terça-feira, 16 de dezembro de 2014

subsolo mondrian

é que a música
a música em SI às vezes é si menor demais
e devemos encontrá-la em outros cantos
como nessa manhã de terça-feira em que eu lia meu querido cortázar e seu diálogo de ruptura
e a quebra da partitura se fez quando um senhor entrou no vagão do metrô e eu abri espaço para ele se sentar, ainda sem tirar completamente os olhos do livro
e então eu o vi e não consegui mais tirar
vermelha amarela e azul sua camisa parecia mais uma obra de mondrian
ele ria e ria sem parar
ele falou comigo e eu com fones de ouvido não escutei e quando os tirei
a verdadeira música começou a tocar
ele ria e ria sem parar
e disse que gostou da minha mochila e que também era um mochileiro
e com sua esposa falava sobre viajar
ele ria e ria sem parar
numa euforia tão boogie
num compasso que não caberia à música pautar, mas quem sabe à boris vian se estivesse no meu lugar

domingo, 14 de dezembro de 2014

nó após o laço

Não era o seu aniversário, mas estreou uma camisa nova; jeans, de mangas curtas, assim, em plena quarta-feira de manhã, de dia de trabalho.
A dificuldade para calçar o tênis continuava a ser a mesma. Perdido em pensamentos, perdido no ritual de dar um nó após o laço.
É que acordei pensando nela e isso tirou a pouca vontade que tenho de sair desse quarto.
E essa camisa nova é um presente de consolo.
O máximo.
que posso fazer por mim.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

lamento

aquele bar. aquele bar em que a gente ia vai fechar. aquele bar em que a gente ia no centro da cidade em que nos éramos sempre as últimas a sair. aquele bar em que a gente ia porque era o último a fechar. aquele bar em que a gente comemorou o seu dia, em que eu falei de billie holiday e você de louise bourgeois e sobre o que iríamos fazer quando não houvesse mais lugar na noite.
para estar.
e se eu pudesse voltar... se eu pudesse voltar lá
eu faria a única coisa que me arrependi de não ter feito a última vez em que estivemos lá.
antes de descer ao subsolo pedir um drinque e me sentar eu tocaria naquele piano que você pediu e que eu deixei pra lá.
eu quis te dizer isso porque a porta que se fecha é nossa e eu só queria acenar antes da última lâmpada que iluminava nossa noite se apagar.

não queria nem colocar um título

o corpo em movimento

a mente em retrocesso

a falta de sincronia

eu sou meu próprio desencontro

domingo, 23 de novembro de 2014

garrafa vazia

Olho para as garrafas vazias na estante. Tantos tons de verde. Nelas refletem a luz do abajur e algumas fotografias. Eu sempre quis que isso aqui estivesse sempre bonito. Assim como a garrafa tem seu charme mesmo sem vinho, é aqui sem você. Apesar de uma ou outra foto, de uma ou outra tela que você pintou e deixou aqui... E eu estava aqui escrevendo e fiz uma pausa e olhei para todos esses objetos. E daí que escrever foi a maneira espontânea que o meu corpo encontrou para conversar com você. Eu penso em escrever qualquer coisa, crônica, ficção, descrição duma coisa, dessas garrafas que secamos, por exemplo. E aí que começo a conversar com você como se você. Estivesse em alguma parte de mim.
É que eu enlouqueci e me sinto bem.
Será que você vai viajar nesse feriado?
Eu vou ficar por aqui na cidade.
Quem sabe eu escreva uma carta e te envie por uma garrafa dessas. Quem sabe por quais mares você navega. Talvez eu compre um barco e esqueça toda essa besteira de decoração.

Assinado eu, que faço de bússola o coração.

caderno novo

Ela comprou um caderno novo. Revistas novas para ler e uma camiseta amarela. Toda madrugada deitava em sua cama, com toda a inspiração dos pedaços de dias que havia absorvido, mais os livros e os discos que faziam sua trilha. Então abria o caderno, mas decaía. Voltava sempre para a poesia. Tudo rimava com o nome da menina. E ela não podia, não no caderno novo... mas cedia. E ninguém sabia que depois de algumas dezenas de dias ela ainda sofria. De madrugada ninguém via. Sequer ouvia o barulho da caneta rabiscando ou das lágrimas que caía e ecoava pelos cantos.

Eu vou esvaziar
até esquecer
essa mania de lembrar.

Dizia.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

preciso urgentemente desenhar o mapa que me leve até mim antes que eu me perca de uma vez por todas

Sabe, é como se eu estivesse vindo pra cá, como faço toda semana; logo, sei de cor o caminho... então é como se no meio do trajeto eu me esquecesse e me visse perdida.
Só que quando você está perdido numa rua, você pode perguntar pra alguém o caminho... a questão é... e quando você acorda às três da madrugada perdida dentro de você... pra quem você pergunta a direção?
Pausa.
Eu...
Isso mesmo. É pra você.

pedaços

O corpo em pedaços,
falta de sincronia.
Uma perna ali atrás, outra lá na frente que é o futuro;
futuro que minha mente não prevê, então não pode alcançar.
Qual é a cola que gruda tudo isso e faz de mim um só?

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

sábado, 8 de novembro de 2014

ah,

Ah,
Madrugada de domingo, o resto de um sábado de lamento, de chá de boldo e João Gilberto. O lamento que todo mundo tenta guardar pra segunda-feira, veio a calhar...
Mas o chá me acalmou e João me fez pensar. Já era hora de desabotoar a camisa, largar o corpo num canto e respirar. Já era hora de abandonar a multidão, a festa, o bar, o sorriso amarelo que já não sei o que mais queria sustentar.
Eu vou deixar...
A janela aberta, a música repetir, o olho lacrimejar, o espelho refletir.

