segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

gosto de uva

Ela estava sentada numa cadeira de madeira fabricada na década de 1950. As pernas do móvel pousavam próximas à janela. No batente havia um cinzeiro de vidro branco e uma taça quase vazia de vinho branco.

Já as pernas dela repousavam uma sobre a outra. Ela segurava um livro com as duas mãos. Um livro antigo, com a capa de couro azul marinho. Sem título. Vez ou outra ela interrompia a leitura para olhar a rua pela janela: viva, frenética em cores saturadas pelo sol. Nesses instantes ela descansava o livro sobre suas pernas e tragava o cigarro e tomava um gole de vinho. Mas naquele momento a taça estava quase seca.
Seus pés calçavam oxford marrons e meias de bolinhas azuis. Suas pernas compridas vestiam calças de veludo cotelê bordô. Usava uma camisa branca de corte impecável e o relógio de ouro herdado de seu avô. Seus cabelos castanhos claros estavam presos num coque despretensiosamente elegante. O que fazia seu pescoço parecer ainda mais longo e seu rosto mais iluminado pelos raios. Eles, na verdade, preenchiam com luz cada canto daquela sala.

Eu estava encostada no batente da porta, esperando o momento certo para entrar sem assustá-la. Mas na verdade ela sabia que eu estava lá e eu sabia que ela sabia.

Caminhei lentamente pelo piso de tacos e aproveitei que sua nuca estava à mostra para dar-lhe um beijo. Com seu braço direito voltado para trás, sua mão segurou minha nuca e foi puxando meu pescoço até que ele se virasse na direção da sua boca amortecida em vinho. Perguntei sem tirar completamente os meus lábios dos dela que nada responderam qual livro estava lendo. Seu olhar apático sugeria alguns nomes, mas preferi não responder à minha própria pergunta.

Tirei minhas botas, levei uma cadeira até a frente da cadeira dela e acendi um cigarro. Ela fechou o livro e voltou os olhos para a janela. Peguei sua taça de vinho e tomei o último gole. Quando dei a última tragada no meu cigarro ela perguntou se eu tinha visto seus óculos.

Respondi que não. Apaguei o cigarro no cinzeiro e fui para o nosso quarto à procura deles. Não estavam lá. Voltei para a sala e vasculhei incansavelmente todas as gavetas, todas as superfícies, todos os espaços e buracos. Não tem importância ela disse. Eu continuei a revirar a casa.

Depois de longos minutos estática ela se levantou e foi preparar um banho. Peguei duas taças limpas na cozinha e a garrafa de vinho e levei até o banheiro. Enchi o cristal e quando estendi o braço para lhe entregar a bebida ela me puxou lenta e agressivamente fazendo com que meu corpo inclinasse. Me agachei ao lado da banheira. Ela afagou meus cabelos e beijou minha testa e eu tirei o resto da minha roupa para submergir com ela na água quente. Quente como suas indecifráveis lágrimas que molharam meu rosto enquanto nos beijávamos e entrelaçávamos nossas pernas.

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