quinta-feira, 12 de setembro de 2013

cinza



No meio da tarde decidiu que era melhor viver sua loucura fora de casa. Pegou seu caderno de anotações e foi embora.

Caminhou até o ponto de ônibus e disse para si que tomaria o primeiro coletivo que aparecesse. Fazia um sol escaldante e ele usava uma camisa grossa, de flanela. Seria sensato voltar pra casa?

Não. Arriscou.

Depois de infinitos dez minutos apareceu o primeiro ônibus. O destino não era tão atraente como em sua expectativa cinematográfica. Mas cumpriu a auto-promessa.

A decepção continuou quando entrou no ônibus: estava lotado e ele teve de ficar em pé com sua bolsa pesada até o final da viagem. Ele, que achava que sentaria no banco e escreveria um romance instantâneo. Desceu no destino, ponto final.

Naquele momento a maior dúvida de sua vida era escolher a direção: esquerda, direita? Seguiu em frente, apenas; até que qualquer coisa chamasse a sua atenção e desviasse seus passos.

Mas tudo o que via eram pessoas uniformizadas saindo e entrando de seus escritórios de trabalho. Não havia uma casa sequer; eram edifícios e mais edifícios, todos iguais, que filtravam a luz da cidade, resumindo-a a apenas um tom. Cinza. Duro. E mesmo sem sol o calor acabava com ele, que se perguntava por que deveria se sentir culpado em não ter um emprego qualquer, como todo mundo parecia ter em sua cidade.

Sua cidade que parecia ser cada vez menos sua.

Cada vez menos das cores.

Cada vez menos história.

Procurou uma praça para sentar-se e tentar escrever algo. Depois de muito, encontrou um lugar abandonado que antes praça: tomado por ervas daninhas, já sem bancos ou vestígio de vida.

Andou andou andou e desistiu de qualquer poesia que pudesse estar perdida ou penetrada no ar poluído. Talvez apenas fosse um péssimo escritor.

Parou num bar sem mesas onde os únicos clientes deviam ser ratos e baratas.

Pediu uma Coca-Cola.

Não tinha.

Saindo de lá com a garganta seca decidiu voltar para casa. Quando chegou abraçou sua cachorra. Ela era tudo o que havia sobrado de doce nesse mundo.

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