Foi você quem me ensinou que um homem como eu
Que tem por que chorar

Só sabe o que é sofrer se o pranto se acabar.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

é preciso

tempo.
tempo.
tempo.
pra engolir.
pra digerir.
pra descansar.
pra ganhar forças.
pra,
finalmente,


remar.

cinema, insônia e solidão

Preferiu andar pela rua paralela à avenida principal. Assim podia fumar o seu cigarro em paz e pensar sobre o filme que tinha acabado de assistir. Cinema às segundas-feiras... Foi sozinho. Assim podia escolher o cinema, o filme, o lugar. Caminhou e pensou naqueles olhos insoniosos do ator. Os meus também são assim. Pensou. E pensou em tanta coisa. Concluiu então que era por isso que não dormia.

domingo, 26 de outubro de 2014

porque parece que é isso que se faz quando se tem o coração partido

Nos despedimos de estranhos com abraços e promessas de reencontro e entramos no seu carro. Abraços em corpos amortecidos que não conseguem mais segurar um copo na mão ou conter os músculos do rosto pra evitar um sorriso. Era uma noite quente de sábado e de festa... e entramos no seu carro e você acendeu um cigarro, ligou o som e disse escuta essa música aqui e me diz o que acha.
Eu disse que aquela música era simplesmente o que qualquer pessoa quer ouvir de alguém nessa vida.
Um afago. Tranquilidade e amor.
Aquela música era o máximo porque me pareceu ser a única do universo que conseguia falar de tranquilidade e amor simultaneamente sem parecer uma mentira, mesmo que uma mentira ingênua, como o abraço que demos nos nossos amigos de uma noite só.
Você deu a partida e eu peguei um cigarro também, porque parece que é isso que se faz quando se tem o coração partido. E falei da sorte que você tem em ganhar essa música desse seu amor que parece ser o amor da sua vida.
E no caminho te falei da dor que é perder o amor que se acha que é aquele que um dia vai gravar uma fita pra você com uma música dessas.
E no caminho eu chorei porque toda vez que eu digo o nome dela um dos pontos que eu mesma costurei estoura e o sangue...
Acho que amei só mais um estranho.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

lua aqui dentro

Sei que já se passaram algumas noites, mas eu ainda não estou
Ainda arde.
Mas já que você viu essa foto.
É que tudo coincide de uma maneira, assim... . Acho que isso... Esse é o último fotograma daquele rolo de filme que eu usei naquela noite que foi a última em que estive com ela.
O filme queimou quase inteiro, inclusive os retratos que tirei, tava tão linda...
Essa saiu. Essa luz do bar que mais parece uma lua cheia e que estava sobre nossas cabeças.
Lua aqui dentro. Dei um nome pra ela.
A gente nunca sabe quando é a última vez... Nem sei se deveríamos, acho que ficaríamos tão preocupados em aproveitar cada instante que.
Sei lá.
Você já leu O Cordeiro da Casa?
Era uma noite quente de sábado e eu estava sem dormir direito desde quinta-feira.
Passei o dia pensando
na noite
porque à noite
a gente ia se ver.
E quando a vi ela me acalmou e soprou no meu rosto palavras de alívio e finalmente consegui descansar. Voltei pra casa e dormi e sonhei com a leveza daquele sorriso.
Aquilo me parecia tão leve que eu deixei voar.
Será
que se eu tivesse ido embora com ela naquela noite ficaríamos juntas pra sempre?
Acho que seria lua cheia todo dia
Mesmo que só
lua aqui dentro.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

tornar


Pode deixar que eu tô...

que eu tô indo embora.


Esse é o meu último dia aqui

Nessa sombrinha eu termino meu cigarro,

porque depois eu vou andar e não sei não faço ideia

a hora que vou chegar no fim do caminho.


Vou levar uma dessas flores comigo

Porque esse adeus é contemplação

Meu coração sabe que não

Tem motivo pra.


A sorte que eu tirei

Me trouxe você, até.

A sorte é vento que vai e vem.

Eu posso até guardar comigo o momento que cruzamos nossos dedos e formamos um laço.

Mas um laço não pode amarrar.

Então te solto.

Vou arejar.

Abrir o caminho

Pra que a calmaria não tarde a chegar.

Pode deixar que eu tô...

levando comigo isso que

apesar de não caber em mim...

Eu tô

levando numa sacola.

Talvez eu deixe cair no caminho ou perca a força pra carregar.

Talvez todas essas lágrimas tornem tinta e pintem o asfalto da estrada.

Talvez evaporem. Ou virem água do mar.

Quem sabe eu nem olhe pra trás.

domingo, 28 de setembro de 2014

o cérebro não afunda

Estava cansado. Voltou para o hotel à noite e ficou imerso na banheira daquela suíte antiga e um tanto decadente. Detalhes que pouco incomodavam. Ele até gostava daquela composição quando olhava para o seu rosto e via aquela barba por fazer em uma pele que envelhecera precocemente. Em sete dias. Os olhos vermelhos, um solo de Chet na memória; tudo isso emoldurado pelas bordas douradas levemente descascadas do espelho.
Estava cansado. Voltou para o hotel à noite e ficou imerso na banheira.
Fora da água morna só ficara seu braço direito e sua mão quase adormecida que segurava um cigarro entre os dedos.
Pensava.
Estava cansado.
E não descansava.
Aquilo tudo que acontecera antes da cidade nova...
Aquilo tudo que não parecia ser verdade.
Aquilo tudo que estava mais para uma longa cena de um filme antigo e um tanto decadente.
Afundava a cabeça prendendo a respiração como uma maneira de tentar afogar tudo aquilo.
O cérebro não afunda.
No quarto ligou a televisão sem sequer olhar para a tela; acendeu o abajur e começou a se vestir. Cueca, camiseta; deixou a toalha molhada na cama e abandonou o ritual pós-banho para abrir a janela e deixar entrar o ar gelado daquela noite que era sábado, mas que ele não reparara; que a última noite em que esteve vivo, ou um pouco mais que agora, também era sábado. Os centros de todas as cidades são iguais, então. Pendurou mais um cigarro na boca e ficou ali no batente de sua janela observando as janelas alheias, em especial uma que apresentava em seu interior uma estante repleta de livros iluminada por uma luz baixa amarelada.
O concreto do prédio da frente projetava o filme que ele não conseguia esquecer.
Com a cabeça apoiada num canto falou sozinho.
Sempre terei mais livros que conversas para compartilhá-los.
Sempre terei uma cama maior que o meu corpo.
Sempre vou fumar o cigarro até o fim sem alguém para me pedir um trago.
Sempre vou assistir a filmes que ninguém mais pode ver.
Ele perguntou com a voz ensopada de água salgada.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

