segunda-feira, 26 de novembro de 2012

espuma

Aguardo com os pés na areia. Na areia úmida. Na beira. À beira.
A beira do mar não divide, sequer separa. A areia. Do mar.
Aguardo com os pés. A espuma chegar. Meus pés irão afundar. Mas não tocarão a espuma. A espuma só se sente vendo.
Quando a espuma do mar parece estar próxima ela desaparece.
A água, na beira, sobe, molha e volta pro mar.
E tudo está fragmentado novamente.
Aguardo a quebra.
Com calma.

A calma vem do mar.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

talvez eu esteja sendo injusta em culpar a sua música

Talvez eu esteja sendo injusta em culpar a sua música. Já que são os meus dias que estão, gradativamente, perdendo o ritmo. E, sendo assim, não há melodia que acompanhe. Viro o disco de um lado para o outro buscando uma sintonia que não. Sento-me na cadeira com o estofamento já gasto, já que meu corpo nela permanece todos os dias em suas inúmeras horas de trabalho. Inerte.

Inércia.

Então, pensando no seu trabalho, de ter produzido esse disco, em pé, provavelmente, desligo o aparelho. Na tomada. E fico em silêncio para não te culpar. Roo as unhas. Tento ler algo. Escrever, até. Qualquer linha que faça minha mente correr. Fugir desse corpo estático. Meu cérebro é carne diferente do resto de mim. Tento acreditar. Tento massageá-lo.

Não sinto nada.

Se eu pudesse me levantar dessa cadeira e pular da janela. Mas o expediente ainda não terminou. E quando terminar estarei demasiadamente cansada para me atirar.

Preciso me atirar.

Atirar todos esses discos.

Atirar a tela que suga as horas dos meus dias.

E correr.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

joão disse que

Naqueles anos, tempos não tão distantes, mas que parecem ser... Era mais fácil marcar encontros. Você podia acender um cigarro dentro de um café numa tarde chuvosa e encobrir com fumaça a falta de assunto, ou suspirar o nervosismo.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

fotografia


Seus braços transparentes mostravam as cores de suas veias: verdes, azuis e roxas. Seus braços transparentes estavam cobertos por uma blusa de plush azul. Você arregaçava as mangas e sentava no chão. No chão de areia que é a praia. E segurava um graveto.

Enquanto seus dedos, também transparentes, brincavam com o pedaço de madeira oca, o vento brincava com os seus cabelos loiros e cacheados. Castanho claro, você dizia. Para mim, loiros.

E enquanto seu rosto transparente, porém cheios de sardas, estava virado em direção ao Sol que estava morrendo mais um dia eu já tinha morrido. Ido embora de sua vida, para dar lugar a Lua. Mas eu pude te ver naquele fim de tarde em que pela primeira vez te vi sozinho. Sozinho e feliz. Esperando apenas o dia cair para voltar para a sua cidade. Cinza sem sol sem sal do mar.

E você, que mesmo habitante desta, que mesmo transparente, é mais colorido do que eu que moro na cidade de todas as cores. Você é paz. Eu sou amor. E se havia um pouco de paz em mim, foi-se instante antes de te ver ali.

Eu pedalava pela orla ouvindo Nick Drake, que você gostava tanto, também.

Eu perdi a paz e a direção da bicicleta e caí e meu joelho sangrou. Mas eu não senti nada e fiquei ali no chão olhando a fotografia que aquela paisagem intocável de você em harmonia com minha cidade se tornou. E só depois vi o vermelho escorrendo sobre a minha perna.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

andar

Faz muito calor e é impossível ficar em casa e perder um sábado de sol, assim, de graça. Faz tempo que eu não encontro algum velho amigo para conversar e tomar cerveja e nada mais. Todos estão tão saturados uns dos outros que optamos sempre por deixar pra lá. Mas sair sozinho num sábado ensolarado é esteticamente incompatível, socialmente inaceitável. Mas chega uma hora em que é preciso abandonar os padrões. Esses que existem desde que o mundo é mundo e que todos nós, no fundo, sabemos o quão opressores são. Mas obedecemos porque ninguém quer ser inaceitável perante os outros. Mas cheguei numa idade que inaceitável é ver a vida passar com os olhos fixos na tela da televisão. Na televisão, na música e no cinema é tão bonito um ser sozinho porque no final ele não estará mais nessa condição. É bonito porque reverte. Mas ser só e somente. É o quê? Não preciso duma resposta e não preciso me ver numa tela para aceitar minha condição. Ninguém quer falar disso. Então eu acabo deixando pra lá, os convites, e não ligo para aqueles amigos que eu disse que não vejo há um tempão. Eu vou andar, vou olhar pra cima quando chegar no centro da cidade e apreciar o contorno dos prédios. Não olhar pro chão e para os objetos que me fazem tropeçar. A música já dizia que andar é reconhecer.

