terça-feira, 14 de junho de 2011

saudades

Já vou logo dizendo: essa é uma carta (mesmo que o remetente e o destinatário sejam a mesma pessoa), um texto qualquer de arrependimento. Simplificando.

Heitor era vinte e dois anos mais velho que eu. Ele era dono de um sebo que, na verdade, conheci por acaso, que ficava do outro lado da cidade. Não era um daqueles típicos sebos do centro da cidade; ele era quase invisível mesmo. E eu sempre relacionei isso com a dó que Heitor sentia em se desfazer de seus livros. Ele não tinha nenhum ajudante; só ele sabia organizar aquele lugar repleto de bons livros – e alguns discos de jazz. Heitor detestava vender algo para alguém que tinha “jeito de quem vai deixar o livro empoeirando em algum canto”. Pra esses, ele fazia questão de dizer: “Pode devolver se não gostar”.

Eu estava no último ano da faculdade de cinema quando Heitor apareceu na minha vida. Eu estava escrevendo minha monografia e precisava de um livro sobre o documentário moderno da década de 1960 que só tinha ali. Como já escrevi, meu professor, que conhecia Heitor há décadas, me indicou o sebo. Fiquei interessada e disse a ele que passaria ali assim que a aula terminasse. Anotei o endereço e lá fui eu.

Fui sozinha. Quando encontrei o endereço, anotado num papel já borrado pelo suor das minhas mãos, fiquei na dúvida: aquele não parecia ser o lugar certo, não parecia sequer um lugar. Mas arrisquei. A porta que guardava uma escadaria em seu interior estava encostada apenas. Abri e, um pouco embaraçada, subi aqueles degraus que pareciam não ter fim.

Quando finalmente cheguei àquele cômodo respirei fundo e esperei três segundos antes de entrar. Estava um pouco sem fôlego e eu só queria parecer alguém em busca de um livro. Entrei. A primeira coisa que senti foi o cheiro de café, não o usual cheiro de mofo que nosso nariz costuma se deparar com esse tipo de lugar. Outra singularidade do local era a presença de um piano, bem antigo, de armário, que ficava perto das quatro, também antigas, estantes de discos. Aqueles móveis de madeira de cerejeira fizeram, por um breve momento, que eu imergisse na minha infância. A primeira casa em que morei na vida.

Aquele canto me chamou a atenção; tinha um certo charme. Não sou nenhuma especialista em jazz, mas encontrei ali alguns nomes que me agradavam como Stan Getz, Chet Baker e Sonny Rollins.

Do outro lado ficava a mesa de Heitor: o mesmo tipo de madeira dos outros móveis da loja, uma mesa bastante espaçosa que contava com um computador – não o último modelo do mercado nem nada perto disso, uma pilha de revistas dos mais variados temas – sociologia, cinema, filosofia, o exemplar do jornal diário, um cinzeiro e um maço de cigarros ainda lacrado, um cachimbo, uma lupa e claro, vários livros.
Não havia ninguém ali. Olhei superficialmente os temas dos livros que estavam a venda pelos corredores que os dividiam: história contemporânea, política, cinema, história da arte, poesia, literatura. Parei na pequena, porém interessante seção de cinema e senti o cheiro de café se aproximando de mim. Os passos lentos de Heitor não queriam me assustar; pelo menos estavam longe de soar como aqueles vendedores desesperados que nos abordam como se fosse um assalto. “Acabei de passar um café, você aceita?”.

Tirei os olhos do livro que eu estava folheando e vi Heitor do meu lado: um homem de quarenta e poucos anos, de olhos quase pequenos e bem escuros; de barba, mas comprida que o normal, mas bem aparada, da mesma cor que seu cabelo castanho claro. Ele vestia uma camiseta branca, já bem surrada, uma calça vinho de veludo cotelê e uma boina marrom. Não me lembro dos sapatos, mas isso não importa. Eu disse olá e agradeci o café, disse que não precisava se incomodar e logo falei sobre a indicação que havia recebido do meu professor.

“Somos velhos amigos”, Ele respondeu.

Contei a ele que precisava de um certo livro, que, felizmente tinha na loja.

“Por ora só preciso disso mesmo, mas voltarei aqui para conhecer melhor o acervo da loja”. Falei.

“Faça isso. Da próxima vez você prova meu café também”

Perguntei a Heitor se ele podia me dar o cartão da loja pra eu anotar o telefone, mas ele não tinha.

Não sei por quê, mas fiquei com vergonha de pedir o telefone de lá; eu peço da próxima vez, pensei.

“Mande lembranças ao Martinez”, meu professor.

Passei o resto da semana pensando numa desculpa para voltar ali.

O livro ajudou muito no meu trabalho e eu, vez ou outra, deixava-me interromper pelos meus próprios pensamentos.Por que eu havia achado aquele cara que tinha praticamente a idade do meu pai e que provavelmente passava o dia sozinho naquele sebo, interessante?
Não que eu ligue muito para essas “neuroses”. Sou relativamente nova, mas já me apaixonei por tantas pessoas... muitas mesmo.

Enfim, voltei lá na semana seguinte. Não lembro o motivo, mas não comentei nada sobre essa visita com meu professor. Aliás, não contei pra ninguém sobre o lugar; ele havia me passado a sensação de esconderijo secreto, ou algo parecido; então, sem motivo aparente, retornei a loja de Heitor.