esvaziar


Olha, eu acho que
se a gente abraçasse de uma vez essa melancolia de domingo
Bem, é sempre melhor do que ignorar
Sabe, eu digo isso porque
no final do dia todos estão escondidos com medo dentro de casa
e você pode passear pelo subúrbio de pijamas
sem se importar
você pode andar
e antes de tomar um banho limpar a sua mente
à noitinha, não se tem mais nada pra se ver
eu, por exemplo, saí sem óculos
é tudo escuridão, então
você pode fechar os olhos
e antes da chuva cair
você pode chorar.
Espremer a última lágrima do corpo que já está amortecido.
Não vai doer,
esvaziar.
Digo também que você pode gritar.
Se for canção, 
sem medo, desafinar.
Ahhh o domingo
é sempre uma tempestade no coração.

domingo, 7 de setembro de 2014

vão

Saiu assim só pra mudar de posição.
Saiu para levar o corpo e todo o seu peso para outra direção. Nada mais que isso.
Ele não tinha não naquele dia nenhuma pretensão.
Hoje a vida acaba aqui.
Sem essa de conclusão.
A vida toda sempre se mostrou bruta, abrupta.
Não dá pra ficar assim,
pra sempre na ilusão.
Ilusão é filme.
Ilusão é um beijo.
Uma canção.
E hoje não.
Saiu assim na praça pra esquecer o corpo vivo em vão.
Hoje é aquele dia que não vai acabar.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014


A noite é fria e a luz é quente.
Estamos altas e a luz é baixa.
Nós só estamos começando... algo. 
E a luz ameaça apagar. Flamejante ela oscila nos convidando a partir,
já.
Nós só estamos começando... a enxergar no escuro.
Eles arrastam as cadeiras do bar. Eles as empilham. 
Eles retiram as garrafas das mesas. Os copos e os restos de noite.
Continuamos no escuro porque o jazz ainda não acabou.
Nós só estamos começando... algo.
Nossas mãos se procuram.
Nossos dedos formam laços.
Um solo preguiçoso de trompete anuncia o fim.
Então te beijo na rua.
Um beijo de quem não quer partir.
Um beijo de quem não tem lugar
No coração da cidade que ameaça desligar.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

quantos dentes cabem numa boca

Um novo mês despertou às sete e meia da manhã.
Descalça pisei no chão - primeiro com o pé direito.
Calcei meias novas. Meio lilás, sei lá a cor.
Parece medo de errar, até.
E o dia passa e no final do dia
a meia lua aparece e você escuta a música errada e todas aquelas promessas desses novos trinta dias vão embora pelo ralo, no sono leve da madrugada.
E já não sei com que pé acordo no dia dois e já desisto de acertar.
Passo na papelaria pra comprar um envelope porque penso em transcrever aquela carta imaginária que fiz pra você numa noite de insônia mas que a lua era cheia.
Três envelopes, peço eu, de novo com medo de errar.
Escrever seu nome com a letra feia ou.
E peço duas canetas.
Pra passar o cartão ainda falta mais um real.
Três canetas, então. Três envelopes.
Um amor, só.
E com essa bic azul nova termino meu caderno nesse começo de mês que virou o fim de alguma coisa.
Eu pensei que ia te ver
e que quando isso acontecesse eu fosse sorrir.
Mas eu tenho a certeza de que até o final do dia
todos os meus dentes vão cair.
Vou colocá-los num envelope.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

pra acalmar

ondas pés no chão espuma bossa nova jardim grama samambaias antúrios petúnias todas as flores e folhas e pássaros assobios ventinho no rosto olhos fechados uma estrada um horizonte infinito suas mãos sobre as minhas um cobertor xícara de porcelana antiga erva cidreira jasmim menta camomila erva doce mel limão violão sua pele na minha pele o piano algodão céu estrelado as pintas das suas costas que constelação o som do mar o som da cachoeira o som da água que nasce as pedras molhadas um pouco de vinho giz pra pintar renoir uma paisagem um barco pra fotografar navegar a cor branca o céu azul o abajour aquela memória que eu tenho dela de pijamas numa manhã preguiçosa da infância cantando hey jude pra mim um copo de leite quente um vaso sobre a mesa uma polaroide do tarkovski a sua letra debussy uvas e maçãs alguns fotogramas de algum diário do jonas mekas o seu beijo bicicleta uma camiseta velha subúrbio amarelinha um solo de trompete um suspiro por fim um alívio.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

vejo o rio de janeiro


essa música.... eu vejo o rio de janeiro.
é bossa é piano é uísque e é uma calmaria.
eu fiz pra me acalmar, mesmo.
esse tom... não tem variação?
não, é só isso, são duas notas. é uma onda.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

se esses dias não são poesia

Se esses dias não são poesia
Se a poesia não está nos dias
Então não sou poesia
Então eu vejo um filme
ou leio um livro.
Poesia pronta
pra quem não consegue
ver nos dias
um verso bonito qualquer
composto de rotina
ou de qualquer coisa comum
como uma xícara de chá
ou a fumaça que sai desta.
Se esses dias não são poesia,
qual seria?

