segunda-feira, 25 de março de 2013

o beijo

A toalha vermelha quadriculada estava sobreposta ao verde do gramado; A garrafa de vinho, as frutas secas, o pedaço de queijo e as castanhas, sobrepostas à toalha.

Ela lia algum fluxo de consciência de Virginia Woolf enquanto aproveitava o resquício de sabor em sua boca do gole de vinho que tomara.

Os batimentos de seu coração eram um pouco mais lentos dos que o de quem espera por alguém, e que era o seu caso. Era a calma daqueles dias em que sentimos que já passamos por tudo na vida, que nada pode nos surpreender e que o que nos resta é aproveitar a tranquilidade, essa sensação.

E quando se aproximava da página final de seu livro ela chegou, sua companhia, caminhando lentamente em sua direção, carregando em seus braços uma cesta. Sem alarde agachou-se, de joelhos, afastando os cabelos dela, que estava de costas, e beijou-lhe o pescoço.

E então as duas continuaram, com a ajuda das maleáveis cores solares, aquela cena vespertina que parecia ter sido composta por algum pintor impressionista.

quarta-feira, 13 de março de 2013

um vestígio

Ando e posso correr, até, porque não existe nada de diferente nas ruas que passo, segunda, terça, quarta-feira. As casas bonitinhas, com jardins e muros baixos deram lugar a sobrados em série, que se igualam até nas cores. E quando desisto de procurar por algum vestígio de beleza ou memória, vejo um senhor de cabelos brancos no quintal de sua casa ímpar, sentado num banco de madeira, tocando violão, admirando a paisagem comum, ao lado de seu cachorro, tão pequenino, que escuta sua música.

domingo, 10 de março de 2013

aos domingos

Ela não tem medo de sentir-se deprimida em ler Virginia Woolf aos domingos.

Quem tem medo de Virginia Woolf?

coragem

Minha batata doce morreu.
Minha vida é um saco.
Mas tenho medo de morrer, sequer vontade.
Sou covarde.
Ou assistir filmes demais me faz pensar que sou covarde.
Ou por ter lido os Beats.
Mas eu devo ser mesmo.
Não adianta botar a culpa no cinema ou em qualquer outra coisa.
Minha batata doce morreu e até agora – faz mais de uma semana – eu não tive coragem de tirá-la do vaso. O que se faz quando uma planta – uma raiz – morre?
Seria irônico enterrá-la.