quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

rio


Da Lagoa eu vejo tudo. Vejo tudo o que acontece em todos os lugares todos ao meu redor e as luzes de dezembro são pura festa: das janelas dos prédios, dos bares, das ruas, do Cristo. Todas as luzes batem na água que rebate em meus olhos que brilham alucinados. E a festa continua no Botafogo no botequim de paredes de azulejo e imagem de São Jorge. Salve simpatia, gente que desconheço que me abrem um sorriso do tamanho de um abraço. E na Rua Alice ainda tem um bar aberto e sobrou pra mim o último pastel de queijo, que acompanho com um dois três chopes e aquelas paredes azul pastel e a estampa da camisa e as lâmpadas amarelas me fazem acreditar que eu estou em 1970 e quando amanhece eu acordo com um beijo do Sol no meu rosto e vou e vou e vou pelo Flamengo eu sigo com água de coco me batizo e no fim dos passos, o MAM, encontro Geraldo de Barros, Ivan Serpa, Lygia Clark, viva viva. Cruzo a rua a Cinelândia o Odeon, aqui é tudo tão. Eu sigo à Lapa à escadaria de Jorge Selarón e almoço no Verdinho e tomo um café e como um mil folhas na Confeitaria Colombo, onde escuto Tom Jobim. Contemplo o centro suas cores suas casas e o teatro municipal, onde pego um táxi que me leva até Ipanema ao som de Ópera. E é no Arpoador que eu fico o resto da tarde pois pra mim não existe espetáculo maior que o das águas que batem e batem e batem nas pedras produzindo um som hipnotizante a espuma o espirro é tudo o que quero assistir e as ondas volumosas de indescritíveis formatos levam com força e paixão os surfistas que se moldam à natureza e no cair do sol conduzo meu corpo a Copacabana aos antiquários e a amizade e ao clássico português e seu bolinho de bacalhau e o corpo que depois de poucas horas de repouso segue ao Parque Lage todo iluminado todo arborizado e na beira da piscina sentamos e ouvimos música e descemos os degraus e sentamos nos degraus e falamos sobre cinema e partimos mais uma vez em busca de um som novo e algo gelado para beber e nada melhor do que o Botafogo até quase amanhecer cerveja de garrafa e Tim Maia na caixa ecoando, acenda o farol! Acho dinheiro perdido no chão e terminamos a noite num botequim tudo por conta do acaso que passou por mim e logo amanhece e logo logo mesmo é hora de voltar eu olho o mar e dá vontade de chorar porque sei que tudo aquilo não vai durar muito mais e quando entro no avião escuto Chet, “I Fall In Love Too Easily” e da janela dou adeus.

domingo, 22 de dezembro de 2013

sono lenta

Sobre o mesmo travesseiro repousam nossas cabeças. Seus cabelos compridos se misturam com os meus e sua respiração inquieta não deixa a minha lenta, sonolenta. Seus olhos estão abertos, fixados no teto sem estrelas. Você está de barriga para cima e o seu livro continua em cima dela enquanto seus dedos se distraem em cima dele. Meu corpo está voltado para o seu, amortecido, e eu quero fechar os olhos. Então você se vira e me diz algo e sua boca fica tão perto da minha que eu nem presto atenção no que ela diz. Eu só concordo com um resmungo e você afaga os meus cabelos. O toca-discos gira a faixa “Days of Wine and Roses”, de Dexter Gordon. Lembro do título por lembrar. E por gostar muito dessa música. Eu até penso em comentar. Mas acabo por cochilar e logo acordar com o beijo que você dá perto do meu ouvido antes de se levantar e eu tenho tanto sono e você onde está está tão linda que eu não te peço pra ficar ou pra apagar a luz do abajur. E meus olhos vão sonhando novamente até você virar um borrão.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

gosto de uva

Ela estava sentada numa cadeira de madeira fabricada na década de 1950. As pernas do móvel pousavam próximas à janela. No batente havia um cinzeiro de vidro branco e uma taça quase vazia de vinho branco.