Olhar

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

uma cadela que joga basquete

Não sou daqueles que possuem milhões de bens materiais. A casa em que vivo não é minha. Não tenho carro. Nunca fiz grandes viagens. Tenho andado sozinho, mas não vou dizer que não tenho amigos. Nunca tive uma namorada, mas também não vou dizer que nunca me apaixonei. Tenho algumas lembranças boas da minha infância. Minha avó tinha uma pequena horta na laje de sua casa e entre algumas plantas havia um pé de hortelã. E eu sempre comia uma folhinha. Ficava lá mastigando e observando a rua. Lá perto havia uma quitanda e de vez em quando meu avô tirava umas moedas do bolso e me dizia “toma, vai lá no Nivaldo comprar um doce”. Eu ia. Lá tinha um cheiro delicioso de frutas que nunca mais senti igual na vida. Mas como eu ia dizendo, não sou daqueles que gostam de contar vantagem. E nem sei se devo querer algo a mais nessa vida já que tenho em minha garagem uma tabela de basquete e uma cadela que agora brincar comigo nas tardes ensolaradas em que não tenho muito com o que me preocupar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

o verão de 1994 foi prematuro mas acho que ernesto demorou até senti-lo e confessar

Palmeiras verdinhas e garrafas de vidro de guaraná. Móveis alaranjados e Jorge Ben na década de 70. É esse o instante que eu quero pra mim. Pés no mar. Ideias soltas no mar. E um vento que pedem para os meus olhos se fecharem. Tudo é leve e eu não vou voltar. Não tenho nada lá atrás. Eu só tenho o ar.
Só quero o mar.
É esse o gigante que habita em mim.

absoluto ou o antônimo de

A verdade é tão crua que não consegue se moldar em ficção. Ela é tão absurda que só pode ser ficção. Ela é tão falsa que só pode ser atuação. A linha que divide verdade e mentira já não existe.
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Há um tempão.

no trilho aguardo o trem

Se não me movo nada move. Parece que tento quebrar inconscientemente essa regra.
Eu bem que quero me mover.
Mas já não sei o significado desse verbo. Não perdi minhas pernas, mas a memória talvez, já que não me lembro do dia em que estacionei meu corpo aqui.
Acho que foi sei querer.
E tenho criar palavras novas, aqui no meu canto. Meio que sabendo no que vai dar. No que não vai dar.
Nada se move aqui.
Meu raciocínio não consegue caminhar até o final da linha. Veja só. Já começo a me repetir. Ou não saí do começo.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

é verão quando não


Sobre a mesa o jornal e o suco de laranja.
Aquela janela as frestas de sol.
O vermelho distorcido em mil.
Só é verão quando a gente sabe que não.
O canudo branco com listras coloridas.
Sua camiseta de listras.
O amarelo.
O amarelo é bonito quando a gente sabe que não.
O cachorro embaixo da mesa.
Porque sabe que é verão.
Cachorro sabe quando.
O México ilustrado na parede.
Em pintura.
Em fotografia.
Imagem quase viva.
A luz bate e rebate.
Fogo no centro do céu.
Você liga o rádio.
Deixa a pia cheia de louças.
E percebe, quase que atrasado, mas não mais que eu.
Que é hora de sair.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

quinta-feira, 26 de julho de 2012

o chapéu do seu avô e você


Eu gostava de você. De ficar ao seu lado no banco da estação de trem. Você nunca se sentava. Você fumava em silêncio enquanto eu lia em pensamento e às vezes interrompia o parágrafo seguinte para te olhar, em silêncio, enquanto você fumava em pensamento. Houve vezes em que eu cheguei a colocar o marcador de páginas – aquele que você me deu e que antes havia sido do seu avô – para observar melhor.

