terça-feira, 6 de dezembro de 2011

ela se parece com mia farrow na década de 1960

Uso o meu sweater mais confortável, com cheiro de amaciante para me consolar. Talvez o cinza e o vermelho ajudem a disfarçar o sangue que escorre do meu peito.

Eu bem que tentei engolir tudo a seco e fugir.

Fugir para as páginas de meu livro favorito; para minha cama aconchegante; cheia de travesseiros e cobertores que aparentam poder aquecer o coração mais gelado.

Eu tentei apenas odiar e observar a chuva da janela.

Acabei não conseguindo abrir o livro.

Acabei escutando a mesma música centenas de vezes, Riding for the feeling, e encostando a cabeça na parede. Olhos em direção ao teto, porém fechados, deixando o líquido quente e salgado escorrer pelo meu rosto e lençóis.

Eu só quero me proteger de todos vocês.

Quero de volta os sonhos que reparti em fatias.

Quero viver numa cabana.

Quero viver numa cabana.

Quero viver numa cabana.

E terminar de ler meu livro.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

vapor que antes água de chuva

Quase dezembro e a noite é quente.

Saio na rua com meu shorts velhos e o tênis surrado. Eu e ela e sua bicicleta. O asfalto tem cheiro de vapor. Vapor que antes água de chuva.

Eu vou inalando essa atmosfera enquanto remo o meu tubarão sobre rodas. A rua de frente à minha é perfeita ou quase. Tem mais cachorros que pessoas e luzes de natal que piscam e repiscam.

E na esquina, na casa da esquina está. O que os meus ouvidos procuraram o ano inteiro. O solo do saxofone misterioso. Eu não conheço a melodia e a acho tão.

Ela até senta na calçada para descansar e escutar a música com mais atenção.

A gente escuta melhor de olhos fechados.

Eu continuo remando lentamente sobre o asfalto negro como o céu; que está tão limpo esta noite. Parece exalar mentol. Um sopro sobre nosso corpo frágil mas sempre cheio de expectativas.

Depois de muito voltamos para um sonho.