reescrever qualquer besteira que fosse considerada um erro pelo autor. Clarice Lispector que era esperta: entregava seus manuscritos sem ao menos corrigir erros gramaticais, pois sabia que se lesse o que havia escrito, se arrependeria e não os mandaria para a editora.

Não sei ao certo sobre o que quero registrar daquela história para esta daqui. Só não quero que os detalhes que a compuseram se percam por aí. Não sei até quando vou me lembrar, por exemplo, que Virgínia era viciada em mentos sabor melancia.

A fim de receber críticas, deixava meu contato no fanzine, o que parecia algo inútil. Até que um dia ela ligou para fazer alguns comentários sobre uma resenha que eu havia escrito sobre um disco do The Pastels, Illumination. De certa forma fiquei feliz, pois pensava que ninguém iria ler sobre algo que não era factual. Da mesma forma que Virgínia foi crítica comigo, (The Pastels era sua banda favorita) ao mesmo tempo se mostrou interessada pelo fanzine; pois tínhamos gostos musicais parecidos (quer dizer, ela escutava as mesmas bandas que eu alguns anos atrás). Depois de algumas conversas até sugeri dela participar do fanzine comigo. Mas isso nunca aconteceu.

Falávamo-nos por telefone, trocávamos e-mails e depois de quase um mês, resolvemos tomar uma cerveja. Foi incrível. Ao vê-la tive a certeza que aquele rosto cheio de sardas não iria desaparecer da minha vida facilmente.

Discutíamos a respeito de tantos assuntos... Eu mostrei a ela textos que até eu não queria ler mais. Deixamos tantos projetos guardados no papel, inclusive um livro de foto-poesia. Virgínia era fotógrafa; um pouco preguiçosa, mas tinha suas ambições. Entretanto, não tínhamos tempo para por em prática tudo aquilo que registramos apenas. Eu deixei até de escrever o fanzine e o andamento do romance que estava começando a escrever paralisou de vez.

Agora resolvi organizar esse amontoado de palavras sem rumo, não sei como elas vão chegar ao ponto final. Não sei o que quero registrar na verdade; apenas quero guardar algo aqui.

Acabamos nos conhecendo pessoalmente em meados de outubro do ano passado. O tempo passava de forma estranha. Lembro-me que na primeira vez que nos vimos eu estava usando minha flanela xadrez favorita. Sinto falta dela; acabei deixando na casa de Virgínia; esqueci algum dia e acabei deixando de lembrança. Enfim, tomamos algumas garrafas de Quilmes, ela me levou alguns esboços que escrevia nas horas vagas. Resenhas apaixonadas sobre discos do Dinossaur Jr, Sonic Youth, My Bloody Valentine... Senti-me um pouco velha; apesar de gostar de todas essas bandas, elas me remetiam à uma época distante, tempos de colégio, das bandas frustradas de garagem que eu tive. E Virgínia, apesar de conhecer muito sobre música, gostava sempre de estacionar seus ouvidos ali, em 1990; porém, quando conversávamos, ela não parecia ser uma pessoa nostálgica. Ao contrário de mim.

Virgínia gostou dos meus óculos. Eu gostei de seu sorriso, que raramente estampava seu rosto. Parece até que foi ontem... Desculpe-me por essas descrições, parece até que estou apaixonada. Não é isso, e apenas para esclarecer, quero contar a você que está lendo isso que só existe um tipo de amor verdadeiro para mim: o platônico. Amar alguém além do que se vê é impossível. Por isso nunca prezei por bons relacionamentos. Amor de papel, sempre.

Mas não vou contar sobre um amor de papel aqui, vou contar sobre os meses, sobre Virgínia e sua máquina de escrever. Virgínia nunca usou aquela máquina que ganhara de seu avô. Foi o primeiro objeto que me chamou atenção dentro daquele apartamento no bairro de Perdizes. O piso de taco; paredes azul pastel; e lá, num canto, laranja, empoeirada, escondendo seu brilho natural, a máquina de escrever.