Seus movimentos.

A maleta que guardava seu trompete encostada em suas pernas compridas. Você sempre usava o mesmo suéter listrado, de lã, uma lã grossa. E aquele seu chapéu, que também era de seu avô. Acho que você é a única pessoa do mundo inteiro que combina com aquele chapéu estúpido, ou que não parece estúpido com ele. Ou.

Te esperar nos ensaios era algo interessante. Olhar para você ocupava todo o meu tempo e ouvir a sua música era tudo o que meus ouvidos pareciam precisar.

Pareciam precisar.

Às vezes andávamos por horas em silêncio. Apenas para sentir o movimento das coisas, e acabávamos por encontrar cafés incríveis, onde líamos os clássicos até sermos varridos.

Você escrevia cartas e partituras para mim.

E, de vez em quando, você colocava seu chapéu na minha cabeça.

Você ficou tão bonito quando deixou a barba crescer...

Mas tudo o que eu admirava em você, o fazia em pensamento.

Te amei em silêncio.

Você, em si menor.

terça-feira, 24 de julho de 2012

ar

Abre a janela e deixa o sol bater no teu rosto
Te despertar
Olha a ilha, o mar
E venha
Que eu vou tirar
Sua camiseta de algodão
E beijar
Suas costas sardentas
Que hão de queimar
Sob o lençol branco
Eu vou te puxar
Por cima de mim
E te contar
Que o silêncio
É quem deve falar
E o barulho do mar
A espuma que chega até a areia
Como uma lágrima de refrigerante
Que há de evaporar
Essa noite uma nuvem
Do tamanho do mundo
Vai confortar teu sono
Vem
E abre a janela
Deixa queimar
Enquanto
Eu respiro fundo e sinto o ar.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

tic tac

Passavam-se os minutos e Murilo continuava com os olhos colados na folha em branco. Passavam-se as horas e seu café esfriava. Ele o requentava. Era um círculo de não ações que não parava de jeito nenhum.

Passavam-se os dias e seus olhos continuavam colados na folha em branco. Passavam-se os anos e o café gelado era re-re-re-re-re-re-re-re-re-re-re-requentado. Café sem gosto que poderia servir de tinta para pintar a folha em branco já que as palavras sumiram de vez de sua cabeça.

Passavam-se o tic e o tac sua barba se esparramara pela máquina de escrever, pelo chão, embaraçando ideias que jamais encontrariam o ponto final. Tec tec tec tec tec tec.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

dois ou um


Tudo deu errado naquela terça-feira em que eu engoli o choro de ira e fui ao parque com você, que já não queria mais falar comigo, assim como eu. Nisso concordávamos. Com o silêncio. Uma briga de gente sensata. Ou contida.

Fomos ao parque para ler somente. Sentamos sobre o gramado fresco quase frio, debaixo de árvores das quais, ignorante que sou não procurei saber a qual espécie pertenciam. Líamos e não tirávamos os olhos de nossas histórias. Mas não absorvemos nada. Fingidos, cínicos que somos. Orgulhosos que nunca dão braço a torcer. Minha vontade não era ficar olhando para as frases quebradas de Cortázar mas. Era de ir embora curtir minha tarde ensolarada sem você. Ou pelo menos escrever sobre minhas vontades. Mas aí você olharia pra mim com o canto dos olhos, soberbo, acreditando ser o objeto de meus rabiscos.

Então não me movi.

Não por mais um tempo, já que, com as pernas e pés formigando, tive de levantar para me alongar. E você, não sei por qual motivo se levantou também, guardando seu livro e o maço de cigarros.

Vamos para o museu.

Foi o que você quase ordenou e, eu, sem paciência alguma para diálogos, te acompanhei. Praguejei injustamente contra cada artista que estava exibindo seu trabalho naquelas paredes.

Depois te provoquei dizendo que gostaria de pintar um retrato seu em frente ao lago. Mas já estava escurecendo.

