domingo, 20 de maio de 2012

o melhor café com leite que antonio tomou em sua vida

A vida de Antonio se resumiu em tomar o ônibus e ir para o trabalho e tomar o ônibus e voltar para casa.

Ele queria ser escritor, mas não se contentava com seus personagens todos baseados nas pessoas medíocres que ele conhecia.

Suas vitórias se resumiram a não chegar atrasado no trabalho. Na quinta-feira passada Antonio chegou dez minutos antes do horário do expediente. Nem o porteiro do prédio havia chegado.

Na rua de trás existia um bar onde, mesmo trabalhando pelas redondezas há uma década, Antonio nunca tinha entrado. Nem para um cafezinho antes de começar o dia.

Resolveu ir até lá. Pediu um café com leite. Estava bom. O melhor de sua vida. No balcão, ao seu lado, sentava-se um cara com um pouco mais da metade de sua idade. O dono do boteco soltava frases para ele do tipo “Você está certo”, “Se eu pudesse, embarcava nessa com você”, “Queria sumir também” etc. Antonio era um cara calado, nunca se metera na conversa de ninguém. Gostava de ser assim, até. Porém, sem pensar muito antes de, perguntou:

Para onde você está indo?

Seu vizinho, sem ar de surpresa ou incômodo, respondeu:

Para o Rio de Janeiro.

Suspirou, tomou o último gole de seu café e continuou:

Fui demitido. São Paulo não é o meu lugar...

E, embora Antonio fosse paulistano, nascido e criado no bairro da Mooca, sentiu o mesmo naquele momento. Ou, pelo menos, naquele momento teve coragem em sentir:

Posso ir com você? Quer dizer... você vai de carro, não? Poderia me dar uma carona? Acontece que estou indo pra lá também...

Claro. Mas já estou de partida.

Eu também.

Então foram.

a grama

Sinto a temperatura da grama que afago com meus dedos. A grama do parque, se recuperando das queimaduras do sol; mas o outono chegou. A grama está fria e úmida. Todo domingo todos os dedos a tocam em busca de apenas alguma resposta ou apenas de paz.

Eu quero os dois. Mas se tiver que escolher, prefiro a paz.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

lâmpadas

Quando as lâmpadas da minha rua continuam acesas pela manhã é quando eu gosto de viver. A manhã é cinza mas as luzes amarelas. E não se confundem. O dia permanece escuro. Caminho até onde posso escutando Tom Waits. No ponto de ônibus está ela. Sua capa azul marinho úmida. Ela usa uma boina que me faz lembrar de meus antepassados russos. O cheiro de seu perfume é igual ao de uma fruta que nunca provei. Fruta vermelha.

O dia permanece escuro.

E a cidade fica ainda mais bonita quando estou voltando para casa ao som dos solos de saxofones, trompetes. Chet Baker é um dos que mais escuto, não tem jeito. E lá está ela novamente. A gente finge que não se vê e finge que não consegue sentar junto no banco do ônibus. Acho que é para prolongar a sensação. Mas um dia iremos, não tem jeito. E preparo meu chá preto e ascendo a lâmpada amarela da luminária e começo minha leitura. Penso em como foi meu dia. Relembro do seu jeito engraçado de virar o pescoço e sorrio. Um dia a gente vai sorrir.

Amanhã vou escutar Thelonious Monk.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

“do meio em diante ele dá uma engrossada na história”

Não sei qual era a história, o nome do livros alheios que eu tenho dificuldade de descobrir me motivam a viver, acho, mas na manhã dessa quarta-feira minha vontade de saber o título do livro do vizinho foi ainda maior. Por que eu simplesmente nunca pergunto?

Que graça teria?

Estava em pé viajando de metrô até o trabalho e uma garota estava lendo um livro bem velho e surrado. À sua frente sentava um senhor que cochilava como um anjo. Aí ele simplesmente acordou, mal olhou pro livro da garota e disse “do meio em diante ele dá uma engrossada na história”, e ela, sem saber o que responder disse “obrigada”. E ele voltou a dormir.