Já as pernas dela repousavam uma sobre a outra. Ela segurava um livro com as duas mãos. Um livro antigo, com a capa de couro azul marinho. Sem título. Vez ou outra ela interrompia a leitura para olhar a rua pela janela: viva, frenética em cores saturadas pelo sol. Nesses instantes ela descansava o livro sobre suas pernas e tragava o cigarro e tomava um gole de vinho. Mas naquele momento a taça estava quase seca.
Seus pés calçavam oxford marrons e meias de bolinhas azuis. Suas pernas compridas vestiam calças de veludo cotelê bordô. Usava uma camisa branca de corte impecável e o relógio de ouro herdado de seu avô. Seus cabelos castanhos claros estavam presos num coque despretensiosamente elegante. O que fazia seu pescoço parecer ainda mais longo e seu rosto mais iluminado pelos raios. Eles, na verdade, preenchiam com luz cada canto daquela sala.

Eu estava encostada no batente da porta, esperando o momento certo para entrar sem assustá-la. Mas na verdade ela sabia que eu estava lá e eu sabia que ela sabia.

Caminhei lentamente pelo piso de tacos e aproveitei que sua nuca estava à mostra para dar-lhe um beijo. Com seu braço direito voltado para trás, sua mão segurou minha nuca e foi puxando meu pescoço até que ele se virasse na direção da sua boca amortecida em vinho. Perguntei sem tirar completamente os meus lábios dos dela que nada responderam qual livro estava lendo. Seu olhar apático sugeria alguns nomes, mas preferi não responder à minha própria pergunta.

Tirei minhas botas, levei uma cadeira até a frente da cadeira dela e acendi um cigarro. Ela fechou o livro e voltou os olhos para a janela. Peguei sua taça de vinho e tomei o último gole. Quando dei a última tragada no meu cigarro ela perguntou se eu tinha visto seus óculos.

Respondi que não. Apaguei o cigarro no cinzeiro e fui para o nosso quarto à procura deles. Não estavam lá. Voltei para a sala e vasculhei incansavelmente todas as gavetas, todas as superfícies, todos os espaços e buracos. Não tem importância ela disse. Eu continuei a revirar a casa.

Depois de longos minutos estática ela se levantou e foi preparar um banho. Peguei duas taças limpas na cozinha e a garrafa de vinho e levei até o banheiro. Enchi o cristal e quando estendi o braço para lhe entregar a bebida ela me puxou lenta e agressivamente fazendo com que meu corpo inclinasse. Me agachei ao lado da banheira. Ela afagou meus cabelos e beijou minha testa e eu tirei o resto da minha roupa para submergir com ela na água quente. Quente como suas indecifráveis lágrimas que molharam meu rosto enquanto nos beijávamos e entrelaçávamos nossas pernas.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

melancolia

Enganei-me em pensar que ela não voltaria. Ela apenas se atrasou, devido ao grande momento de euforia. Que eu vivia. E enquanto eu, já sem motivo sorria, levei um empurrão, que me deixou fraca e com vontade de me arrastar pelas paredes com um cigarro pendurado na boca ouvindo Chet.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

uma sobra de tempo

Nessas janelas, espaços, tréguas do tempo, eu devia estar preparada a elas, eu devia saber aproveitar, mas elas são tão imprevisíveis, que penso pouco, pequeno, penso numa xícara de chá, penso em ler um poema. Eu deveria fazer mais? Eu deveria tentar ocupar esses espaços? Talvez eles surjam para isso mesmo, para eu nada fazer, para eu não sufocar. Eles são uma fresta, um respiro, um suspiro. Coloco uma música boa e a água no fogo e assim eu sigo.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

amores de metrô - volume dois

Dos amores de metrô que se sentam ao meu lado ou estacionam seu corpo em frente ao meu alterando a iluminação da minha leitura que se interrompe por mais que eu mantenha meus olhos fixados na página. Desses amores que duram uma eterna viagem de duas ou três estações e que quando desembarcam, desembarcam no sentido oposto ao meu, dos amores que se tornam amores pelo simples raro fato de lerem um livro e de se entregarem somente a este, abstraindo tudo o que os cercam, mas que, assim como eu, encontram por uma fração de segundo um segundo leitor e por este se distrai por mais que mantenha os olhos fixados na página. E o tempo passa, e as páginas não lidas se viram e viram e viram enquanto os olhos, esses não viram nunca. Dos amores de metrô eu desejo apenas saber o título de seus livros.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