se não era hora

Ela carregava aquele livro de capa dura da Gertrude Stein pra lá e pra cá. Não era tão grosso assim para a leitura ter durado semanas. Mas ela queria mastigar cada palavra. Sílaba por sílaba. E digerir. E pensar sobre as histórias daquelas mulheres. Daquelas três vidas que também era a sua. Mas não queria que fosse... pois ela se sentia tão só e pela primeira vez em sua vida estava pronta para admitir. Mas ela lia sobre aquelas mulheres sós e independentes e via o quão duro era - ter razão. E ela pensava nisso. Pensava se não era hora de abandonar a razão.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

lenço de papel

Por fim me levantei da cama
e troquei o disco que insistia em girar.
Tirei o pó dos livros e da máquina de escrever.
Tirei o pó do corpo com um banho e das ideias com uma caminhada até a estação.
Pensei se valia a pena me deteriorar ou começar a semana indo a uma bela exposição.
A arte foi a salvação.
Vi centenas de obras do Leonilson e aquilo me causou comoção. Pensei em tanta coisa.
Mas com a ajuda dele mudei de posição.
Antes mesmo de escurecer encerrou o expediente da mostra e eu, à beira, voltei para a estação.
Antes de entrar, acendi um cigarro, como que uma pausa, uma digestão de toda aquela informação que eu tinha devorado. Como que para dividir um ato do outro.
Um intervalo.
E eu gosto tanto da estação da Luz. O seu entorno. O parque. Os resquícios de história.
De tantas histórias que nem chegam a tempo no momento do lugar.
E já com pouca luz eu não pude apreciar aquele pós pôr do sol porque às vezes a cidade não é sua e a rua não é pública.
Alguns pastores estavam gritando em frente ao parque. Com microfone. Caixa de som. E eu não pude ouvir meus pensamentos e me senti expulsa.
Sem paz sem pai no dia dos pais.
Sem luz na estação que poderia.
Um domingo.... ah, bem que eu tentei.
Mas tive que me retirar porque essa cidade é a cidade de quem tem fé ou insiste a procurar
Algo para acreditar.
Aqui a melancolia não tem vez.
Mesmo no domingo.
Mesmo que.
Então eu fui.
Entrei no vagão e vi, de relance, uma menina bonita de cabelos castanhos, bem curtos, e olhos verdes e brincos verdes e botas marrom, encostada à porta do outro lado.
Umas duas estações depois ela se acomodou, em pé, ao meu lado. Olhei para o seu rosto e vi que por ele percorria uma lágrima.
Eu fiquei atordoada.
Em ver no rosto alheio aquilo que guardei.
E por mais que aquela cena tivesse doído como uma pontada nos olhos eu não chorei.
Só quis tirar aquela menina de lá, onde a euforia das pessoas ofuscava aquela gota cintilante de água salgada.
Eu tinha que fazer alguma coisa imediatamente.
O que você faz quando vê alguém chorar?
Uma vez escrevi algo que dizia "com o desprendimento de uma pessoa que chora no transporte público".
Bem, o que se faz diante desse momento de abstração?
Resolvi por um instante oferecer um lenço de papel.
Achei, porém, que ela pudesse ficar constrangida.
Eu nunca quis tanto enxugar a lágrima de alguém... de uma estranha.
Então combinei comigo mesma que se ela descesse na mesma estação que a minha, eu o entregaria.
Mas eu desci. E ela não.
E eu fiquei tão triste.
E lá fora brilhava a lua no céu.
Ela olhou a minha escuridão e disse vem
respondi nem.
Porque nessa noite o brilho que me cegou estava na lágrima de quem chorou.

despedida

não vai agora, não. divide esse cigarro comigo.

voltou a fumar?

é que às vezes eu perco o chão...

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

coração alheio

Décadas depois
Depois do almoço
No meio de um cigarro
A resposta veio
Hoje eu descobri o que quero ser quando crescer

Carteira

Já que eu gosto tanto
Tanto de andar por aí

Já que eu gosto tanto de escrever
Escrever cartas

Cartas para

Eu ainda vou aparecer assim, numa tarde, sem pretensão
Com uma sacola cheia de letras em minhas mãos

Destinadas ao coração alheio

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

falta tão pouco

É...
Hoje não vai dar pra. E se eu fosse eu...
Sabe, se eu me pegasse pelo braço e apertasse como que para dar um conselho a quem está à beira de.
Eu diria pra não escutar, não hoje Noel Rosa.

Já que não cabe,
vai andar.

Eu vou andar andar andar andar andar até doer e não doer mais porque o corpo já.
Eu vou andar andar andar andar em busca de um pouco de vento.
O vento leva
mas não me leva
porque não me encontrou
Eu vou andar andar porque o vento.
Eu vou andar atrás desse movimento vou andar até esquecer o que procuro.
E essa imagem decadente que eu me vejo compor
com um cigarro pendurado na boca
com uma lágrima pendurada no olho
que o vento movimento vai apagar
que o vento movimento vai secar

Ah, isso é poetizar...
Porque tudo aqui está tão seco.
E meus passos tortos caminham pros lugares que eu deveria evitar.

Alguém poderia me empurrar.

Se uma mão pousar sobre o meu ombro eu sei vou desabar.

Porque falta tão pouco.

Porque falta tão pouco pra eu chegar

ao chão.

Já que ando com o esforço de quem tenta voar.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

renoir pintou meu dia

Sou uma péssima administradora. Eu não sei usar meu tempo de maneira adequada pelas manhãs. Eu posso acordar três horas mais cedo para tentar fazer algo que não seja um belo ensaio de me levantar da cama e mesmo assim. Estou sempre atrasada. Tão atrasada que agora só tomo meu café no trabalho. E eu adoro fazer café de coador... Mas hoje, mesmo atrasada eu fiz. Uma xícara enorme. Não deu tempo de tomar tudo mas. Chegando no centro da cidade desviei meus pés e não entrei na Avenida São Luís. Segui em frente pela Avenida Ipiranga. Tem mais sol e as curvas iluminadas do Copan mudam o ritmo dos meus passos. Atravessei a Consolação e, caminhando pela Roosevelt vi uma caçamba cheia de entulhos. Algo pulava pra fora daquele conjunto de pedregulhos. Algo apontava. Era Renoir. Era uma tela. Uma réplica de alguma obra de Renoir. Eu não parei pra olhar de perto. Aquelas cores destoantes do cinza do cimento e o movimento do meu corpo que atravessou como num leve passo bailarino aquele cenário só me fizeram acreditar na beleza. Não sobrou tempo pra duvidar ou pensar qual obra seria. Renoir estava lá e esse foi o presente do meu dia.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

nuvem

aqui nessa nuvem
que eu criei
me fechei
só pra pensar em você
eu apaguei
todas as tentativas
de escrever
o que é pensar em você
queria corda
harpa, violão
porque o que tem aqui
dentro de mim
é coração
e ele bate
num ritmo
num compasso
que só pode ser canção