E voltamos para casa calados.

domingo, 10 de junho de 2012

movimentos

No começo da noite daquela quarta-feira tudo já estava encaminhado: chamei o seu taxi, coloquei seus livros em cima da sua mala e separei algumas músicas para ouvir depois que você fosse embora. Tomei um banho longo com um sabonete novo e me sequei com uma toalha limpa, assim como o pijama que coloquei logo em seguida. Preparei meu chá de erva doce e me deitei para assistir a todos os seus últimos movimentos.

Você chegou em casa ofegante e tomou um banho rápido. Entrou no quarto de toalha futuro pano de chão, descalço, inundando o chão limpo. Sua barba estava por fazer e assim ficaria pelo menos até você ir embora. Puxou uma cadeira para perto da cama e, ainda molhado me encarou. Esse filme deve ter durado uns 37 segundos. Levantou, pegou suas roupas. Se enxugou rapidamente, vestiu uma cueca branca e voltou para a cadeira. Segurava um par de meias, meias vermelhas, as minhas favoritas. A única coisa que você fez lentamente naquela noite foi calçar aquelas meias. Cruzava uma perna e começava o processo. Esticava o tecido até não conseguir mais. Descruzava a perna e cruzava a outra ainda descalça e repetia os movimentos com o outro pé. Eu assistia atentamente ao ritual tomando meu chá. Depois você vestiu, dessa vez rapidamente, sua calça marrom de veludo cotelê. Meu chá acabou, ajeitei o travesseiro e me deitei e continuei assistindo. Você colocou os sapatos e a camisa, enfiou os livros na mala e beijou minha testa e fechou a porta com força. Levei um susto e virei meu rosto para o lado da parede.

domingo, 20 de maio de 2012

o melhor café com leite que antonio tomou em sua vida

A vida de Antonio se resumiu em tomar o ônibus e ir para o trabalho e tomar o ônibus e voltar para casa.

Ele queria ser escritor, mas não se contentava com seus personagens todos baseados nas pessoas medíocres que ele conhecia.

Suas vitórias se resumiram a não chegar atrasado no trabalho. Na quinta-feira passada Antonio chegou dez minutos antes do horário do expediente. Nem o porteiro do prédio havia chegado.

Na rua de trás existia um bar onde, mesmo trabalhando pelas redondezas há uma década, Antonio nunca tinha entrado. Nem para um cafezinho antes de começar o dia.

Resolveu ir até lá. Pediu um café com leite. Estava bom. O melhor de sua vida. No balcão, ao seu lado, sentava-se um cara com um pouco mais da metade de sua idade. O dono do boteco soltava frases para ele do tipo “Você está certo”, “Se eu pudesse, embarcava nessa com você”, “Queria sumir também” etc. Antonio era um cara calado, nunca se metera na conversa de ninguém. Gostava de ser assim, até. Porém, sem pensar muito antes de, perguntou:

Para onde você está indo?

Seu vizinho, sem ar de surpresa ou incômodo, respondeu:

Para o Rio de Janeiro.

Suspirou, tomou o último gole de seu café e continuou:

Fui demitido. São Paulo não é o meu lugar...

E, embora Antonio fosse paulistano, nascido e criado no bairro da Mooca, sentiu o mesmo naquele momento. Ou, pelo menos, naquele momento teve coragem em sentir:

Posso ir com você? Quer dizer... você vai de carro, não? Poderia me dar uma carona? Acontece que estou indo pra lá também...

Claro. Mas já estou de partida.

Eu também.

Então foram.

a grama

Sinto a temperatura da grama que afago com meus dedos. A grama do parque, se recuperando das queimaduras do sol; mas o outono chegou. A grama está fria e úmida. Todo domingo todos os dedos a tocam em busca de apenas alguma resposta ou apenas de paz.

Eu quero os dois. Mas se tiver que escolher, prefiro a paz.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

lâmpadas

Quando as lâmpadas da minha rua continuam acesas pela manhã é quando eu gosto de viver. A manhã é cinza mas as luzes amarelas. E não se confundem. O dia permanece escuro. Caminho até onde posso escutando Tom Waits. No ponto de ônibus está ela. Sua capa azul marinho úmida. Ela usa uma boina que me faz lembrar de meus antepassados russos. O cheiro de seu perfume é igual ao de uma fruta que nunca provei. Fruta vermelha.

O dia permanece escuro.

E a cidade fica ainda mais bonita quando estou voltando para casa ao som dos solos de saxofones, trompetes. Chet Baker é um dos que mais escuto, não tem jeito. E lá está ela novamente. A gente finge que não se vê e finge que não consegue sentar junto no banco do ônibus. Acho que é para prolongar a sensação. Mas um dia iremos, não tem jeito. E preparo meu chá preto e ascendo a lâmpada amarela da luminária e começo minha leitura. Penso em como foi meu dia. Relembro do seu jeito engraçado de virar o pescoço e sorrio. Um dia a gente vai sorrir.

Amanhã vou escutar Thelonious Monk.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

“do meio em diante ele dá uma engrossada na história”

Não sei qual era a história, o nome do livros alheios que eu tenho dificuldade de descobrir me motivam a viver, acho, mas na manhã dessa quarta-feira minha vontade de saber o título do livro do vizinho foi ainda maior. Por que eu simplesmente nunca pergunto?

Que graça teria?

Estava em pé viajando de metrô até o trabalho e uma garota estava lendo um livro bem velho e surrado. À sua frente sentava um senhor que cochilava como um anjo. Aí ele simplesmente acordou, mal olhou pro livro da garota e disse “do meio em diante ele dá uma engrossada na história”, e ela, sem saber o que responder disse “obrigada”. E ele voltou a dormir.

domingo, 22 de abril de 2012

autoconsolo com canela

Ele acreditava que se vestisse seu sweater favorito, colocasse no toca-discos um álbum antigo de Stan Getz e observasse a chuva, alguma resposta viria. Ele olhava para os muros vizinhos ali de sua janela. Contava nos dedos os anos que se passaram desde que.

Alguma resposta viria. Era a forma como ele não agia. Depois de mergulhar naquela imensa xícara de chá sabor autoconsolo com canela nunca mais voltou.

Às vezes até mesmo eu acho que ele estava certo.

 Mas eu tive de ter feito o que fiz.

Quando penso nele; nesses dias frios e solitários de outono; tiro o meu cachecol com cheiro de saudades do guarda-roupa e vou dar um passeio com meu cachorro.

sábado, 14 de abril de 2012

inácio

Inácio deixou seu bigode dos tempos de solteiro crescer novamente já que agora estava solteiro novamente.

Limpou seu apartamento, integrante a um prédio localizado no baixo centro da cidade de São Paulo, construído na década de 70, com paredes de vidro ou janelas parede.

Comprou uma samambaia. A planta fez toda a diferença na sala gigantesca e quase vazia – agora que sua ex-esposa levara quase toda a mobília embora. Os discos e o toca-discos ficaram, pelo menos.

 Depois da faxina e depois de pregar a samambaia na parede Inácio sentou no chão – não tinha sofá ou cadeira – encostou sua cabeça na parede e olhou para o vazio. Todo aquele imenso vazio. Ascendeu um cigarro e suspirou. E agora?

domingo, 1 de abril de 2012

triste em seu domingo quase noite

Era uma monótona sala de domingo. Tarde quase noite, se bem me lembro. Eu vestia minha camisola e mexia nos discos dele. Meu consolo era uma deliciosa xícara de chá quente.
Mas o que eu escutava perfeitamente não era o som da orquestra regida pelo toca-discos, e sim o barulho dos dedos dele digitando com uma quase brutalidade, o teclado do computador.
 Eu não podia aumentar o volume da música, afinal, ele estava trabalhando e, se perdesse a concentração, demoraria ainda mais para acabar.
 Mas eu estava esperando isso acontecer desde sexta-feira; sim. Eu estava esperando por um drinque e uma conversa o final de semana inteiro, trancada naquele apartamento gigante e vazio. Tão vazio de calor que eu podia escutar o eco da minha voz e dos meus pensamentos.
 Eu podia ter virado uma garrafa de vodca no gargalo e pulado no terraço; podia ter tomado um belo banho e encontrado meus amigos; ter saído para jantar ou ido ao cinema sozinha.

Mas eu esperei até domingo quase noite por você antes de.

sábado, 17 de março de 2012

amores de padaria

Essa é uma crônica pequena. Ela dura pouco. Dura o tempo de você tomar um suco de açaí bem gelado no verão.