crônica de uma banana

Resolvi que iria tomar um sorvete na hora do almoço. Ali na Augusta. Mas não tomar um sorvete enquanto ando, olho no relógio, calculo o tempo. É sexta-feira, aliás. Todo mundo tem o direito de se dar um presente às sextas. Enquanto caminhava em direção ao meu momento, pensei comigo: nunca fui a uma sorveteria sozinha. Talvez não pareça correto. Desfrutar do gelado sem compartilhar tal prazer com alguém, oferecer uma colherada, experimentar o sabor do sorvete do outro, essas coisas. Parece nada.

E aquele momento inédito se tornou inédito duas vezes. Não tinha ninguém na sorveteria. Além de mim. Não pensei duas vezes e entrei. Me servi e sentei ali para provar um sabor de sorvete que me faria repetir. Banana.

Depois andei até a Praça Roosevelt para tomar um sol e derreter o gelo do corpo. Fiquei pensando naquele sorvete. Estava bom mesmo. Depois voltei para a realidade que estava tão agradável quanto aquele sabor: dezenas de garotos andando de skate sob os raios de luz. O céu estava lindo e eu quis ficar ali um pouco. Mais um pouco e voltei.

Enquanto escrevo isso aqui no trabalho escuto Milton Banana. E a vontade é de sair, na sombra ou no sol, e escutar esse disco tomando aquele sorvete.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

cinza



No meio da tarde decidiu que era melhor viver sua loucura fora de casa. Pegou seu caderno de anotações e foi embora.

Caminhou até o ponto de ônibus e disse para si que tomaria o primeiro coletivo que aparecesse. Fazia um sol escaldante e ele usava uma camisa grossa, de flanela. Seria sensato voltar pra casa?

Não. Arriscou.

Depois de infinitos dez minutos apareceu o primeiro ônibus. O destino não era tão atraente como em sua expectativa cinematográfica. Mas cumpriu a auto-promessa.

A decepção continuou quando entrou no ônibus: estava lotado e ele teve de ficar em pé com sua bolsa pesada até o final da viagem. Ele, que achava que sentaria no banco e escreveria um romance instantâneo. Desceu no destino, ponto final.

Naquele momento a maior dúvida de sua vida era escolher a direção: esquerda, direita? Seguiu em frente, apenas; até que qualquer coisa chamasse a sua atenção e desviasse seus passos.

Mas tudo o que via eram pessoas uniformizadas saindo e entrando de seus escritórios de trabalho. Não havia uma casa sequer; eram edifícios e mais edifícios, todos iguais, que filtravam a luz da cidade, resumindo-a a apenas um tom. Cinza. Duro. E mesmo sem sol o calor acabava com ele, que se perguntava por que deveria se sentir culpado em não ter um emprego qualquer, como todo mundo parecia ter em sua cidade.

Sua cidade que parecia ser cada vez menos sua.

Cada vez menos das cores.

Cada vez menos história.

Procurou uma praça para sentar-se e tentar escrever algo. Depois de muito, encontrou um lugar abandonado que antes praça: tomado por ervas daninhas, já sem bancos ou vestígio de vida.

Andou andou andou e desistiu de qualquer poesia que pudesse estar perdida ou penetrada no ar poluído. Talvez apenas fosse um péssimo escritor.

Parou num bar sem mesas onde os únicos clientes deviam ser ratos e baratas.

Pediu uma Coca-Cola.

Não tinha.

Saindo de lá com a garganta seca decidiu voltar para casa. Quando chegou abraçou sua cachorra. Ela era tudo o que havia sobrado de doce nesse mundo.

domingo, 1 de setembro de 2013

bala de cereja


Eu saía da minha aula de trompete naquela quarta-feira em que o céu era de outono e as flores de primavera. Um final de tarde em que a melhor coisa a se fazer é não pensar. Em nada.