terça-feira, 15 de julho de 2014

a música

a música
pras coisas urgentes existe a música
as palavras por mais que fiquem na guela, na ponta da língua, na ponta da caneta, as palavras precisam esperar
pois o presente precisa virar passado no futuro
então faço um som assim com a boca como quem quer cantar como quem quer chorar como quem quer contar um segredo como quem quer gritar
é hora do ruído
é hora do som
é hora de bater com toda força na tecla do piano o que se quer falar

quarta-feira, 18 de junho de 2014

abismo

Você bate na tecla do piano uma duas três quatro cinco seis sete oito nove dez onze doze treze quatorze quinze dezesseis dezessete dezoito dezenove vezes e mais dezenove e aí eu paro de contar porque a repetição de uma nota só já não é mais racional e eu permito que a força do dedo que toca me empurre pra esse abismo que é a música.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

quadro desse dia

Como um pintor pré-fotografia o lado de fora que me guia.
Posso ter tempo dentro de um espaço.
Mas aí só escrevo agonia.
O céu azul de outono, as conversas que vazam dos botecos que servem almoço no balcão, a praça e o cachorro, que nesse momento brinca com uma bolinha na minha frente, são mais alegria.
Depois da escola tanta gente vem aqui pra Roosevelt. Toma um sol. Anda de skate. Senta num banco pra conversar.
E nada disso faz barulho.
E sobra espaço para pensar.
Pensar sobre o que eu posso escrever para preencher o vazio que o silêncio oferece.
Se bem que quando ele aparece.
Eu peço pra ele ficar.
Assim porque é tão raro.
Então será que eu não devo escrever?
Se bem que, quem disse que escrever é preencher?
O que penso nesse instante é que escrever é reconhecer.
Reconhecer a pausa que o tempo me oferece para estar e somente ser.
Quem reconhece observou
algo por algum tempo e pensou.
E agora antes de me levantar desse banco eu volto a olhar. Tudo ao meu redor.
Mesmo que de maneira vaga. Mas que me faça. Ao menos lembrar dos tons das cores principais.
Para que quando eu voltar para o espaço sem céu eu possa recordar. Do quadro desse dia.

terça-feira, 6 de maio de 2014

antes do sol se pôr ele atravessou seu corpo e é disso que me lembro

Não lembro nada do que aconteceu naquele domingo em que fiquei com você até o final da tarde naquela casa na montanha que você alugou para se esconder do resto do mundo. Resto porque você é... É mais que um pouco. Naquela casa na montanha que você alugou para se esconder e não aguentou ficar tanto tempo só e me chamou prum final de semana.

Não. Acho que eu lembro, sim. Tínhamos combinado que eu iria embora pela manhã.

No domingo.

Depois daquele pedaço de sexta-feira umedecida em vinho e daquele sábado inteiro que parecia não acabar nunca. Pelo seu silêncio. Pelo meu silêncio em resposta ao seu. Pelo eco que aquela casa de madeira fazia.

Nunca conheci uma casa de madeira com tal eco.

Nem os estalos que a lenha fazia na lareira quebravam o silêncio.

Eu tive tanto receio de desfazer aquele nó que não coloquei disco algum.

No final da noite você tocou piano.

Mas o silêncio me ensurdeceu e eu não lembro o que você tocou.

Não escutei.

Enfim chegou domingo.

E o meu despertador tocou.

E eu escutei.

Você disse fica e não mais que isso.

E então fiquei.

E fiquei com medo pensando como desceria aquela montanha de carro no escuro.

Porque do domingo não passaria.

E não passou.

E nada aconteceu.

Ficamos sentados naquelas poltronas confortáveis até demais tomando café, tomando vinho e tomando café e.

E eu não conseguia me concentrar em ler um livro ou fazer outra coisa.

E passamos manhã e tarde olhando para o teto, para o chão, para as árvores que balançavam lá fora, e, vez ou outra nossos olhos se encontravam.

Você foi fumar um cigarro na varanda.

Te acompanhei.

Vou embora antes de anoitecer.

Você não respondeu e entrou.

Na sala você se apoiou no batente da janela que estava aberta inundando a casa com a luz solar. Antes do sol se pôr ele atravessou seu corpo e é disso que me lembro.

Antes do sol se pôr eu criei essa fotografia.

Você era luz e sombra e o resto do mundo.

Acho que você entendeu tudo naquele momento.

Você ficou ali até escurecer.

E eu cheguei vivo em casa.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

eu vou ao cinema

Eu vou ao cinema.
O que me resta hoje é sair para ver um filme.
Vou olhar pra tela pra não olhar pra vocês. Pro mundo sem história sem roteiro sem cor sem trilha sem direção.
Eu vou ao cinema.
Vou comprar meu ingresso na bilheteria e vou chegar cedo e escolher o melhor lugar.
Eu vou entrar na sala de cinema e nunca mais voltar.
Porque se minha vida ainda não é um filme hoje ela vai se tornar.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

sala de espera

Pergunto onde é a recepção. Retiro minha senha e espero o número do guichê piscar. Na minha bolsa tenho livro tenho caderno tenho celular. Não consigo me concentrar em nada a não ser em esperar.

No balcão dou meu documento e o bilhete com o número da senha. Ganho uma folha advertindo todos os efeitos colaterais que o exame pode causar e é claro que penso então estar fazendo a coisa errada, e uma pulseira de papel com meu nome. E aguardo para ser atendida pelo médico em outra repartição. Na sala de espera tem revista de fofoca. Eu temo saber como anda minha vida, imagina a de... . Na sala há televisão. Abomino os programas matinais e me sento atrás da tela. Continuo escutando, porém, me recuso a assistir. Na sala também tem um aquário gigante com peixes coloridos de variadas espécies que não despertam meu interesse em saber quais são.

A sala de espera. Que hora tão.

Pauso minha vida, pois a distração, esse falso consolo, só me faz.

