domingo, 8 de janeiro de 2012

amores de metrô

Aquele sol de quinta-feira de manhã queimava minha pele enquanto eu caminhava quase que lentamente e quase que sem vontade até a estação de metrô. Eu escutava Herman Dune para esquecer o quão desanimada estava e então. Quando cheguei à estação e ia em direção quase que roboticamente a escada rolante eu quase esbarrei com ela: a garota de quase trinta anos que usava sapatos dockside bicolores, bermuda social e blusa branca. Seus cabelos loiros e ao mesmo tempo sutis balançavam mesmo com aquele vento quase insignificante. Eu parei com alguns milésimos de segundos antes de descer as escadas e ela percebeu que meu mecanismo havia sido alterado depois da visão que tive, mas ela seguiu naturalmente na minha frente. Sem intenção alguma acabei embarcando no mesmo vagão que ela. Logo apanhei meu livro do Norman Mailer da bolsa e tentei me concentrar. Depois de umas três ou quatro estações não resisti, ergui meus olhos discretamente para ver se ela ainda estava lá. Além de se encontrar à minha direita ela também lia um livro. Fiquei ainda mais curiosa. Depois de mais alguns minutos ergui novamente meus olhos para descobrir o que ela estava lendo e vi que seus olhos – claros talvez azuis - estavam na direção do meu livro; dessa forma tive que voltar rapidamente a minha leitura ou tentativa de. Mas não aguentei: olhei de novo. Era George Orwell. Depois disso perdi a concentração. Hoje é raro encontrar alguém que lê no metrô com aparente interesse um livro que não seja a respeito de vampiros. E quando achei que nada mais interessante que isso poderia acontecer aconteceu. Ela desceu na mesma estação que eu. Filmes encharcados de coincidências podem ser baseados na vida real, pensei, em minha onda momentânea de otimismo. Mas eu não olhei pra trás, não antes de um cinco minutos de caminhada pela avenida. E ela desapareceu.

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