Olhava, enquanto andava em direção ao metrô, os cachorros da vizinhança onde meu professor morava. E todos eles olhavam pra mim, sorrindo de boca aberta, babando cores azuis e alaranjadas.

Abri minha bolsa cor de caramelo e peguei meus fones de ouvidos cor de chiclete para escutar Duke Ellington.

Desci as escadas do metrô num contratempo com a música, rocei meus quadris na roleta e entrei no trem cor de lua que chegou na velocidade de um foguete fazendo meu chapéu coco voar e finalmente realizar o sonho de conhecer o Espaço.

Meus passos descompassos no vagão lotado eram um incômodo só. Depois de vários tropeços e pancadas encontrei um canto para me apoiar junto com o trompete. Eu estava em pé olhando para os pés ouvindo a minha música até que uma risada aguda e descontrolada e alta o suficiente para interromper o solo de “Chloe” me interrompeu.

Olhei para cima para frente e era você!!!

Espontaneamente meu pescoço de avestruz se inclinou novamente para onde estava.

Mas não resisti e voltei a você, que estava lendo A Espuma dos Dias. Seu rosto estava quase que completamente coberto pela capa colorida do livro; sendo assim, não me veria tão cedo e eu poderia te ver até que.

Então te olhei. Você continuava com os mesmos óculos redondos de casca de tartaruga e usava o mesmo relógio de ouro, o mesmo que nos avisava que já era dia. Naqueles dias. Vestia uma camisa de viscose com estampa setentista cor de framboesa, calças marrom de veludo cotelê e um par de creepers branco. E enquanto eu ouvia a sua voz você parecia escutar a minha música.

Você tinha um ritmo.

E eu não sabia se você iria notar que eu estava ali na sua frente e resolvi desviar os olhos no mesmo momento em que meu corpo inteiro arrepiou ao sentir seu hálito bala de cereja gelado o suficiente para congelar o momento em que você fechou o livro, olhou para mim e disse



 !!!!!OI!!!!!

domingo, 4 de agosto de 2013

dei um beijo na felina e fui

Uma caixa de giz pastel estava derretendo sob a luz da luminária da sua mesa da sua sala da sua casa.

Eu esperava você sair do banho. Enquanto isso olhava sem muito interesse para suas novas pinturas; naquela superfície, nas paredes e pelo chão. Todas tão. O vapor da água do chuveiro do banheiro era tamanho que chegava a invadir todos os cômodos.

Deve estar derretendo também, seu corpo. Pensei. Mas esperei. Não me levantei daquela cadeira confortável para ir até o banheiro e checar se você ainda estava vivo.

Sua gata acordou e me fez companhia. Levantei-me e juntas caminhamos lentamente até a varanda. A varanda do seu quarto da sua casa quase que abandonada. Reguei as plantas e recolhi algumas garrafas vazias. Garrafas de vinho de alguma festa a dois que fizemos, mas que eu já nem lembrava mais.

Acendi um cigarro e a partir daquele momento o tempo parou e eu pensei em tanta coisa que quando dei a última tragada já não tinha certeza se queria continuar ali te esperando. Dei um beijo na felina e fui.

E isso foi há quase um ano e eu nunca mais voltei e você.

ao som de um jazz aleatório

Esses dias frios que nascem no meio do ano...
Nesses dias
Eu espero ao som de um jazz aleatório
Nesses dias
Eu espero algo acontecer
Só porque eu sei que vai
E porque não quero perder.
Nesses dias eu observo da janela do transporte público e da janela do escritório e da janela do meu quarto os tons neutros do céu.
Espero uma mancha azul aparecer e surpreender a todo mundo.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

sol um deus

Saímos todos para ver o Sol. Sentir o Sol. Os raios de Sol penetrando em nossas veias já congeladas. Saímos com nossos cachorros naquele domingo último antes do almoço. Saímos apenas para sentir calor. Sentir o calor. Saímos sem relógio para sermos lembrados pelo Sol, quando desse meio dia. Abrimos os portões de nossa casa para celebrar a luz o fogo e a volta de um deus que não acreditávamos mais acreditar. O Sol chegou no dia santo que é o dia de domingo para o nosso bairro e para os nossos corações gelados.

