domingo, 22 de abril de 2012

autoconsolo com canela

Ele acreditava que se vestisse seu sweater favorito, colocasse no toca-discos um álbum antigo de Stan Getz e observasse a chuva, alguma resposta viria. Ele olhava para os muros vizinhos ali de sua janela. Contava nos dedos os anos que se passaram desde que.

Alguma resposta viria. Era a forma como ele não agia. Depois de mergulhar naquela imensa xícara de chá sabor autoconsolo com canela nunca mais voltou.

Às vezes até mesmo eu acho que ele estava certo.

 Mas eu tive de ter feito o que fiz.

Quando penso nele; nesses dias frios e solitários de outono; tiro o meu cachecol com cheiro de saudades do guarda-roupa e vou dar um passeio com meu cachorro.

sábado, 14 de abril de 2012

inácio

Inácio deixou seu bigode dos tempos de solteiro crescer novamente já que agora estava solteiro novamente.

Limpou seu apartamento, integrante a um prédio localizado no baixo centro da cidade de São Paulo, construído na década de 70, com paredes de vidro ou janelas parede.

Comprou uma samambaia. A planta fez toda a diferença na sala gigantesca e quase vazia – agora que sua ex-esposa levara quase toda a mobília embora. Os discos e o toca-discos ficaram, pelo menos.

 Depois da faxina e depois de pregar a samambaia na parede Inácio sentou no chão – não tinha sofá ou cadeira – encostou sua cabeça na parede e olhou para o vazio. Todo aquele imenso vazio. Ascendeu um cigarro e suspirou. E agora?

domingo, 1 de abril de 2012

triste em seu domingo quase noite

Era uma monótona sala de domingo. Tarde quase noite, se bem me lembro. Eu vestia minha camisola e mexia nos discos dele. Meu consolo era uma deliciosa xícara de chá quente.
Mas o que eu escutava perfeitamente não era o som da orquestra regida pelo toca-discos, e sim o barulho dos dedos dele digitando com uma quase brutalidade, o teclado do computador.
 Eu não podia aumentar o volume da música, afinal, ele estava trabalhando e, se perdesse a concentração, demoraria ainda mais para acabar.
 Mas eu estava esperando isso acontecer desde sexta-feira; sim. Eu estava esperando por um drinque e uma conversa o final de semana inteiro, trancada naquele apartamento gigante e vazio. Tão vazio de calor que eu podia escutar o eco da minha voz e dos meus pensamentos.
 Eu podia ter virado uma garrafa de vodca no gargalo e pulado no terraço; podia ter tomado um belo banho e encontrado meus amigos; ter saído para jantar ou ido ao cinema sozinha.

Mas eu esperei até domingo quase noite por você antes de.