quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

eu vou para

Quando entro naquele ônibus que passa entre as seis e quinze e seis e meia da tarde - depende do trânsito - esqueço que estou na minha própria cidade. A razão para isso poderia ser simples: entro num ambiente infestado de estranhos, que nunca pegam aquele ônibus dois dias seguidos; mas na verdade é quase o contrário, sinto-me perdido toda vez que vejo aquela madrilena subir os degraus do coletivo – sempre na minha frente. Além de mim ela é a única que viaja todos os dias no mesmo ônibus.

Eu a conheci mês passado, quando mudei meu turno no trabalho. Desde o primeiro dia que a vi, ela me viu também; e desde então nossos olhos ficam inquietos quando se encontram. Nunca trocamos uma palavra. Mas nem precisa. A distância é a maneira mais próxima de amar. É assim que encaro esse delicioso incômodo.

Costumo inventar algumas coisas - já que passo horas no trânsito vendo a vida passar da janela - a partir dos fatos. Reais. Mas não sei se ela, por exemplo, é a mulher de 30 anos que usa saias coloridas, estampas extravagantes, cabelos, ah, eu nem saberia descrever o tom daquele castanho, que veio de Madri para andar de ônibus todos os dias na minha cidade cinza. Mas não faz sentindo algum ela ser de outro lugar. Então. Então me sinto em outro lugar que não.

E desde então me vejo como um garoto – mesmo que nossa idade seja muito próxima, e estou deixando a barba crescer. Será que ela percebeu? Nunca vou perguntar. Assim como nunca vou perguntar o nome do livro que ela lê todos os dias e que eu nunca consigo ler o que está escrito na capa.

Só sei que ela não é daqui.

E que eu vou para. Quando ela está.

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