No sábado seguinte Virgínia me ligou de manhã perguntando se não gostaria de tomar o café da manhã com ela e depois sairmos ao centro da cidade em busca de um toca discos que tocasse seus 78’s, que nem eram muitos. Sem vontade nenhuma de me levantar da cama, fui. Aquela manhã estava cinzenta; acabei esperando o dia inteiro pela chuva que não veio. Não encontramos o toca discos. Sugeri já cansada, que procurasse na internet. Apesar de não sentir a muito tempo aquela vontade de andar pelo centro histórico da cidade, eu podia entender Virgínia e seus 22 anos. Virgínia é a minha música favorita dos Mutantes. Já escrevi até um conto com esse nome... Às vezes não me dou conta de algumas coincidências... Naquele dia acabei comprando alguns livros pelos sebos da cidade.

No final da tarde fomos para minha casa. Emprestei uma camiseta para Virgínia vestir depois do banho. Boris, meu bulldog, adorou assistir TV no colo dela. Pedimos comida mexicana e assistimos The Graduate até pegar no sono.

Domingo preparei o almoço e ficamos em casa sem fazer nada. Escutamos uns vinis que compramos no dia anterior e no começo da noite saímos para dar uma volta. Deixei Virgínia em casa e ela me beijou. Fui embora e no caminho passei na padaria perto de casa para comprar uma cerveja. Fiquei pensando naquelas últimas semanas. Em nossas conversas, nos discos que escutamos juntas, das fotografias que tiramos. Não sabia se estava feliz em tê-la conhecido. Nunca gostei de dividir minha vida, meus textos e minha cama e até mesmo minhas opiniões com os outros, já que os outros nunca me agradaram em sua maioria. Pelo menos o Boris gostou dela. Então acho que estava feliz.

Saí numa tarde qualquer para conversar com Miguel, meu amigo que trabalhava na loja onde eu entregava o fanzine. Combinamos um cinema. No meio do caminho, enquanto estávamos subindo a Rua da Consolação, ele disse que havia uma garota que ia sempre à loja para ver se a nova edição da folhinha já havia chegado. Parecia um comentário despretensioso, talvez só quisesse me agradar, já que eu desconfiava que ele os jogasse no lixo. Perguntei como ela era. Alta, cabelos compridos, negros, sardas. Era ela. Não pude deixar de dizer que nós havíamos nos conhecido.

Cansou de ler?

Acho que não tenho muito que dizer sobre aqueles dias que eu tanto faço questão de escrever aqui.

De vez em quando fazia alguns freelas; no mais, acordava tarde, levava Boris para passear, passava na banca de jornal para cumprimentar seu Joaquim, almoçava no Sujinho.

Confesso que apesar do tédio (aliás, nos últimos momentos de tédio pintei minha casa e comprei uma cômoda para meu quarto), cortei alguns hábitos, como escutar Wilco por vários dias seguidos. Agora eu tinha companhia para ir ao cinema de dia de semana, para discutir sobre música e com quem tomar o chá da tarde. Estávamos juntas. Quer dizer, nos víamos todos os dias. Virgínia não saía da minha casa, e quando queríamos variar um pouco, passávamos o tempo na casa dela. Ela fotografava a monotonia de nossos dias; fotografava os móveis, Boris, minhas chaves, a lixeira da cozinha e escutava Sibylle Baier. Eu a observava e não escrevia mais nada. Não fazia mais nada. Quando terminei o curso de crítica cinematográfica não tinha mais compromisso algum. Não tinha por que ficar em São Paulo olhando a vida respirar do outro lado da janela. Eu já estava pilhada, queria barulho, queria gritar, queria uma história, um cenário para descrever. Parece que quem era mesmo fã de Sonic Youth era mesmo eu. Então vi quanto tinha ainda de dinheiro e resolvi viajar.

