quinta-feira, 26 de julho de 2012

o chapéu do seu avô e você


Eu gostava de você. De ficar ao seu lado no banco da estação de trem. Você nunca se sentava. Você fumava em silêncio enquanto eu lia em pensamento e às vezes interrompia o parágrafo seguinte para te olhar, em silêncio, enquanto você fumava em pensamento. Houve vezes em que eu cheguei a colocar o marcador de páginas – aquele que você me deu e que antes havia sido do seu avô – para observar melhor.

Seus movimentos.

A maleta que guardava seu trompete encostada em suas pernas compridas. Você sempre usava o mesmo suéter listrado, de lã, uma lã grossa. E aquele seu chapéu, que também era de seu avô. Acho que você é a única pessoa do mundo inteiro que combina com aquele chapéu estúpido, ou que não parece estúpido com ele. Ou.

Te esperar nos ensaios era algo interessante. Olhar para você ocupava todo o meu tempo e ouvir a sua música era tudo o que meus ouvidos pareciam precisar.

Pareciam precisar.

Às vezes andávamos por horas em silêncio. Apenas para sentir o movimento das coisas, e acabávamos por encontrar cafés incríveis, onde líamos os clássicos até sermos varridos.

Você escrevia cartas e partituras para mim.

E, de vez em quando, você colocava seu chapéu na minha cabeça.

Você ficou tão bonito quando deixou a barba crescer...

Mas tudo o que eu admirava em você, o fazia em pensamento.

Te amei em silêncio.

Você, em si menor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário