terça-feira, 31 de maio de 2011

olhos gelados mas vermelhos

Com Moon Love, de Chet Baker, te digo adeus.

o amor mora dentro de uma caixinha de música

Sem dúvida alguma esse foi o domingo mais frio do ano. Mas não pra todos.

Eu estava na livraria coberta de agasalhos e com os dedos das mãos quase roxos quando meu dia foi salvo.

O casal mais simpático do mundo entrou ali. Ela era alta, magra e morena. Ele, gordinho, mais baixo, loiro. Mas eles resolveram acabar com todas suas diferenças através de um gesto curioso. Para muitos, cafona, não pra mim.

Ambos vestiam camisas idênticas, de flanela, xadrez, vermelha, de lenhador mesmo.

Fiquei sem graça de perguntar por que eles estavam vestindo aquelas camisas, até porque, a princípio, não sabia se eles eram realmente um casal de namorados. Podiam ser qualquer coisa e podiam estar fazendo aquilo por qualquer motivo.

Foi então que meu colega se atreveu a fazer a pergunta que acabaria com o mistério. Ela lhe contou que ela mesma fez aquelas camisas para que fossem usadas como uma “prova de amor”.

Aquilo mexeu comigo. Prova de amor mesmo. Foi o que ela disse. Aquele frio pedia um cobertor inteiro de flanela, não apenas uma camisa.

Eles deviam estar morrendo de frio, mas não mais do que eu.

Levaram um livro, que não consegui ler qual era o título, e uma caixinha de música que tocava La internacional.

domingo, 8 de maio de 2011

operação andaluz

Na verdade o momento de pavor só veio à tona minutos antes de aplicarem o colírio anestésico no meu olho esquerdo e entrar na sala de cirurgia.

Durante a semana minha irmã me dizia pra assistir Um cão andaluz para ir me acostumando com a ideia de entrar na faca e eu achava mesmo engraçado. Como já disse, eu não estava nervosa pra valer.

Se tem uma coisa que me deixa mal de verdade é perceber que não estou conseguindo “tirar proveito” da vida. Nesses últimos dias essa sensação só tem piorado, mas ainda bem que pelo menos ainda me resta a percepção. O que fiz? Arranjei um espaço no meio das incontáveis horas de estudo para ler pela terceira ou quarta vez O apanhador no campo de centeio; parece pouco, não pra mim.

E no fundo bem que pensei: talvez seja a última leitura da minha vida, meio que brincando, meio que dramatizando, mas sendo sincera. Levei comigo o livro no dia da cirurgia. Às vezes chego a pensar que Holden Caulfield é a única pessoa que amo nessa vida; ele tinha de ir comigo enfrentar aquela situação.

Na sala de espera tinha mais uma pessoa com o mesmo nome que o meu, quando a chamaram, seu marido pediu para que aguardassem um minuto, pois ela tinha ido dar “uma voltinha”.

Fui chamada logo em seguida. Subi as escadas em direção à sala de espera das pessoas que iam fazer cirurgia. Essa fulana chegou atrasada, ao lado de seu filho e de um saco gigante de batata frita. Cada um se refugia à sua maneira. Mas achei aquilo um tanto nojento e comentei com a minha mãe, que respondeu brincando: vai que essa é a última refeição dela. Me assustei e continuei com meu livro. Holden estava andando pela Broadway e dizendo o quanto odiava cinema, aí me chamaram.

Minhas mãos começaram a suar frio. Aplicaram o colírio no meu olho esquerdo.

Perguntei: Esse é o colírio anestésico? O enfermeiro confirmou que sim, então pedi que aplicasse mais um pouco porque o líquido não havia caído nos meus olhos. Eu não queria sentir dor. Não queria sentir nada.

Sentia medo, muito medo. Eu sou medrosa mesmo. Não posso nem sentir o cheiro do álcool que esteriliza aquelas drogas de ferramentas que já quero desmaiar. Meu corpo estava gelado. Eu devia estar morta. Daí mandaram-me sentar naquela porcaria daquela cama. Colocaram uma luz bem na minha cara que eu já pensei que ficaria cega só com aquilo. Mais colírio. Fechei os olhos bem apertado. O assistente daquele médico com cara de assassino percebeu o quão nervosa eu estava e segurou a minha mão durante toda a droga da cirurgia. Eu apertei tanto sua mão que acho que ele deve ter se arrependido de ter sido gentil comigo. Não importa, porque pra ele aquilo durou no máximo cinco minutos.

Saí da sala sem me despedir dos médicos nem nada, segurando uma receita médica de um colírio que devia usar por 10 dias. O mais idiota disso tudo é que não sei abrir um olho só, nunca pisquei pra ninguém, eu não sei mesmo e, como estava com o tampão no olho operado, tive de sair com os dois olhos fechados, me apoiando em minha mãe e no corrimão da escada.

Quando desci as escadas comecei a sentir a típica tontura que se sente ao tomar, por exemplo, uma injeção. Pedi pra sentar novamente. Uma perna gelada, a outra pegando fogo, o coração na garganta, minha mãe disse que eu sussurrei, mas ouvi minha voz mais alta do que nunca dizendo que ia desmaiar. E desmaiei. Meu pescoço caiu pra trás e isso deve ter durado uns sete minutos. Mas quando acordei não podia abrir os olhos e não sabia onde estava. Que terrível foi aquela sensação.

Enquanto isso os outros estavam saindo e entrando da sala de cirurgia sorridentes. Comendo batata frita ou qualquer coisa que o valha.