A verdade é que eu não tinha quase nada mesmo. Mas a vontade do ar fresco e do desconhecido era maior. Eu nunca suportei seguir uma rotina. Virgínia era minha rotina e tudo parecia uma total contradição. Acabei que resolvi passar uns dias no Rio de Janeiro. Havia um amigo meu que trabalhava numa editora no Leblon, contei a ele que iria passar uns dias por lá e ele me ofereceu um freela. Aceitei na hora.

Dias depois estava de malas prontas. Contei a Virgínia que passaria o final do ano no Rio, pois havia um trabalho por lá. Não a convidei. Ela me pareceu decepcionada, mesmo com seu olhar sempre apático; mas eu precisava saber se queria continuar aquela vida que nascera há poucos dias. Ela disse que iria pra lá no réveillon me visitar, eu disse tudo bem. Até lá eu estaria melhor e com um pouco de dinheiro.

Fui de carro e levei Boris comigo. Queria pegar uma estrada, sentir o vento bagunçar meu cabelo, ouvir Velvet Underground no volume que eu quisesse. Foi bom. Foi ótimo. Senti-me como Jack Kerouac, se quer saber. Eu nunca havia dirigido tanto. Quando eu morava com a minha família meu pai sempre ficava com medo quando eu saia com meu Voyage 89. Mas ele não me deixou na mão.

Eu adoro mudanças. Mas preciso saber o que está acontecendo na minha vida quando ela chega; eu tenho que enxergar tudo do lado de fora pra entender melhor. Ri com meus amigos e conversei. Eu vi o por do sol e o mar. Trabalhei um pouco e me senti bem.

No Rio voltei a escrever meu livro. Quando tenho outra ocupação consigo me empenhar muito melhor em outras. Se não faço nada não faço nada. Pensei que seria bom escrever aqueles manuscritos na Hermes Baby de Virgínia. Pensei que seria bom estar com ela em Copacabana ouvindo Chet Baker, conversando sobre qualquer coisa. Mas eu não liguei pra ela.

Faltavam duas semanas para o ano novo. Fazia muito calor, mas, após ter entrevistado todas as fontes para minha última matéria, me tranquei por uma semana e escrevi até não poder mais mover meus dedos. Fui à redação entregar o material para o meu amigo e, no dia seguinte recebi o dinheiro das matérias que fiz. À noite, caminhei com Boris no calçadão e quando ele se cansou, levei-o para dormir, mas voltei e fui para o mar. Já era quase meia-noite quando eu resolvi jantar. Como sou paulistana tenho dificuldades de encontrar bons lugares para comer em outros lugares. São Paulo é sempre melhor. Pra mim, claro. Mas fui num sushi bar que me recomendaram e era realmente bom. Na hora de ir embora ganhei uma bela dose de saquê.

Eu iria dormir bem.

Quando me deitei o telefone tocou. Era Virgínia. Queria passar os últimos dias do ano ao meu lado.

No dia seguinte fui buscá-la no aeroporto. Foi bom vê-la novamente; Boris também ficou feliz e foi sentado em seu colo durante o caminho até o hotel.

Eu podia parar por aqui, mas. Em março Virgínia viajou para Glasgow e eu arranjei um emprego estúpido e continuei em São Paulo.

Tudo tende ao tédio.

E nós não nos falamos mais. Só sei que ela começou um curso de fotografia que irá durar uns dois anos e. Eu não preciso mais saber.

Antes de partir deu uma festinha e eu dormi em sua casa. Disse que a levaria ao aeroporto para. Para nunca mais.

Virgínia acabou me dando aquela Hermes Baby 1976. E é nela que termino esta história. Com ponto final. Mas sem adeus.

2 comentários:

  1. Grande história , um final mais que necessário.
    Alguns preferem o amor , e outros a liberdade.

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  2. Me apaixonei do começo ao fim. Me interessaria por mais detalhes.

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