Saímos todos para comprar o jornal dominical na banca já quase esquecida como o fogo no céu. Foi bom enxergar os telhados vermelhos iluminados, assim como os antúrios, as roseiras, as espadas de são jorge, as samambaias e arecas. Os velhos que não saíram para o dominó na praça aguardavam a macarronada sem pressa, sentados em algum degrau de seus quintais ao lado dos gatos preguiçosos, sentindo o cheiro do molho de tomates.

Poucas horas depois todos os portões estavam fechados e a temperatura de nosso sangue já em graus devidamente negativos.

terça-feira, 23 de julho de 2013

quando indecifrável ou apenas sem sentido a vida se mostra e mesmo assim temos vontade de chorar ao notar algum resquício de beleza

Descendo a não tão doce Avenida Brigadeiro eu escutava Nina Simone com as mãos no bolso do casaco na manhã mais gelada do ano quando vi aquela moradora de rua coberta com suas mantas junto ao seu cachorro, lendo atentamente o jornal. A história dos dias, recicláveis assim como as folhas do papel que as comportam. Pensei essa seria uma cena em tanto para Courbet. Talvez. Pensei que amor de cão é a única coisa que não se joga fora. Nessa vida.

domingo, 14 de julho de 2013

o último sábado de nossas vidas

Que pena.
Você não estava comigo naquela noite.
Naquela noite de sábado que foi o último de nossas vidas.
E que choveu muito.
Nós ríamos tão alto.
Nós falávamos tão alto.
Que o som da água que caía tornou-se ameno.
Inaudível para nós.
Nós que não éramos você e eu.
Nós que estávamos lá.
Na mesa do bar.
Esperando a chuva passar.
Esperando você passar.
E quando o céu disse vem.
Eu fui.
Fui para debaixo de toda aquela imensidão, azul.Violeta.
Fui dançar debaixo da imensidão.
O céu é um buraco ao contrário.
E eu fechei meus olhos que também são buracos.
E esqueci por uma noite inteira o buraco que você fez em mim.

suas botas

Aquele par de botas que você usava. Que você estava usando naquele dia em que te conheci. Um par de botas velhas. Botas marrons. E tão elegantes.
Você descia a rua com suas botas e eu achei que vocês realmente combinavam.
Eu te esperava numa mesa dum café de esquina. No café que passamos aquela tarde. No café em que.
Você chegou. Deu um sorriso tímido com o canto da boca e apagou seu cigarro na sola, da bota.
E finalmente sentou-se a minha frente.
Quer dizer. Antes eu me levantei e nos cumprimentamos com um beijo. No rosto quase que no ar.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

redoma parte três

Absorto em pensamentos. Aquele dia foi impossível te alcançar. Seu café quase gelado. Eu olhava para você. Você parecia olhar para mim mas não estava. Você se afogou aquele dia e não poderia ter sido de outra maneira.

redoma parte dois

Você estava imersa naquele cobertor.
Naquele seu livro.
Não quis te atrapalhar.
Ascendi o abajour.
Você não disse nada. Acho que nem percebeu a presença da luz.
Te preparei um chá. De frutas vermelhas. Esfriou.
E você nem se deu conta do vapor da xícara que eu deixei em cima do criado mudo, ao seu redor. Continuou lendo, com a lente dos óculos embaçada.
Se eu pudesse ao menos dividir a cama com você.
Eu ficaria em silêncio.
Prometeria meu silêncio.
Viraria vapor.
Se você ao menos pudesse ler esse romance para mim também.

redoma

Você não queria conversar.
Você enxugava as lágrimas com a manga do suéter.
Te ofereci um lenço, mas até esse gesto parecia ser um ato insensível.
Não te toquei.
Acho que nunca mais vou.
Você é tão frágil.
Criamos uma redoma e agora ela se espatifou.
Devo sumir em poucos dias. Da sua vida.
Em poucos dias.
Queria cuidar de você.
E essa é a maneira que encontrei.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

betina

Betina lia. Betina lia sentada no piso de tacos de sua sala. Betina gostava de se sentar no chão. Ficava ao lado da janela de moldura branca, com bordas arredondadas; porque à tarde, à tarde o sol batia e as letras de seu livro se tornavam quase que palpáveis.