Prendo a respiração porque não existe outra maneira de minha hora chegar. Na sala de espera o que eu faço é esperar.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

amores de metrô - volume quatro

Entrei no vagão no início da noite daquela quinta-feira em que eu me encontrava cansada com um jeans velho, uma camiseta cinza e um livro na mão, Três Vidas, de Gertrude Stein. Porque no início da noite daquela quinta-feira eu me interessava por qualquer vida que não a minha em que eu me encontrava cansada com um jeans velho, uma camiseta cinza e.

Enquanto eu lia vi que alguém me via. Eu estava em pé, de frente para ela. Que estava sentada e olhava para cima e segurava uma caixinha de água de coco. Ela olhou curiosa o título do meu livro e acho que gostou porque continuou a olhar. E numa hora dessas eu nunca sei o que fazer senão continuar a ler.

Enquanto eu lia alguém me via.

O assento ao seu lado foi desocupado e não me restava alternativa senão me sentar e por ali ficar.

Ao seu lado por uma estação.

E numa hora dessas eu nunca sei o que fazer senão.

E então ela se levantou e saiu do vagão.

amores de metrô - volume três

Tenho lido todos os títulos de seus livros nesses últimos dois anos em que pegamos o mesmo metrô quase todos os dias. Devo dizer que nunca cansei do seu bom gosto e o meu bom senso nunca permitiu que eu interrompesse a sua leitura para dizer oi.

E hoje de manhã vi uma aliança dourada no seu dedo anelar esquerdo que com a ajuda dos demais seguravam mais um de seus belos livros.

quinta-feira, 20 de março de 2014

berro

tudo o que se pode ser e não se é porque
tudo o que se pode escrever, por em palavras, cada textura, cada emoção, cena fotografia mas não se pode porque
o que é que falta
quando se falta inspiração
quando se falta palpitação

no coração

é tudo tão estático
mas os dedos insistem, querem se mexer
e precisam escrever uma coisa qualquer
assim, pra sobreviver
pra não deixar morrer
aquele gosto de liberdade que é
então o que é que eu posso fazer?
tento alongar o pensamento
todo dia quando abro o portão e saio na rua e respiro o ar matinal
eu tento tragar
o som dos poucos pássaros
a beleza dos poucos jardins
o movimento sutil das poucas árvores
que continuam ali na minha rua
e que de certa forma estão ali para mim
eu engulo esse presente
mas não digiro até o fim
e quando chega a tarde
uma coisa quer sair
uma pintura colorida
sem forma, gratuita
uma enxurrada de tons quentes e pasteis
um berro de trompete
que só precisa chamar a atenção
nenhuma música quer dizer
nenhuma música é em vão
toda música é um berro
toda arte é um berro

segunda-feira, 10 de março de 2014

namorada mais velha

Sabe o piano de “In a Sentimental Mood”, de Duke Ellington e John Coltrane... Ela me perguntou com reticências sem interrogação... Depois desviou seus olhos dos meus e mergulhou no vazio.

- - -

Enquanto eu a esperava emergir novamente enchi sua taça com o vinho que estava na mesa. Enchi a minha também e como eu estava usando apenas uma camiseta velha com a foto da Monica Vitti estampada, comecei a sentir frio.

Cruzei os braços tentando não soar rude ou impaciente à sua reflexão; Esfreguei as mãos sobre eles, mas não adiantou muito. O disco parou de tocar e eu pensei em troca-lo por outro, mas assim como meus movimentos, temi soar insensível aos seus ouvidos. Então levantei lentamente e apenas coloquei a agulha sobre o disco no lado b novamente.  Sem dizer nada fui até o meu quarto e peguei uma blusa de moletom que estava em cima da cama e vesti.

Ela estava lá, elegantemente melancólica com seu casaco de feltro cinza escuro; mas o que é que eu poderia fazer...

Peguei pedaços de pão, queijo e azeitonas. Me sentei e belisquei a comida enquanto esperava-a voltar. Por fim perguntei se ela não estava com fome, porque tenho quase certeza de que ela não notou que eu tinha colocado comida ali na mesa e vestido o moletom. Sua taça, porém, estava vazia.

Ela respondeu que ia embora. Minutos atrás havia dito que passaria a noite em casa. Eu não implorei pedindo que ficasse; apenas estendi meus braços sobre a mesa com migalhas e segurei uma de suas mãos. A outra segurava um cigarro.

Pedi um trago como uma maneira de.

Ela deu uma risada sem abrir a boca; apagou o cigarro no cinzeiro e descabelou minha franja com a ponta dos dedos.

Eu esperei a semana inteira para dizer que tinha terminado o livro do Faulkner que pegara emprestado. Tentar discuti-lo seria tão idiota.

Desconfortável me levantei para ir até o banheiro lavar o rosto. Na frente do espelho pensei no que deveria fazer.

Quando voltei, ela não estava mais na mesa. Seu casaco estava estirado no sofá e o resto de suas roupas no chão do quarto.

Ela dormia.

beijo de olá

Te vi e até trocamos um beijo de olá.
Mas não quis escrever sobre você quando cheguei em casa.
Antes de dormir eu apenas deixei a TV ligada num filme dublado.
Nem pensei em pensar e não sonhei.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

não chovia

Não chovia mais.
O que caíam do céu eram apenas algumas gotas.
Gotas atrasadas que aterrissavam solitárias.
Então saímos.
Você pedia para eu contar mais sobre o que eu sabia sobre aquela escritora.
Enquanto eu falava uma daquelas poucas gotas que surgiam do céu caiu na minha boca e antes de inconscientemente engoli-la
você me beijou e minha boca choveu
e a água levou embora todas as palavras que estavam na ponta da minha língua.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

escrever

Pra escrever você precisa praticar esse exercício que é escrever é o que alguns dizem.

É tão difícil começar essa lição sem ter nada pra contar.

Mas eu tenho que treinar.

Não é que é difícil começar.

Difícil é ter o que falar.

Quando não tenho nada a dizer.

E preciso escrever.

Pra preencher a folha o tempo pra distrair os dedos pra parar de procurar notícias pra me concentrar pra melhorar essa minha escrita e encontrar assim.

Se eu tivesse algo pra contar como por exemplo fui até a padaria e comprei dois pãezinhos ou minha nossa eu li um livro tão inspirador ou se ao menos eu visse uma fotografia que me despertasse o desejo de.