Essa pequena história de amor aconteceu na última segunda-feira do mês de; bom, em algum mês de verão. A segunda-feira mais quente de toda minha vida e o bairro era Moema. Eu não sentia fome, mas tinha uma hora livre para.

Então entrei na padaria que costumo frequentar. Para acompanhar meu livro pedi um suco de açaí.

Geralmente, quando tenho a oportunidade, escolho o lugar em que vou me sentar. Mas, dessa vez, que eu me lembre, devo apenas ter escolhido uma mesa distante da luz do sol.

Quando me sentei, demorei para tirar os olhos do cardápio e fazer o meu pedido. Quando finalmente ergui a cabeça, vi que na mesa à minha frente sentava-se uma mulher, de costas para mim. O que fez com que eu ficasse curioso, curioso suficiente para me dispersar de tudo à minha volta.

Afrouxei a gravata.

Ela vestia uma saia preta; blusa branca; tinha cabelos quase brancos de tão amarelos. Mas não vi seu rosto, nem o que ela estava comendo, lentamente; já que, da mesma forma que eu prestava atenção nela, ela prestava atenção no caderno de economia do jornal diário. Achei o máximo. Ela lia minuciosamente página por página, número por número – todos aqueles sinais que eu nunca hei de entender. Tomava um suco de abacaxi.

Não vi seu rosto. Nem terminei o meu livro.

terça-feira, 6 de março de 2012

noite

Eu não consigo descrever o que vi hoje no céu. Um céu violeta e uma lua cheia. Vocês todos deviam estar lá porque eu não vou conseguir contar o que vi hoje no céu.
E as estrelas...

Não consigo.

domingo, 4 de março de 2012

no centro da cidade

São Paulo é minha.
São Paulo é minha e de João Antônio.

o sentido da vida

Eu não procuro por nada.
Eu uso minha camiseta dos Muppets manchada de molho de spaghetti e sigo.
Eu não procuro por nada.
Eu tomo banho de óculos.
Mas não gosto de foco.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

carnaval

Após o almoço Antonio saiu para passear com sua cachorra no parque perto de sua casa. Era terça-feira de carnaval O último suspiro. Na manhã seguinte ele estaria trabalhando e tudo faria parte do passado. Sabia.

Aproveitou então cada segundo com Olga, uma labradora marrom um pouco acima do peso.
Antonio não dava a mínima para os festejos do feriado e também não tinha dinheiro sobrando para fazer uma viagem curta ao litoral.

Quando voltou de seu passeio tomou um longo banho gelado; penteou seus cabelos molhados para trás e andou até a sala. Ainda com a toalha no pescoço escolheu um disco para escutar. Um vinil instrumental de Milton Banana. Colocou sua camiseta regata favorita; verde e velha.

Logo depois seus olhos passearam pela estante de livros. Selecionou alguns de fotografia. Farkas e Bresson foram inclusos.

Antonio não acreditava possuir um dom incomum; mas reconhecia que a ele pertencia o talento de observar.

Então observou.

Folheou livro por livro, foto por foto.

E a fome apertou.

Preparou uma deliciosa porção de guacamole acompanhada de nachos, abriu uma cerveja, aconchegou-se no sofá e, ao lado de Olga assistiu aos seus filmes favoritos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

eu vou para

Quando entro naquele ônibus que passa entre as seis e quinze e seis e meia da tarde - depende do trânsito - esqueço que estou na minha própria cidade. A razão para isso poderia ser simples: entro num ambiente infestado de estranhos, que nunca pegam aquele ônibus dois dias seguidos; mas na verdade é quase o contrário, sinto-me perdido toda vez que vejo aquela madrilena subir os degraus do coletivo – sempre na minha frente. Além de mim ela é a única que viaja todos os dias no mesmo ônibus.

Eu a conheci mês passado, quando mudei meu turno no trabalho. Desde o primeiro dia que a vi, ela me viu também; e desde então nossos olhos ficam inquietos quando se encontram. Nunca trocamos uma palavra. Mas nem precisa. A distância é a maneira mais próxima de amar. É assim que encaro esse delicioso incômodo.