Betina lia. Porque seu livro era sólido. Seus pensamentos não. O resto dos minutos de seus dias, também não. E ela precisava segurar em algo firme.

Betina lia.

E esquecia do que à literatura não pertencia.

Ela apoiava o livro nos joelhos. Às vezes distraía os dedos segurando um isqueiro. Às vezes levantava e fumava um cigarro, apoiando os cotovelos na borda da janela. Suspirava. E isso geralmente acontecia à noite. A noite era notável quando se esquecia de pagar a conta de luz.

A lua era notável.

Do décimo sexto andar ela via as cinzas de seu cigarro caindo, se desfazendo, sumindo antes de chegar ao chão. O chão da rua. As cinzas desapareciam no ar estático da cidade.

Dormia por dormir.

Dormia com receio de sonhar.

Sonhar nem sempre é bom.

Para Betina sonhar quase nunca era algo bom.

Quando era bom ela guardava, anotava todos os detalhes que lembrava em seu Livro Dos Sonhos. Desatualizado há meses. Não se recordava da última vez que.

Betina lia porque não tinha um sonho. Betina lia porque tinha medo de seus sonhos. Betina sonhava um livro.

Mas suas ideias desapareciam antes de chegar ao chão.

Betina nunca teve os pés no chão.

Betina queria ser Virginia. Woolf.

Queria ao menos saber descrever os inúmeros pontos de poeira que a rodeavam, no ar, em seu apartamento, iluminados pela luz do sol que chegava através da janela.

Betina nunca seria notável como a luz solar ou a luz que lhe era cortada todo começo de mês.

Betina estava mais para sombra. Para cinza. Para cinzas.

Betina achava que ninguém a via.

Acho que era o que ela pretendia.

Betina só queria.

Ler seu livro em paz.

Até que a última página chegasse ao fim e

domingo, 26 de maio de 2013

seria stan getz meu vizinho?


Faz uns dois anos que eu o ouvi pela primeira vez, o saxofone. Estava caminhando com minha cachorra na rua detrás da nossa casa. O som vinha de um sobrado antigo, daqueles de esquina. Eu perdi um pouco a noção do tempo. Da direção. Com a melodia. Nunca o vi, ou a vi, o, a, saxofonista. E depois dessa noite eu passei a passar na frente da casa à procura do som.

Acho que me apaixonei, até.

E até que tive sorte, pois eu sempre me deparava com aqueles solos, ali na esquina. À noite. Até que.

Passou-se um tempo e eu não mais ouvi. Insisti. Minha cachorra me puxava, apressada, em busca de caminhos diferentes para farejar. Mas eu ficava parada ali. Querendo escutar. Farejando o som.

Para onde ele foi durante a falta de sintonia não sei.

Mas ele voltou. Voltou no outono.

Voltou no outono no final da estação no final de uma tarde em que o sol mandava suas últimas linhas de luz. E nesse dia eu estava desatenta; passei lá por passar, como alguém que aprende a esquecer um antigo amor. Meus ouvidos abriram um sorriso e eu fiquei lá, ao lado da minha cachorra, em frente à casa, na direção de sua janela, ouvindo cada nota. Imaginando quem seria. Seria Stan Getz meu vizinho?

domingo, 19 de maio de 2013

história da arte

Na última aula do curso de história da arte a garota de cabelos amarelos e tatuagem de boneca russa no braço sentou novamente ao meu lado. Porém, dessa vez, desenvolvemos um diálogo. Ela pediu licença para se sentar e me agradeceu quando eu dei passagem, virando minhas pernas para o lado. Fiquei muda.

Logo em seguida ela perguntou:

Sobre o que é a aula hoje?

Fiquei vermelha e demorei infinitos segundos para responder:

Expressionismo abstrato.

Obrigada.

Ainda não satisfeita emendou mais uma questão:

E você sabe qual foi o tema da aula passada?

