quinta-feira, 26 de julho de 2012

o chapéu do seu avô e você


Eu gostava de você. De ficar ao seu lado no banco da estação de trem. Você nunca se sentava. Você fumava em silêncio enquanto eu lia em pensamento e às vezes interrompia o parágrafo seguinte para te olhar, em silêncio, enquanto você fumava em pensamento. Houve vezes em que eu cheguei a colocar o marcador de páginas – aquele que você me deu e que antes havia sido do seu avô – para observar melhor.

Seus movimentos.

A maleta que guardava seu trompete encostada em suas pernas compridas. Você sempre usava o mesmo suéter listrado, de lã, uma lã grossa. E aquele seu chapéu, que também era de seu avô. Acho que você é a única pessoa do mundo inteiro que combina com aquele chapéu estúpido, ou que não parece estúpido com ele. Ou.

Te esperar nos ensaios era algo interessante. Olhar para você ocupava todo o meu tempo e ouvir a sua música era tudo o que meus ouvidos pareciam precisar.

Pareciam precisar.

Às vezes andávamos por horas em silêncio. Apenas para sentir o movimento das coisas, e acabávamos por encontrar cafés incríveis, onde líamos os clássicos até sermos varridos.

Você escrevia cartas e partituras para mim.

E, de vez em quando, você colocava seu chapéu na minha cabeça.

Você ficou tão bonito quando deixou a barba crescer...

Mas tudo o que eu admirava em você, o fazia em pensamento.

Te amei em silêncio.

Você, em si menor.

terça-feira, 24 de julho de 2012

ar

Abre a janela e deixa o sol bater no teu rosto
Te despertar
Olha a ilha, o mar
E venha
Que eu vou tirar
Sua camiseta de algodão
E beijar
Suas costas sardentas
Que hão de queimar
Sob o lençol branco
Eu vou te puxar
Por cima de mim
E te contar
Que o silêncio
É quem deve falar
E o barulho do mar
A espuma que chega até a areia
Como uma lágrima de refrigerante
Que há de evaporar
Essa noite uma nuvem
Do tamanho do mundo
Vai confortar teu sono
Vem
E abre a janela
Deixa queimar
Enquanto
Eu respiro fundo e sinto o ar.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

tic tac

Passavam-se os minutos e Murilo continuava com os olhos colados na folha em branco. Passavam-se as horas e seu café esfriava. Ele o requentava. Era um círculo de não ações que não parava de jeito nenhum.

Passavam-se os dias e seus olhos continuavam colados na folha em branco. Passavam-se os anos e o café gelado era re-re-re-re-re-re-re-re-re-re-re-requentado. Café sem gosto que poderia servir de tinta para pintar a folha em branco já que as palavras sumiram de vez de sua cabeça.

Passavam-se o tic e o tac sua barba se esparramara pela máquina de escrever, pelo chão, embaraçando ideias que jamais encontrariam o ponto final. Tec tec tec tec tec tec.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

dois ou um


Tudo deu errado naquela terça-feira em que eu engoli o choro de ira e fui ao parque com você, que já não queria mais falar comigo, assim como eu. Nisso concordávamos. Com o silêncio. Uma briga de gente sensata. Ou contida.

Fomos ao parque para ler somente. Sentamos sobre o gramado fresco quase frio, debaixo de árvores das quais, ignorante que sou não procurei saber a qual espécie pertenciam. Líamos e não tirávamos os olhos de nossas histórias. Mas não absorvemos nada. Fingidos, cínicos que somos. Orgulhosos que nunca dão braço a torcer. Minha vontade não era ficar olhando para as frases quebradas de Cortázar mas. Era de ir embora curtir minha tarde ensolarada sem você. Ou pelo menos escrever sobre minhas vontades. Mas aí você olharia pra mim com o canto dos olhos, soberbo, acreditando ser o objeto de meus rabiscos.

Então não me movi.

Não por mais um tempo, já que, com as pernas e pés formigando, tive de levantar para me alongar. E você, não sei por qual motivo se levantou também, guardando seu livro e o maço de cigarros.

Vamos para o museu.

Foi o que você quase ordenou e, eu, sem paciência alguma para diálogos, te acompanhei. Praguejei injustamente contra cada artista que estava exibindo seu trabalho naquelas paredes.

Depois te provoquei dizendo que gostaria de pintar um retrato seu em frente ao lago. Mas já estava escurecendo.

E voltamos para casa calados.