terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

carnaval

Após o almoço Antonio saiu para passear com sua cachorra no parque perto de sua casa. Era terça-feira de carnaval O último suspiro. Na manhã seguinte ele estaria trabalhando e tudo faria parte do passado. Sabia.

Aproveitou então cada segundo com Olga, uma labradora marrom um pouco acima do peso.
Antonio não dava a mínima para os festejos do feriado e também não tinha dinheiro sobrando para fazer uma viagem curta ao litoral.

Quando voltou de seu passeio tomou um longo banho gelado; penteou seus cabelos molhados para trás e andou até a sala. Ainda com a toalha no pescoço escolheu um disco para escutar. Um vinil instrumental de Milton Banana. Colocou sua camiseta regata favorita; verde e velha.

Logo depois seus olhos passearam pela estante de livros. Selecionou alguns de fotografia. Farkas e Bresson foram inclusos.

Antonio não acreditava possuir um dom incomum; mas reconhecia que a ele pertencia o talento de observar.

Então observou.

Folheou livro por livro, foto por foto.

E a fome apertou.

Preparou uma deliciosa porção de guacamole acompanhada de nachos, abriu uma cerveja, aconchegou-se no sofá e, ao lado de Olga assistiu aos seus filmes favoritos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

eu vou para

Quando entro naquele ônibus que passa entre as seis e quinze e seis e meia da tarde - depende do trânsito - esqueço que estou na minha própria cidade. A razão para isso poderia ser simples: entro num ambiente infestado de estranhos, que nunca pegam aquele ônibus dois dias seguidos; mas na verdade é quase o contrário, sinto-me perdido toda vez que vejo aquela madrilena subir os degraus do coletivo – sempre na minha frente. Além de mim ela é a única que viaja todos os dias no mesmo ônibus.

Eu a conheci mês passado, quando mudei meu turno no trabalho. Desde o primeiro dia que a vi, ela me viu também; e desde então nossos olhos ficam inquietos quando se encontram. Nunca trocamos uma palavra. Mas nem precisa. A distância é a maneira mais próxima de amar. É assim que encaro esse delicioso incômodo.

Costumo inventar algumas coisas - já que passo horas no trânsito vendo a vida passar da janela - a partir dos fatos. Reais. Mas não sei se ela, por exemplo, é a mulher de 30 anos que usa saias coloridas, estampas extravagantes, cabelos, ah, eu nem saberia descrever o tom daquele castanho, que veio de Madri para andar de ônibus todos os dias na minha cidade cinza. Mas não faz sentindo algum ela ser de outro lugar. Então. Então me sinto em outro lugar que não.

E desde então me vejo como um garoto – mesmo que nossa idade seja muito próxima, e estou deixando a barba crescer. Será que ela percebeu? Nunca vou perguntar. Assim como nunca vou perguntar o nome do livro que ela lê todos os dias e que eu nunca consigo ler o que está escrito na capa.

Só sei que ela não é daqui.

E que eu vou para. Quando ela está.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

tem dias

Que uma xícara de café ressuscita a boa vontade ou qualquer vontade;

Que um telefonema é capaz de apagar da memória tantos outros;

Que um sorriso nasce enquanto moedas são entregues na mão do jornaleiro em troca de uma revista aguardada;

Que um solo de trompete inspira a escrever um romance ou tentar;

Que os finais dos filmes de Jim Jarmusch fazem sentido;

E dias que não.