Devo dizer que, dessa vez fui mais eficaz na resposta:

Dadaísmo.

Ela então anotou em seu caderno e me agradeceu pela terceira e última vez.

terça-feira, 23 de abril de 2013

abril

Era alguma noite no meio da semana. Uma dessas noites agradavelmente geladas de outono. Ele vestiu uma calça de sarja azul marinho, um tênis surrado, um moletom vermelho e um cachecol xadrez que há muito não saía de seu guarda-roupa. Desceu as escadas até a garagem para pegar a coleira de sua beagle, Veruska. Foram passear.

Na rua o ar era diferente; o vento que invadia o rosto era carregado de informações: o tabaco dos cachimbos dos velhinhos que jogavam cartas na praça, os jantares alheios que estavam sendo preparados, o sabão que lavava as oficinas mecânicas já fechadas e a brasa dos fornos a lenha das pizzarias que começava a esquentar.

Eles caminhavam por ruas aleatórias, em sentido diagonal, Veruska estava feliz e ele assobiava “It’s only a paper moon”. O céu estava limpo; era o mês de abril que fazia tudo ser diferente. Era o outono.

Quando se cansaram de correr e percorrer o bairro voltaram pra casa. Veruska foi se aquecer em sua casinha forrada de cobertores. E ele, o herói sobrevivente das noites quase solitárias, preparou uma xícara de chá de erva cidreira para tomar enquanto lia um conto de Nikolai Gógol.

segunda-feira, 25 de março de 2013

o beijo

A toalha vermelha quadriculada estava sobreposta ao verde do gramado; A garrafa de vinho, as frutas secas, o pedaço de queijo e as castanhas, sobrepostas à toalha.

Ela lia algum fluxo de consciência de Virginia Woolf enquanto aproveitava o resquício de sabor em sua boca do gole de vinho que tomara.

Os batimentos de seu coração eram um pouco mais lentos dos que o de quem espera por alguém, e que era o seu caso. Era a calma daqueles dias em que sentimos que já passamos por tudo na vida, que nada pode nos surpreender e que o que nos resta é aproveitar a tranquilidade, essa sensação.

E quando se aproximava da página final de seu livro ela chegou, sua companhia, caminhando lentamente em sua direção, carregando em seus braços uma cesta. Sem alarde agachou-se, de joelhos, afastando os cabelos dela, que estava de costas, e beijou-lhe o pescoço.

E então as duas continuaram, com a ajuda das maleáveis cores solares, aquela cena vespertina que parecia ter sido composta por algum pintor impressionista.

quarta-feira, 13 de março de 2013

um vestígio

Ando e posso correr, até, porque não existe nada de diferente nas ruas que passo, segunda, terça, quarta-feira. As casas bonitinhas, com jardins e muros baixos deram lugar a sobrados em série, que se igualam até nas cores. E quando desisto de procurar por algum vestígio de beleza ou memória, vejo um senhor de cabelos brancos no quintal de sua casa ímpar, sentado num banco de madeira, tocando violão, admirando a paisagem comum, ao lado de seu cachorro, tão pequenino, que escuta sua música.

domingo, 10 de março de 2013

aos domingos

Ela não tem medo de sentir-se deprimida em ler Virginia Woolf aos domingos.

Quem tem medo de Virginia Woolf?

coragem

Minha batata doce morreu.
Minha vida é um saco.
Mas tenho medo de morrer, sequer vontade.
Sou covarde.
Ou assistir filmes demais me faz pensar que sou covarde.
Ou por ter lido os Beats.
Mas eu devo ser mesmo.
Não adianta botar a culpa no cinema ou em qualquer outra coisa.
Minha batata doce morreu e até agora – faz mais de uma semana – eu não tive coragem de tirá-la do vaso. O que se faz quando uma planta – uma raiz – morre?
Seria irônico enterrá-la.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

por mais que eu desejasse interferir naquela cena, não deveria

Quando te vi naquele café pensei estar sonhando, penetrada em alguma pintura de Edward Hooper. Até então nunca havia me passado pela cabeça que tal beleza e solidão pudessem estar juntas em algum lugar da realidade.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

tudo já faz tanto tempo que tanto faz

Passa a noite em claro ouvindo Smiths... Tudo já faz tanto tempo que tanto faz, ouvir.
Passa as tardes, quentes, de verão, dormindo em seu quarto; inerte, sob o efeito do Dramin. Assim não se aborrece. Assim se esquece dos outros e da vida dos outros, que pulsa, enquanto a sua, só repulsa...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

