terça-feira, 26 de abril de 2011

tulipas

Aquele foi o primeiro apartamento que eu aluguei na minha vida. Eu tinha vinte e quatro anos e um emprego ruim. Não tão ruim ao ponto de não conseguir me virar, ou morrer de fome, ou acabar na casa dos meus pais pra sempre. Eu trabalhava numa livraria. Eu era teoricamente uma vendedora; mas fazia de tudo um pouco: cadastrava no sistema os títulos que chegavam, ajudava a arrumar o estoque, dava dicas dos melhores livros, das melhores edições, dos melhores preços, aos clientes.

Eu havia terminado a faculdade de letras há quase um ano e não sabia ao certo o que iria fazer com o meu diploma. Desde então não estava mais estudando, teoricamente, já que amo ler e.

Pela primeira vez na minha vida eu estava morando sozinha. Decidi isso porque não me acho interessante ao ponto de dividi-la com outra pessoa. Tinha três amigos que também moravam longe dos pais; então alugar um apartamento só pra mim parecia ter sido a melhor coisa a se fazer.

Assim como hoje eu estava solteira, não que eu me importe...

Meu apartamento era muito pequeno, então meu único animal de estimação era um peixe beta, o Ricardo. Ele vivia num aquário redondo e fácil de carregar, dessa forma, eu o levava comigo para todos os cantos da casa: sala, quarto, cozinha.

Eu nunca havia dado muita importância a decoração, mas depois que passei a viver sozinha, passei a pensar sobre. Comecei com uma tarefa que me parecia ser a menos difícil: flores. Como não gosto de nada muito artificial passei a frequentar a floricultura aqui perto uma vez por semana.

Um moço de avental azul, que assim como eu, usava óculos e diferente de mim, tinha um bigode engraçado, me atendeu.

- Posso ajudar a senhorita?

Contei a ele que eu gostaria de saber mais sobre flores e ele me ajudou; ele era a pessoa adequada para me ajudar nisso, já que trabalhava lá e, como me contou, estudava paisagismo, mas no fundo achei que ele me deu uma dica um tanto pessoal.

- Gosto de tulipas.

Foram as que eu acabei levando. E as levo até hoje.

Não sei se devo contar, mas acabei me apaixonando por aquele vendedor, o Mateus.

Tentei esconder aquele sentimento que tomou conta de mim, mas eu passei a frequentar até mesmo a padaria em que ele tomava café da manhã antes de ir para a floricultura só para dizer “oi”.

Depois de alguns dias passei a pedir tulipas pelo telefone e Mateus as trazia na porta de casa. Desde o início o porteiro do prédio deixava-o subir até meu apartamento, pois achava que ele era apenas um namorado maluco que me mandava flores toda semana.

Como sempre, tínhamos muito o que conversar. Acabei deixando-o entrar em casa depois de algumas semanas. Assim ele poderia ver como estavam as tulipas e até mesmo tomar chá de maçã comigo. Ele também gostava de colocar um pouco de canela.

Até que um dia ele apareceu com um pão doce recheado de maçãs acompanhado das flores. E. Bom. Vou logo dizer: nos beijamos nesse dia e começamos a namorar. Passamos a sair pelo centro da cidade para tomar sorvete, a ir ao cinema, a falar mais sobre nossas vidas.

No meu aniversário ele me escreveu um poema. Um poema sobre mim. Com o meu nome.

Acho que até Ricardo gostava de Mateus.

Mateus era tão cuidadoso que vez ou outra trazia ração para Ricardo, que já havia ganhado pedrinhas coloridas para seu aquário também.

Sexta-feira passada liguei na floricultura e quem atendeu o telefone foi dona Matilde. Para não haver nenhum mal entendido não pedi para falar com Mateus, apenas disse: “quero minhas tulipas de sempre”.

Pouco depois o porteiro me ligou dizendo que era da floricultura. Eu achei engraçado ele não dizer que era o Mateus. Era o marido da dona Matilde, seu Antônio. Eu o cumprimentei sem jeito, e para não parecer um mal entendido, apenas paguei as flores e me despedi.

À noite liguei para Mateus e ele não atendeu ao telefone. Liguei no sábado, no domingo e como eu não sabia o endereço de sua casa, tive de esperar até segunda-feira para ir até a floricultura.

Ele não estava lá.

Tive que perguntar por Mateus. Não agüentava mais aquele desespero todo.

- Ele não trabalha mais aqui, querida.

Eles acabaram contando-me que ele se demitira, que havia ido embora da floricultura na quinta-feira, mas não sabiam me dizer por quê e nem para onde ele foi.

Nós ainda tínhamos conversado na quinta-feira de manhã na padaria...

Tudo o que consegui foi o número do telefone da casa dos pais dele. Tomei coragem e liguei. Perguntei se sabiam onde é que ele estava.

Alternativa A: Ele estava na casa de sua esposa;
Alternativa B: Ele estava morto;
Alternativa C: Ele viajara para o exterior;
Alternativa D: Ele estava dormindo;
Alternativa E: “Vou chamá-lo, aguarde um instante”;

Desliguei o telefone.

Um comentário:

  1. Muito bom Gordi!!Eu escolho a alternativa E!!Adoro finais felizes!!rsrsr!!Bju!!

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