Mas parece que tudo o que fiz até hoje na minha vida foi ficar em frente a essa tela branca que dá dor de cabeça e outros sintomas desagradáveis tentando preencher com qualquer cor qualquer frase ou uma letra uma inicial.

Se eu tivesse um amor eu colocaria sua inicial e depois colaria outras letras seguintes e assim teria uma direção por exemplo A.qui começa a história de.

Tudo que tenho na minha memória é essa tela branca que eu não quero descrever.

Mas eu devia porque para escrever é preciso um pouco de.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

cinco horas para ir embora

Fiz uma meleca. deixei cair toda a pasta de dente que estava na escova na minha camiseta verde escura. A pasta era branca. joguei água e mexi e a pasta se espalhou, enchendo minha camiseta de borrões verde claro. Estava no trabalho e isso aconteceu quando fui escovar os dentes depois do almoço. Saí do banheiro com a camiseta toda molhada. E ainda faltavam umas cinco horas para ir embora.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

martin

Aceito o café. Se ficarmos em silêncio.
Sua cabeça doía, latejava e a luz vinda daquele lustre baixo tornara-se insuportável.
Após terminar o café e tomar o metrô e chegar em casa estarei morto ou desmaiado em algum lugar indevido.
Então virou a xícara num só gole e despediu-se de maneira áspera. Desceu até o térreo, girando o corpo, seguindo o contorno das escadas de incêndio.
Caminhando pela rua, Martin retirou o maço de jornal que carregava no bolso interior de seu casaco e o jogou na primeira lixeira que encontrou. Não iria ler nada no caminho para casa. Entrou na estação e ao embarcar quase vomitou ao sentir o cheiro dos perfumes alheios. Ele parecia ser o único que estava voltando. Todos estavam indo. Animados com a noite de sexta-feira. Indo para algum lugar qualquer.

Fechou os olhos.

Minutos depois acordou com o peso das mãos do funcionário do metrô em seus ombros. Ele abriu os olhos e sua dor de cabeça só piorou com o baque das luzes fluorescentes.
Esse é o último trem.
Aquela, a última estação, por sorte era a que ele devia desembarcar. A pé, teria de caminhar por pouco mais de dez minutos até sua casa. Resolveu pegar um táxi e chegar em dois.
Abriu a porta de seu apartamento e quando ascendeu a luz do quarto, Pola, sua cachorra, dormia sobre a cama.
Depois de muito conseguiu tirar a roupa e entrar no chuveiro. Quando terminou o banho fez algo incomum: secou os cabelos com o secador. Já que iria se atirar na cama, não o quis fazer de cabelos molhados. Não com aquela dor. Secou até a barba, negra, comprida. Vestiu apenas uma cueca de algodão e tomou alguns analgésicos seguidos de um copo d água. Deixou Pola onde estava e adormeceu.
Dormiu bem, até, se tratando de um corpo carregado pela ansiedade dos dias. Sonhou com Laura, com a noite anterior. Com o café forte que ela preparara e que por pouco quase rejeitou. Sonhou que tomou o metrô com destino ao exterior. Cada estação era um país diferente. Viajou por todo continente e não desembarcou num lugar sequer.

Acordou.