A porta estava novamente encostada e, com fôlego suficiente dessa vez, subi as escadas. Quando entrei no sebo vi que Heitor estava acompanhado de sua xícara de café e de um casal de amigos, que, aparentemente estavam levando dezenas de livros.
Na verdade eu não quis que ele me reconhecesse naquele instante. Mas reconheceu.

“Chegou na hora certa. Toma um café com a gente?”

Respondi, morrendo de vergonha, que sim. Aí ele me apresentou para seus amigos: “Ela cursa cinema com um amigo meu”. E teve a delicadeza de perguntar meu nome apenas depois que o casal foi embora.

“Gostou do livro?”

“Sim. Já terminei a leitura. Me ajudou bastante”

E tinha lido mesmo. E me ajudou mesmo.

“Fico feliz em saber”

E fui procurar algo de interessante para ler por ali.
Acabei levando apenas um disco para não sair de mãos vazias.
“Coltrane é sempre bom”. Ele disse sorrindo, de forma tímida.
Sabia que aquele foi um comentário natural, mas mesmo assim fiquei sem jeito.
“Escuta, sábado que vem faço uma reunião aqui na loja; tocamos discos, uns amigos meus costumam fazer uma sessão de jazz... se você quiser aparecer está convidada. Pode trazer seus discos, seus amigos, quem você quiser, tudo bem?”
“Me parece interessante”

E parecia mesmo.

“Então nos vemos sábado. Aliás, você pode dar o telefone daqui? Caso eu precise encomendar algum livro?”

“Sim”

Depois de muita insistência convenci minha amiga de passar no sebo comigo. Não levei disco nenhum; acho que na verdade eu me sentia intelectualmente inferior a Heitor. Eu não via isso como algo ruim. É sempre melhor conhecer pessoas que acrescentam algo do que o contrário.

Quando abrimos a porta, que estava apenas encostada, ouvimos o som de música ao vivo. Algo meio bebop, mas não pude reconhecer qual era a música.
Ao entrarmos na loja vimos que era Heitor quem estava tocando piano. Ele e seus amigos tinham uma banda e o mais legal é que tinham suas próprias músicas.
Cumprimentamos as mais ou menos vinte pessoas que estavam lá apenas com o olhar e um sorriso tímido; pegamos uma cerveja e depois de um tempo Heitor e sua banda pararam de tocar e ele logo veio dizer que ficou surpreso de eu ter aparecido. Ele provavelmente devia pensar que eu tinha uns quinze anos e que ouvia FM, só pode ser, porque ele realmente ficou surpreso.

Porém, surpresa ficou eu com o que aconteceu com a minha amiga que simplesmente desmaiou. No mesmo momento Heitor veio nos socorrer e disse que ia pegar a chave do carro para a levarmos ao hospital. Ele pediu para um amigo fechar a loja porque não sabia se iria voltar ainda naquela noite. Descemos as escadas e Heitor carregou minha amiga até o carro.

Fomos os três em busca do hospital mais próximo. No caminho ela acordou e disse que estava se sentindo bem, mas a levamos mesmo assim.

Entrei com ela no consultório e o médico disse que tinha sido apenas uma queda de pressão e que ela devia voltar para casa para descansar.

Heitor fez questão de deixá-la em casa. Quando ficamos só nós dois no carro eu pedi que me deixasse numa estação de metrô próxima dali e ele respondeu:

“Está com fome?”

Eu demorei a responder e ele acrescentou:

“Conheço uma pizzaria muito boa aqui perto”

Não respondi de novo.

Nós nunca tínhamos conversado de verdade nem nada.

A pizzaria era pequena e aconchegante, mas lá só havia casais e acho que nós dois acabamos ficando constrangidos. Mas isso durou pouco. Começamos ali nossa primeira conversa, logo depois de fazer o pedido: vinho tinto e a pizza da casa.
Acho que essa é a parte mais importante da história mesmo.
Depois desse dia, passamos quase o tempo todo juntos.
Eu ia ao sebo passar minhas tardes lendo, escutando música e tomando o melhor café do mundo. Apaixonei-me por Heitor e fui morar com ele. Foi então que pensei que me desapaixonei.

Ele era perfeccionista demais, crítico demais e depois que passamos a viver juntos ele nunca mais quis sair para lugar nenhum. Eu mal podia assistir a um filme em paz. Ele criticava tudo. Do começo ao fim. Meus gostos e minhas ideias eram sempre inferiores e eu não queria acreditar nisso. Fora o cheiro de tabaco que impregnava pela casa toda, inclusive dentro do meu guarda-roupa. Eu não podia deixar os meus discos perto dos dele. Nem escutá-los perto dele.
Tínhamos nossos momentos. Claro. Mas eu não agüentei. Eu precisava descobrir a vida através dos meus erros e acertos para saber o que era bom ou ruim. Por mais que eu gostasse de Heitor nunca me senti totalmente a vontade em nossas conversas, que foram se tornando cada vez mais curtas.

Um dia qualquer eu acordei triste, com as pálpebras pesadas. Saí de casa bem cedo, sem tomar café da manhã nem nada; peguei um cigarro de Heitor e fui andar. Acho que andei por umas duas horas. Voltei pra casa e fiz minhas malas.
Deixei uma carta em cima da mesa. Ele já tinha ido para a loja. Nunca mais nos falamos.

Acho que agora estou apaixonada novamente por ele. Ou só estou sentindo muitas saudades.

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