Costumo inventar algumas coisas - já que passo horas no trânsito vendo a vida passar da janela - a partir dos fatos. Reais. Mas não sei se ela, por exemplo, é a mulher de 30 anos que usa saias coloridas, estampas extravagantes, cabelos, ah, eu nem saberia descrever o tom daquele castanho, que veio de Madri para andar de ônibus todos os dias na minha cidade cinza. Mas não faz sentindo algum ela ser de outro lugar. Então. Então me sinto em outro lugar que não.

E desde então me vejo como um garoto – mesmo que nossa idade seja muito próxima, e estou deixando a barba crescer. Será que ela percebeu? Nunca vou perguntar. Assim como nunca vou perguntar o nome do livro que ela lê todos os dias e que eu nunca consigo ler o que está escrito na capa.

Só sei que ela não é daqui.

E que eu vou para. Quando ela está.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

tem dias

Que uma xícara de café ressuscita a boa vontade ou qualquer vontade;

Que um telefonema é capaz de apagar da memória tantos outros;

Que um sorriso nasce enquanto moedas são entregues na mão do jornaleiro em troca de uma revista aguardada;

Que um solo de trompete inspira a escrever um romance ou tentar;

Que os finais dos filmes de Jim Jarmusch fazem sentido;

E dias que não.

domingo, 22 de janeiro de 2012

numa noite de verão em um bar latino-americano

Era noite de terça-feira e chovia hora sim hora não. Verão. Aquele bar tinha em suas paredes pôsteres de filmes brasileiros da década de 70, samambaias, arecas, singônios, espadas de São Jorge, antúrios e cores tropicália. Rumba, cumbia e risada nos ouvidos.

Eu tomava um copo de Quilmes enquanto observava tudo. Mas o tudo se resumiu a uma cena que por pouco não fez com que caísse uma lágrima alcoólica dos meus olhos.

Na mesa em frente a minha sentava-se uma garota de olhos verdes; vestia uma camisa xadrez de algodão. Laranja e vermelha. Estava reunida com seus amigos, que bebiam inúmeras garrafas de cerveja e mojitos. Acho que a notei porque ela chegou bem depois que o resto da mesa. Parecia ter tido um dia longo, mas sua aparência leve – acho que o equilíbrio das cores de suas roupas com o bar e seus cabelos castanhos, recém cortados, ajudou.

Não demorou muito para ela se sentar na frente de seu amigo e dar início a uma conversa que parecia arrancar suas forças - mas ela parecia estar habituada a esse tipo de conversa. Mesmo simpática com todos ali, ela não tinha jeito de quem gosta de papear amenidades a noite toda.

Aconteceu então algo que a fez interromper a conversa subitamente - e encher seu copo de cerveja e tomá-lo num só gole - num gole sabor desespero com entusiasmo. Passou a frente de sua mesa um grupo de pessoas e quem estava entre eles era uma garota de olhos azuis - mais loira que um anjo. Posso até dizer que a garota ofuscava a presença de todos ao seu lado. Até eu virei um bom gole naquele momento.

A protagonista da minha história não fez muita questão de disfarçar sua reação - que eu não saberia descrever aqui - quando a protagonista da sua história passou. Ficou claro pra mim que se tratava de uma história de amor. Aquelas sem ponto final, ou reticências - talvez um ponto de interrogação.

A garota de cabelos claros vestia-se de maneira sóbria; uma malha verde escuta e jeans, acho, não reparei ao ponto de lembrar perfeitamente. O bar estava lotado e ela demorou para arranjar um lugar para se acomodar.

Passado alguns minutos, minha garota de olhos verdes - senti vontade de chamá-la assim desde o começo - caminhava ao lado de uma amiga até o banheiro e notou que o anjo vestido da cor dos seus olhos estava sentado ali perto – mas o que ela não sabia é que ela estava sendo observada antes. Enquanto ela esperava sua amiga no lavado tentando parecer invisível, alguém – além de mim – a observava, com as bochechas rosadas, ensaiando alguma fala em pensamento. Quando ela saiu tentando passar despercebida, a garota de olhos azuis a cumprimentou com um sorriso e logo se levantou. Um beijo-carinhoso-de-olá. Há quanto tempo. Houve uma pausa. E acho que escrevi tudo isso aqui para falar dela. Uma pausa. A troca de palavras foi substituída por uma troca de olhares. Que olhos lindos. Uma troca de mensagens que um estranho voyeur jamais conseguiria decifrar. Se olhavam em silêncio.

Nada importa mais. Estamos aqui trocando o sorriso – o suspiro mais esperado de nossas vidas.

E os olhos azuis perguntaram como os verdes estavam. Disse que estavam cansados. Desabafou. E a conversa seguiu novamente com palavras e logo depois cada uma voltou para o seu respectivo lugar, não antes de um beijo de despedida, e a garota de cabelos amarelos disse que foi bom vê-la, sentimento de satisfação que foi retribuído logo em seguida. Bom te ver. Também.

E a noite seguiu gloriosa e a pausa, congelada, com a ajuda de todos os cubos de gelos mergulhados nos drinques coloridos.

domingo, 8 de janeiro de 2012

amores de metrô

Aquele sol de quinta-feira de manhã queimava minha pele enquanto eu caminhava quase que lentamente e quase que sem vontade até a estação de metrô. Eu escutava Herman Dune para esquecer o quão desanimada estava e então. Quando cheguei à estação e ia em direção quase que roboticamente a escada rolante eu quase esbarrei com ela: a garota de quase trinta anos que usava sapatos dockside bicolores, bermuda social e blusa branca. Seus cabelos loiros e ao mesmo tempo sutis balançavam mesmo com aquele vento quase insignificante. Eu parei com alguns milésimos de segundos antes de descer as escadas e ela percebeu que meu mecanismo havia sido alterado depois da visão que tive, mas ela seguiu naturalmente na minha frente. Sem intenção alguma acabei embarcando no mesmo vagão que ela. Logo apanhei meu livro do Norman Mailer da bolsa e tentei me concentrar. Depois de umas três ou quatro estações não resisti, ergui meus olhos discretamente para ver se ela ainda estava lá. Além de se encontrar à minha direita ela também lia um livro. Fiquei ainda mais curiosa. Depois de mais alguns minutos ergui novamente meus olhos para descobrir o que ela estava lendo e vi que seus olhos – claros talvez azuis - estavam na direção do meu livro; dessa forma tive que voltar rapidamente a minha leitura ou tentativa de. Mas não aguentei: olhei de novo. Era George Orwell. Depois disso perdi a concentração. Hoje é raro encontrar alguém que lê no metrô com aparente interesse um livro que não seja a respeito de vampiros. E quando achei que nada mais interessante que isso poderia acontecer aconteceu. Ela desceu na mesma estação que eu. Filmes encharcados de coincidências podem ser baseados na vida real, pensei, em minha onda momentânea de otimismo. Mas eu não olhei pra trás, não antes de um cinco minutos de caminhada pela avenida. E ela desapareceu.

o açougueiro

Todos os dias às nove e meia da manhã eu giro a chave para abrir o portão e sair de casa e caminhar até a estação. A primeira pessoa que vejo é ele, o açougueiro. Ele está sempre lá, encostado na parede da padaria da esquina, em frente a seu local de trabalho, o açougue. Ele usa botas brancas de borracha e um avental com manchas de sangue. Manchas de sangue o fazem parecer algo mais que. Na sua mão direita segura o cigarro-de-cada-dia. Ele inspira e suspira e suspira. Seu rosto nunca revela algo novo, ou segredo sequer. Barba por fazer; olhos quase tristes. Nove e meia é hora de soprar e suas recordações se vão com a fumaça de seu Marlboro vermelho. Fico pensando se ele pensa em mim também. Dessa maneira.

monólogo

Olho um por um os livros da estante. Já li todos.
E as revistas também; todas ali; que estão empilhadas.
Empilhar diminui o espaço e o valor também.
E os filmes. Esses eu já vi e revi, aliás.
Embaixo ficam os discos que eu escuto todos os dias.
Preciso trocar de vida com alguém. Ou então me repetir eternamente.
Se repetir às vezes é até bom; mas hoje estou especialmente entediada e o meu livro favorito não vai me salvar.
Nem meus amigos.
Nem mesmo uma boa taça de vinho.
Nem todas essas cores gritantes que me cercam: azul, laranja, vermelho.
Acho que na verdade sou o oposto de todas elas.