domingo, 22 de janeiro de 2012

numa noite de verão em um bar latino-americano

Era noite de terça-feira e chovia hora sim hora não. Verão. Aquele bar tinha em suas paredes pôsteres de filmes brasileiros da década de 70, samambaias, arecas, singônios, espadas de São Jorge, antúrios e cores tropicália. Rumba, cumbia e risada nos ouvidos.

Eu tomava um copo de Quilmes enquanto observava tudo. Mas o tudo se resumiu a uma cena que por pouco não fez com que caísse uma lágrima alcoólica dos meus olhos.

Na mesa em frente a minha sentava-se uma garota de olhos verdes; vestia uma camisa xadrez de algodão. Laranja e vermelha. Estava reunida com seus amigos, que bebiam inúmeras garrafas de cerveja e mojitos. Acho que a notei porque ela chegou bem depois que o resto da mesa. Parecia ter tido um dia longo, mas sua aparência leve – acho que o equilíbrio das cores de suas roupas com o bar e seus cabelos castanhos, recém cortados, ajudou.

Não demorou muito para ela se sentar na frente de seu amigo e dar início a uma conversa que parecia arrancar suas forças - mas ela parecia estar habituada a esse tipo de conversa. Mesmo simpática com todos ali, ela não tinha jeito de quem gosta de papear amenidades a noite toda.

Aconteceu então algo que a fez interromper a conversa subitamente - e encher seu copo de cerveja e tomá-lo num só gole - num gole sabor desespero com entusiasmo. Passou a frente de sua mesa um grupo de pessoas e quem estava entre eles era uma garota de olhos azuis - mais loira que um anjo. Posso até dizer que a garota ofuscava a presença de todos ao seu lado. Até eu virei um bom gole naquele momento.

A protagonista da minha história não fez muita questão de disfarçar sua reação - que eu não saberia descrever aqui - quando a protagonista da sua história passou. Ficou claro pra mim que se tratava de uma história de amor. Aquelas sem ponto final, ou reticências - talvez um ponto de interrogação.

A garota de cabelos claros vestia-se de maneira sóbria; uma malha verde escuta e jeans, acho, não reparei ao ponto de lembrar perfeitamente. O bar estava lotado e ela demorou para arranjar um lugar para se acomodar.

Passado alguns minutos, minha garota de olhos verdes - senti vontade de chamá-la assim desde o começo - caminhava ao lado de uma amiga até o banheiro e notou que o anjo vestido da cor dos seus olhos estava sentado ali perto – mas o que ela não sabia é que ela estava sendo observada antes. Enquanto ela esperava sua amiga no lavado tentando parecer invisível, alguém – além de mim – a observava, com as bochechas rosadas, ensaiando alguma fala em pensamento. Quando ela saiu tentando passar despercebida, a garota de olhos azuis a cumprimentou com um sorriso e logo se levantou. Um beijo-carinhoso-de-olá. Há quanto tempo. Houve uma pausa. E acho que escrevi tudo isso aqui para falar dela. Uma pausa. A troca de palavras foi substituída por uma troca de olhares. Que olhos lindos. Uma troca de mensagens que um estranho voyeur jamais conseguiria decifrar. Se olhavam em silêncio.

Nada importa mais. Estamos aqui trocando o sorriso – o suspiro mais esperado de nossas vidas.

E os olhos azuis perguntaram como os verdes estavam. Disse que estavam cansados. Desabafou. E a conversa seguiu novamente com palavras e logo depois cada uma voltou para o seu respectivo lugar, não antes de um beijo de despedida, e a garota de cabelos amarelos disse que foi bom vê-la, sentimento de satisfação que foi retribuído logo em seguida. Bom te ver. Também.

E a noite seguiu gloriosa e a pausa, congelada, com a ajuda de todos os cubos de gelos mergulhados nos drinques coloridos.

domingo, 8 de janeiro de 2012

amores de metrô

Aquele sol de quinta-feira de manhã queimava minha pele enquanto eu caminhava quase que lentamente e quase que sem vontade até a estação de metrô. Eu escutava Herman Dune para esquecer o quão desanimada estava e então. Quando cheguei à estação e ia em direção quase que roboticamente a escada rolante eu quase esbarrei com ela: a garota de quase trinta anos que usava sapatos dockside bicolores, bermuda social e blusa branca. Seus cabelos loiros e ao mesmo tempo sutis balançavam mesmo com aquele vento quase insignificante. Eu parei com alguns milésimos de segundos antes de descer as escadas e ela percebeu que meu mecanismo havia sido alterado depois da visão que tive, mas ela seguiu naturalmente na minha frente. Sem intenção alguma acabei embarcando no mesmo vagão que ela. Logo apanhei meu livro do Norman Mailer da bolsa e tentei me concentrar. Depois de umas três ou quatro estações não resisti, ergui meus olhos discretamente para ver se ela ainda estava lá. Além de se encontrar à minha direita ela também lia um livro. Fiquei ainda mais curiosa. Depois de mais alguns minutos ergui novamente meus olhos para descobrir o que ela estava lendo e vi que seus olhos – claros talvez azuis - estavam na direção do meu livro; dessa forma tive que voltar rapidamente a minha leitura ou tentativa de. Mas não aguentei: olhei de novo. Era George Orwell. Depois disso perdi a concentração. Hoje é raro encontrar alguém que lê no metrô com aparente interesse um livro que não seja a respeito de vampiros. E quando achei que nada mais interessante que isso poderia acontecer aconteceu. Ela desceu na mesma estação que eu. Filmes encharcados de coincidências podem ser baseados na vida real, pensei, em minha onda momentânea de otimismo. Mas eu não olhei pra trás, não antes de um cinco minutos de caminhada pela avenida. E ela desapareceu.

o açougueiro

Todos os dias às nove e meia da manhã eu giro a chave para abrir o portão e sair de casa e caminhar até a estação. A primeira pessoa que vejo é ele, o açougueiro. Ele está sempre lá, encostado na parede da padaria da esquina, em frente a seu local de trabalho, o açougue. Ele usa botas brancas de borracha e um avental com manchas de sangue. Manchas de sangue o fazem parecer algo mais que. Na sua mão direita segura o cigarro-de-cada-dia. Ele inspira e suspira e suspira. Seu rosto nunca revela algo novo, ou segredo sequer. Barba por fazer; olhos quase tristes. Nove e meia é hora de soprar e suas recordações se vão com a fumaça de seu Marlboro vermelho. Fico pensando se ele pensa em mim também. Dessa maneira.

monólogo

Olho um por um os livros da estante. Já li todos.
E as revistas também; todas ali; que estão empilhadas.
Empilhar diminui o espaço e o valor também.
E os filmes. Esses eu já vi e revi, aliás.
Embaixo ficam os discos que eu escuto todos os dias.
Preciso trocar de vida com alguém. Ou então me repetir eternamente.
Se repetir às vezes é até bom; mas hoje estou especialmente entediada e o meu livro favorito não vai me salvar.
Nem meus amigos.
Nem mesmo uma boa taça de vinho.
Nem todas essas cores gritantes que me cercam: azul, laranja, vermelho.
Acho que na verdade sou o oposto de todas elas.