sexta-feira, 26 de outubro de 2012

joão disse que

Naqueles anos, tempos não tão distantes, mas que parecem ser... Era mais fácil marcar encontros. Você podia acender um cigarro dentro de um café numa tarde chuvosa e encobrir com fumaça a falta de assunto, ou suspirar o nervosismo.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

fotografia


Seus braços transparentes mostravam as cores de suas veias: verdes, azuis e roxas. Seus braços transparentes estavam cobertos por uma blusa de plush azul. Você arregaçava as mangas e sentava no chão. No chão de areia que é a praia. E segurava um graveto.

Enquanto seus dedos, também transparentes, brincavam com o pedaço de madeira oca, o vento brincava com os seus cabelos loiros e cacheados. Castanho claro, você dizia. Para mim, loiros.

E enquanto seu rosto transparente, porém cheios de sardas, estava virado em direção ao Sol que estava morrendo mais um dia eu já tinha morrido. Ido embora de sua vida, para dar lugar a Lua. Mas eu pude te ver naquele fim de tarde em que pela primeira vez te vi sozinho. Sozinho e feliz. Esperando apenas o dia cair para voltar para a sua cidade. Cinza sem sol sem sal do mar.

E você, que mesmo habitante desta, que mesmo transparente, é mais colorido do que eu que moro na cidade de todas as cores. Você é paz. Eu sou amor. E se havia um pouco de paz em mim, foi-se instante antes de te ver ali.

Eu pedalava pela orla ouvindo Nick Drake, que você gostava tanto, também.

Eu perdi a paz e a direção da bicicleta e caí e meu joelho sangrou. Mas eu não senti nada e fiquei ali no chão olhando a fotografia que aquela paisagem intocável de você em harmonia com minha cidade se tornou. E só depois vi o vermelho escorrendo sobre a minha perna.