sexta-feira, 27 de setembro de 2013

crônica de uma banana

Resolvi que iria tomar um sorvete na hora do almoço. Ali na Augusta. Mas não tomar um sorvete enquanto ando, olho no relógio, calculo o tempo. É sexta-feira, aliás. Todo mundo tem o direito de se dar um presente às sextas. Enquanto caminhava em direção ao meu momento, pensei comigo: nunca fui a uma sorveteria sozinha. Talvez não pareça correto. Desfrutar do gelado sem compartilhar tal prazer com alguém, oferecer uma colherada, experimentar o sabor do sorvete do outro, essas coisas. Parece nada.

E aquele momento inédito se tornou inédito duas vezes. Não tinha ninguém na sorveteria. Além de mim. Não pensei duas vezes e entrei. Me servi e sentei ali para provar um sabor de sorvete que me faria repetir. Banana.

Depois andei até a Praça Roosevelt para tomar um sol e derreter o gelo do corpo. Fiquei pensando naquele sorvete. Estava bom mesmo. Depois voltei para a realidade que estava tão agradável quanto aquele sabor: dezenas de garotos andando de skate sob os raios de luz. O céu estava lindo e eu quis ficar ali um pouco. Mais um pouco e voltei.

Enquanto escrevo isso aqui no trabalho escuto Milton Banana. E a vontade é de sair, na sombra ou no sol, e escutar esse disco tomando aquele sorvete.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

cinza



No meio da tarde decidiu que era melhor viver sua loucura fora de casa. Pegou seu caderno de anotações e foi embora.

Caminhou até o ponto de ônibus e disse para si que tomaria o primeiro coletivo que aparecesse. Fazia um sol escaldante e ele usava uma camisa grossa, de flanela. Seria sensato voltar pra casa?

Não. Arriscou.

Depois de infinitos dez minutos apareceu o primeiro ônibus. O destino não era tão atraente como em sua expectativa cinematográfica. Mas cumpriu a auto-promessa.

A decepção continuou quando entrou no ônibus: estava lotado e ele teve de ficar em pé com sua bolsa pesada até o final da viagem. Ele, que achava que sentaria no banco e escreveria um romance instantâneo. Desceu no destino, ponto final.

Naquele momento a maior dúvida de sua vida era escolher a direção: esquerda, direita? Seguiu em frente, apenas; até que qualquer coisa chamasse a sua atenção e desviasse seus passos.

Mas tudo o que via eram pessoas uniformizadas saindo e entrando de seus escritórios de trabalho. Não havia uma casa sequer; eram edifícios e mais edifícios, todos iguais, que filtravam a luz da cidade, resumindo-a a apenas um tom. Cinza. Duro. E mesmo sem sol o calor acabava com ele, que se perguntava por que deveria se sentir culpado em não ter um emprego qualquer, como todo mundo parecia ter em sua cidade.

Sua cidade que parecia ser cada vez menos sua.

Cada vez menos das cores.

Cada vez menos história.

Procurou uma praça para sentar-se e tentar escrever algo. Depois de muito, encontrou um lugar abandonado que antes praça: tomado por ervas daninhas, já sem bancos ou vestígio de vida.

Andou andou andou e desistiu de qualquer poesia que pudesse estar perdida ou penetrada no ar poluído. Talvez apenas fosse um péssimo escritor.

Parou num bar sem mesas onde os únicos clientes deviam ser ratos e baratas.

Pediu uma Coca-Cola.

Não tinha.

Saindo de lá com a garganta seca decidiu voltar para casa. Quando chegou abraçou sua cachorra. Ela era tudo o que havia sobrado de doce nesse mundo.

domingo, 1 de setembro de 2013

bala de cereja


Eu saía da minha aula de trompete naquela quarta-feira em que o céu era de outono e as flores de primavera. Um final de tarde em que a melhor coisa a se fazer é não pensar. Em nada.

Olhava, enquanto andava em direção ao metrô, os cachorros da vizinhança onde meu professor morava. E todos eles olhavam pra mim, sorrindo de boca aberta, babando cores azuis e alaranjadas.

Abri minha bolsa cor de caramelo e peguei meus fones de ouvidos cor de chiclete para escutar Duke Ellington.

Desci as escadas do metrô num contratempo com a música, rocei meus quadris na roleta e entrei no trem cor de lua que chegou na velocidade de um foguete fazendo meu chapéu coco voar e finalmente realizar o sonho de conhecer o Espaço.

Meus passos descompassos no vagão lotado eram um incômodo só. Depois de vários tropeços e pancadas encontrei um canto para me apoiar junto com o trompete. Eu estava em pé olhando para os pés ouvindo a minha música até que uma risada aguda e descontrolada e alta o suficiente para interromper o solo de “Chloe” me interrompeu.

Olhei para cima para frente e era você!!!

Espontaneamente meu pescoço de avestruz se inclinou novamente para onde estava.

Mas não resisti e voltei a você, que estava lendo A Espuma dos Dias. Seu rosto estava quase que completamente coberto pela capa colorida do livro; sendo assim, não me veria tão cedo e eu poderia te ver até que.

Então te olhei. Você continuava com os mesmos óculos redondos de casca de tartaruga e usava o mesmo relógio de ouro, o mesmo que nos avisava que já era dia. Naqueles dias. Vestia uma camisa de viscose com estampa setentista cor de framboesa, calças marrom de veludo cotelê e um par de creepers branco. E enquanto eu ouvia a sua voz você parecia escutar a minha música.

Você tinha um ritmo.

E eu não sabia se você iria notar que eu estava ali na sua frente e resolvi desviar os olhos no mesmo momento em que meu corpo inteiro arrepiou ao sentir seu hálito bala de cereja gelado o suficiente para congelar o momento em que você fechou o livro, olhou para mim e disse



 !!!!!OI!!!!!