Sentia-se melhor.
Melhor que a noite anterior.
Quando abriu os olhos, o sol da tarde de sábado tentava invadir a janela do quarto.
Acordou Pola e antes mesmo de comer algo foram passear no parque próximo à sua casa.
Caminharam até o final do dia e ficaram exaustos. Na volta, Martin levou a cachorra em seus braços. Apenas quando chegou ao apartamento percebeu que passara o dia todo sem o celular. Laura havia ligado e mandado uma mensagem de texto: “Me ligue quando puder conversar”.
Martin não podia.
Martin nunca conseguira manter um relacionamento. Ou prolongar uma relação.
Ele gostava de ficar só.
Simplesmente.
Simplesmente se cansava das pessoas e as machucava.
Com seu silêncio.
Não estava pronto para conversar com Laura porque nada tinha a dizer.
A não ser que estava cansado.
Um homem só é só, somente.
E Laura era tão linda.
Mais linda que a soma de todas as mulheres que Martin teria nessa vida.
Era tão linda e dissera não para tantos homens e mulheres interessantes só para ficar só com Martin que queria ficar só.
Pola e Martin entreolharam-se por um momento. Ela desviou seus olhos negros, assim como os de Martin, só que mais vivos, e caminhou até sua tigela de água. Enquanto ela matava sua sede, Martin permaneceu inerte por mais algum tempo, com o celular na mão, quente e suada.
Foi até a cozinha,
Tirou a camiseta, jogou-a no chão, apoiou as costas mornas nos azulejos frios e lembrou que precisava preparar algo para jantar.
Abriu a porta da geladeira onde só se viam maçãs e latas de água tônica. Abriu uma lata. Despejou-a num copo e tomou. Respirou fundo, colocou ração para Pola e foi tomar um banho.
Descansou um bocado no sofá em frente à TV, sem assistir nada em especial.
A televisão nunca tem algo de especial.
Vestiu uma bermuda e uma camiseta velha – ao contrário do dia anterior o tempo estava agradavelmente quente.
Levou Pola junto com ele para jantar, comer qualquer coisa em algum lugar com mesas externas em que pudesse ficar na companhia de sua cachorra.
Comeu um kebab e tomou um chope. A poucos quarteirões de sua casa existia um bar cujo dono era um turco amigável. Gostava de lá. Pola também. Repetiu o chope. Sentiu-se bem.
Foi embora para casa, pegaram o caminho mais longo e foram andando, devagar. Quando chegaram se lembrou que precisava fazer compras no mercado.
Fica pra amanhã.
Martin e Pola acordavam tarde no domingo.
Por algum motivo nostálgico, Martin se obrigava a preparar spaghetti todos os domingos, assim como sua avó e sua mãe costumavam fazer. Mas não tinha nem massa nem tomates em casa.
Levantou da cama e foi direto para o mercado. Comprou café, um pouco de queijo parmesão, papel higiênico, guardanapo descartável - caso alguma visita imprevista aparecesse em sua casa; pasta de dente, sabonete, shampoo, ração e biscoitos para Pola, biscoito de leite maltado para ele, cerveja, tomate, massa de macarrão, batata, um melão e um pote de sorvete de creme. Pediu no caixa para que entregassem as compras em sua casa. Não tinha carro. Nem mil braços.
Passou na banca em frente ao mercado para comprar o jornal. Não assinava mais para receber as notícias em casa porque dessa maneira se acumulavam muitas edições - jamais lidas, devido à falta de tempo e às vezes, ao desinteresse por desgraças. E uma das coisas que mais gostava nessa vida eram as bancas de jornal. Quando era criança sonhava em ser jornaleiro; assim poderia passar o tempo sem falar muito e ler todas as revistas e jornais que quisesse. Martin gostava do ritual: dar e receber moedas de troco, e de deixar as moedas no bolso para quase todo o sempre. E Martin tinha tempo para ler de domingo.
Domingo é tempo livre e domingo tira a vontade de se fazer qualquer coisa – coisas que queremos fazer quando não temos tempo livre.
Mas nesse domingo.
Martin o faria diferente.
À medida que a água do spaghetti esquentasse, leria em voz alta as melhores notícias para Pola. Faria o melhor molho de tomates do mundo. E enquanto tomasse seu sorvete de creme de sobremesa, Pola comeria um biscoito. E eles não se chateariam por nada nesse mundo.
Nem por ser domingo.
Há três anos, Martin conhecera uma garota e saíra com ela por algum tempo. Ela amava o dia de domingo. Ele fez de tudo para entender e até mesmo para adotar suas ideias otimistas. Não deu certo. Martin às vezes se lembrava dela nesses dias e se perguntava se ela continuava dizendo isso para as pessoas.
Preparou um delicioso almoço e colocou um vinil do Sidney Bechet para escutar enquanto.
AHHHHHHHHHHHHH... Suspirou satisfeito.
Pola deitou no tapete da sala de estar de barriga pra cima e logo dormiu. Martin tentou fazer o mesmo, e sem sucesso, foi até a cozinha preparar um café.
Preparou um café forte, assim como Laura gostava. Ela era a única pessoa que ele conhecia que gostava de tomar café tão forte quanto ele - e sem açúcar.
Enquanto terminava de ler o jornal, o telefone tocou. Era um amigo. No próximo final de semana, ele e outros conhecidos de Martin iriam fazer uma pequena viagem à praia, era feriado e eles pretendiam estender a semana. Convidou o amigo e sugeriu que ele levasse Laura. Tinha espaço para Laura e Pola no carro. Martin ficou de ligar para o seu amigo para confirmar se iria ou não ao passeio.
Martin tentou se convencer de que deixar sua cidade por alguns dias seria saudável. Mas ainda não sabia se deveria convidar Laura.
Quando se mora num apartamento é difícil ter a oportunidade de deitar no chão à noite e olhar para o céu e se lembrar que tanto seu corpo como seus problemas não significam nada perante o infinito.
Quando o céu escureceu naquele domingo Martin fez o que pode: foi até sua pequena varanda e olhou o mundo ao seu redor. Inspirou, respirou e quando se cansou de procurar por uma mísera estrela, voltou para a sala.
Abriu uma cerveja e pegou um álbum de fotografias para admirar sob a luz do abajur e logo adormeceu.
Quando acordou no sofá já era tarde. Foi para o quarto e não conseguiu reembarcar no sono. Pensou na viagem e pensou em Laura e não conseguiu pensar em nada mais. Não sabia ao certo se deveriam retomar a conversa que não havia terminado ou se deveria começar uma página em branco. Ligou para ela. Depois de alguns toques ela atendeu. Martin pediu desculpas pelo horário, mesmo notando que, de acordo com o tom de sua voz, Laura parecia estar bastante acordada. Ela disse que havia dado um jantar para seus amigos em sua casa e que eles continuaram por lá, estendendo assim a conversa e o vinho.
Será que eu posso ir até sua casa amanhã? 
Laura disse que achava que sim.
Te ligo de novo amanhã, então.
E então veio a insônia.
Como Martin trabalhava em casa, deixava a falta de sono se acomodar livremente ao seu lado, em sua cama. Ele era escritor e estava trabalhando, nos últimos meses, num roteiro para um filme qualquer, com o prazo de entrega já um tanto apertado. Mas talvez, não fosse a contagem regressiva dos dias que o mantinha de olhos abertos. A ansiedade não precisa de um grande motivo para existir. Assim como a insônia: ela apenas se instala no corpo.
Pensou inúmeras vezes nas poucas palavras que trocara com Laura no telefone. Odiava telefone; telefonar, ter de falar – do outro lado da linha.
Enquanto afogava em pensamentos a campainha de seu apartamento tocou. E só podia ser Laura. Ela era a única pessoa que o porteiro do prédio deixava subir sem antes avisar Martin.
Ele lavou o rosto e foi atender a porta.
Laura disse que estava sem sono.
Eu também não consigo dormir. 
Então foram para a cama, em silêncio. Para a cama para ficar em silêncio. E Martin notou que os olhos verdes de Laura também eram mais vivos que os seus.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

sono

O sono de segunda-feira. Esse sono que eu não consigo curar com café. É que o sono não é uma enfermidade, como uma dor de cabeça, pra se curar. Sono é uma vontade. Vontade de encostar a cabeça no travesseiro e dormir e sonhar e babar. Vontade de fechar os olhos e os ouvidos, principalmente. Sono é a vontade de se fechar para o mundo e abrir a porta da bolha dum mundo que é só nosso e entrar lá e ficar lá até que essa vontade passe e dê vontade de se abrir novamente para a vida e aí sim, tomar um cafezinho.

domingo, 19 de janeiro de 2014

como numa música

Como numa música simples que ganha um solo de saxofone despretensiosamente elegante ela caminha pelas calçadas de Ipanema e faz uma curva na esquina e desaparece deixando pra trás um lance de seu perfume. Como numa música que terminha mas não termina até o eco desaparecer.