segunda-feira, 29 de julho de 2013

sol um deus

Saímos todos para ver o Sol. Sentir o Sol. Os raios de Sol penetrando em nossas veias já congeladas. Saímos com nossos cachorros naquele domingo último antes do almoço. Saímos apenas para sentir calor. Sentir o calor. Saímos sem relógio para sermos lembrados pelo Sol, quando desse meio dia. Abrimos os portões de nossa casa para celebrar a luz o fogo e a volta de um deus que não acreditávamos mais acreditar. O Sol chegou no dia santo que é o dia de domingo para o nosso bairro e para os nossos corações gelados.

Saímos todos para comprar o jornal dominical na banca já quase esquecida como o fogo no céu. Foi bom enxergar os telhados vermelhos iluminados, assim como os antúrios, as roseiras, as espadas de são jorge, as samambaias e arecas. Os velhos que não saíram para o dominó na praça aguardavam a macarronada sem pressa, sentados em algum degrau de seus quintais ao lado dos gatos preguiçosos, sentindo o cheiro do molho de tomates.

Poucas horas depois todos os portões estavam fechados e a temperatura de nosso sangue já em graus devidamente negativos.

terça-feira, 23 de julho de 2013

quando indecifrável ou apenas sem sentido a vida se mostra e mesmo assim temos vontade de chorar ao notar algum resquício de beleza

Descendo a não tão doce Avenida Brigadeiro eu escutava Nina Simone com as mãos no bolso do casaco na manhã mais gelada do ano quando vi aquela moradora de rua coberta com suas mantas junto ao seu cachorro, lendo atentamente o jornal. A história dos dias, recicláveis assim como as folhas do papel que as comportam. Pensei essa seria uma cena em tanto para Courbet. Talvez. Pensei que amor de cão é a única coisa que não se joga fora. Nessa vida.

domingo, 14 de julho de 2013

o último sábado de nossas vidas

Que pena.
Você não estava comigo naquela noite.
Naquela noite de sábado que foi o último de nossas vidas.
E que choveu muito.
Nós ríamos tão alto.
Nós falávamos tão alto.
Que o som da água que caía tornou-se ameno.
Inaudível para nós.
Nós que não éramos você e eu.
Nós que estávamos lá.
Na mesa do bar.
Esperando a chuva passar.
Esperando você passar.
E quando o céu disse vem.
Eu fui.
Fui para debaixo de toda aquela imensidão, azul.Violeta.
Fui dançar debaixo da imensidão.
O céu é um buraco ao contrário.
E eu fechei meus olhos que também são buracos.
E esqueci por uma noite inteira o buraco que você fez em mim.

suas botas

Aquele par de botas que você usava. Que você estava usando naquele dia em que te conheci. Um par de botas velhas. Botas marrons. E tão elegantes.
Você descia a rua com suas botas e eu achei que vocês realmente combinavam.
Eu te esperava numa mesa dum café de esquina. No café que passamos aquela tarde. No café em que.
Você chegou. Deu um sorriso tímido com o canto da boca e apagou seu cigarro na sola, da bota.
E finalmente sentou-se a minha frente.
Quer dizer. Antes eu me levantei e nos cumprimentamos com um beijo. No rosto quase que no ar.