sexta-feira, 31 de maio de 2013

betina

Betina lia. Betina lia sentada no piso de tacos de sua sala. Betina gostava de se sentar no chão. Ficava ao lado da janela de moldura branca, com bordas arredondadas; porque à tarde, à tarde o sol batia e as letras de seu livro se tornavam quase que palpáveis.

Betina lia. Porque seu livro era sólido. Seus pensamentos não. O resto dos minutos de seus dias, também não. E ela precisava segurar em algo firme.

Betina lia.

E esquecia do que à literatura não pertencia.

Ela apoiava o livro nos joelhos. Às vezes distraía os dedos segurando um isqueiro. Às vezes levantava e fumava um cigarro, apoiando os cotovelos na borda da janela. Suspirava. E isso geralmente acontecia à noite. A noite era notável quando se esquecia de pagar a conta de luz.

A lua era notável.

Do décimo sexto andar ela via as cinzas de seu cigarro caindo, se desfazendo, sumindo antes de chegar ao chão. O chão da rua. As cinzas desapareciam no ar estático da cidade.

Dormia por dormir.

Dormia com receio de sonhar.

Sonhar nem sempre é bom.

Para Betina sonhar quase nunca era algo bom.

Quando era bom ela guardava, anotava todos os detalhes que lembrava em seu Livro Dos Sonhos. Desatualizado há meses. Não se recordava da última vez que.

Betina lia porque não tinha um sonho. Betina lia porque tinha medo de seus sonhos. Betina sonhava um livro.

Mas suas ideias desapareciam antes de chegar ao chão.

Betina nunca teve os pés no chão.

Betina queria ser Virginia. Woolf.

Queria ao menos saber descrever os inúmeros pontos de poeira que a rodeavam, no ar, em seu apartamento, iluminados pela luz do sol que chegava através da janela.

Betina nunca seria notável como a luz solar ou a luz que lhe era cortada todo começo de mês.

Betina estava mais para sombra. Para cinza. Para cinzas.

Betina achava que ninguém a via.

Acho que era o que ela pretendia.

Betina só queria.

Ler seu livro em paz.

Até que a última página chegasse ao fim e

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