quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

luz

É o fim de uma tarde de terça-feira, faz frio e o sol se emoldura na janela fazendo com que seus raios iluminem impiedosamente seu rosto pálido.

Você está acomodado na cadeira da sala, olhando fixamente para o piso de taco – tão antigo quanto sua blusa de lã, vermelha, grossa; se não me engano já vi seu avô vestido nela... Acho que seus olhos sequer repararam na excepcional luminosidade daqui... caso contrário, você já teria desistido de estar sentado onde está e eu provavelmente nem estaria escrevendo isso.

Suas pernas finas, cobertas por uma calça marrom de veludo cotelê, estão cruzadas, enquanto seus pés calçados apenas com meias azuis ora balançam no ar ora batem nervosos no chão. Mas você não diz nada.

Eu acompanho o seu silêncio e, assim como você seguro minha taça de vinho branco em uma das mãos. Sua outra mão está ocupada também, segurando o milésimo terceiro cigarro do dia. Eu observo as cinzas se formarem até que você note e quase que delicadamente as deixe cair no cinzeiro. Semana passada você prometeu que iria parar de fumar, penso em dizer, mas deixo pra lá. Deixo tudo em silêncio e Billie Holiday cantar.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

onde tudo morre e nasce, por fim


Abandonei o conto pela metade, ou nem isso, e com uma bicicleta que peguei emprestada pedalei até a montanha mais alta, até o vento impetuoso esticar minha pele, e esta, se queimar com o sol do meio dia; até o sangue voltar a circular, vermelho, em meu rosto.

Abandonei minha história e toda a ficção dos dias para sentir a temperatura das pedras e sentir sua textura ao deitar sobre elas, para diminuir de tamanho ao olhar para o céu estrelado; para sentir minha nuca arrepiar ao escutar o uivo da floresta.

O movimento dos pinheiros, eucaliptos e araucárias formam novas coreografias a cada minuto que o vento sopra em direção ao futuro e leva embora as páginas que escrevi.

 A vida nasce numa cachoeira no momento em que os raios de luz se infiltram pela mata.

domingo, 6 de janeiro de 2013

daquele ano tão triste

Noite de quase Natal. Ascendo luzes coloridas em volta da estante de livros. Tão acolhedor.
Luz baixa, mas multicor.
E escuto um disco do Chet Baker. Tão acolhedor.
Eu e a noite de sábado finalmente nos entendemos. Sinceramente, acho que foi ela que finalmente me entendeu.
Quando eu já nem fazia mais questão...
É como ouvir inesperadamente um solo de trompete numa música lenta.
As luzes piscam e eu me alegro com o efeito que elas causam.
Penso no ano que passou.
Fico com a parte boa.
Deixo a parte boa viva, piscando.
Já que a vida é um jazz.
Vive quem sabe improvisar...