águas



Sentada numa pedra ela assiste ao espetáculo das quedas d´água.
A força e a velocidade; a transparência e a espuma das águas, que depois de correrem batem ainda vivas em seus pés.

ímpar

Sento só no banco da estação; No banco dentro do vagão; No cinema, em toda sessão.
Eu devia andar mais...

do vagão da janela da cidade

Minha cidade parece estar tão desesperada quanto eu.
Uma sintonia.
Uma sinfonia.
Um drama.
Minha cidade e eu e a segunda-feira e a chuva nos entendemos, porém, desconversamos com o resto do mundo. Destoamos. Decaídos. Da janela do vagão eu vejo as gotas e eu vejo as nuvens camufladas de cinza, fazendo do céu um plano quase unidimensional.
É triste assim.
Pode até ser.
Mas é minha cidade.
É um pedaço de mim.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

luz

É o fim de uma tarde de terça-feira, faz frio e o sol se emoldura na janela fazendo com que seus raios iluminem impiedosamente seu rosto pálido.

Você está acomodado na cadeira da sala, olhando fixamente para o piso de taco – tão antigo quanto sua blusa de lã, vermelha, grossa; se não me engano já vi seu avô vestido nela... Acho que seus olhos sequer repararam na excepcional luminosidade daqui... caso contrário, você já teria desistido de estar sentado onde está e eu provavelmente nem estaria escrevendo isso.

Suas pernas finas, cobertas por uma calça marrom de veludo cotelê, estão cruzadas, enquanto seus pés calçados apenas com meias azuis ora balançam no ar ora batem nervosos no chão. Mas você não diz nada.

Eu acompanho o seu silêncio e, assim como você seguro minha taça de vinho branco em uma das mãos. Sua outra mão está ocupada também, segurando o milésimo terceiro cigarro do dia. Eu observo as cinzas se formarem até que você note e quase que delicadamente as deixe cair no cinzeiro. Semana passada você prometeu que iria parar de fumar, penso em dizer, mas deixo pra lá. Deixo tudo em silêncio e Billie Holiday cantar.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

onde tudo morre e nasce, por fim


Abandonei o conto pela metade, ou nem isso, e com uma bicicleta que peguei emprestada pedalei até a montanha mais alta, até o vento impetuoso esticar minha pele, e esta, se queimar com o sol do meio dia; até o sangue voltar a circular, vermelho, em meu rosto.

Abandonei minha história e toda a ficção dos dias para sentir a temperatura das pedras e sentir sua textura ao deitar sobre elas, para diminuir de tamanho ao olhar para o céu estrelado; para sentir minha nuca arrepiar ao escutar o uivo da floresta.

O movimento dos pinheiros, eucaliptos e araucárias formam novas coreografias a cada minuto que o vento sopra em direção ao futuro e leva embora as páginas que escrevi.

 A vida nasce numa cachoeira no momento em que os raios de luz se infiltram pela mata.

domingo, 6 de janeiro de 2013

daquele ano tão triste

Noite de quase Natal. Ascendo luzes coloridas em volta da estante de livros. Tão acolhedor.
Luz baixa, mas multicor.
E escuto um disco do Chet Baker. Tão acolhedor.
Eu e a noite de sábado finalmente nos entendemos. Sinceramente, acho que foi ela que finalmente me entendeu.
Quando eu já nem fazia mais questão...
É como ouvir inesperadamente um solo de trompete numa música lenta.
As luzes piscam e eu me alegro com o efeito que elas causam.
Penso no ano que passou.
Fico com a parte boa.
Deixo a parte boa viva, piscando.
Já que a vida é um jazz.
Vive quem sabe improvisar...