sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

martin

Aceito o café. Se ficarmos em silêncio.
Sua cabeça doía, latejava e a luz vinda daquele lustre baixo tornara-se insuportável.
Após terminar o café e tomar o metrô e chegar em casa estarei morto ou desmaiado em algum lugar indevido.
Então virou a xícara num só gole e despediu-se de maneira áspera. Desceu até o térreo, girando o corpo, seguindo o contorno das escadas de incêndio.
Caminhando pela rua, Martin retirou o maço de jornal que carregava no bolso interior de seu casaco e o jogou na primeira lixeira que encontrou. Não iria ler nada no caminho para casa. Entrou na estação e ao embarcar quase vomitou ao sentir o cheiro dos perfumes alheios. Ele parecia ser o único que estava voltando. Todos estavam indo. Animados com a noite de sexta-feira. Indo para algum lugar qualquer.

Fechou os olhos.

Minutos depois acordou com o peso das mãos do funcionário do metrô em seus ombros. Ele abriu os olhos e sua dor de cabeça só piorou com o baque das luzes fluorescentes.
Esse é o último trem.
Aquela, a última estação, por sorte era a que ele devia desembarcar. A pé, teria de caminhar por pouco mais de dez minutos até sua casa. Resolveu pegar um táxi e chegar em dois.
Abriu a porta de seu apartamento e quando ascendeu a luz do quarto, Pola, sua cachorra, dormia sobre a cama.
Depois de muito conseguiu tirar a roupa e entrar no chuveiro. Quando terminou o banho fez algo incomum: secou os cabelos com o secador. Já que iria se atirar na cama, não o quis fazer de cabelos molhados. Não com aquela dor. Secou até a barba, negra, comprida. Vestiu apenas uma cueca de algodão e tomou alguns analgésicos seguidos de um copo d água. Deixou Pola onde estava e adormeceu.
Dormiu bem, até, se tratando de um corpo carregado pela ansiedade dos dias. Sonhou com Laura, com a noite anterior. Com o café forte que ela preparara e que por pouco quase rejeitou. Sonhou que tomou o metrô com destino ao exterior. Cada estação era um país diferente. Viajou por todo continente e não desembarcou num lugar sequer.

Acordou.

Sentia-se melhor.
Melhor que a noite anterior.
Quando abriu os olhos, o sol da tarde de sábado tentava invadir a janela do quarto.
Acordou Pola e antes mesmo de comer algo foram passear no parque próximo à sua casa.
Caminharam até o final do dia e ficaram exaustos. Na volta, Martin levou a cachorra em seus braços. Apenas quando chegou ao apartamento percebeu que passara o dia todo sem o celular. Laura havia ligado e mandado uma mensagem de texto: “Me ligue quando puder conversar”.
Martin não podia.
Martin nunca conseguira manter um relacionamento. Ou prolongar uma relação.
Ele gostava de ficar só.
Simplesmente.
Simplesmente se cansava das pessoas e as machucava.
Com seu silêncio.
Não estava pronto para conversar com Laura porque nada tinha a dizer.
A não ser que estava cansado.
Um homem só é só, somente.
E Laura era tão linda.
Mais linda que a soma de todas as mulheres que Martin teria nessa vida.
Era tão linda e dissera não para tantos homens e mulheres interessantes só para ficar só com Martin que queria ficar só.
Pola e Martin entreolharam-se por um momento. Ela desviou seus olhos negros, assim como os de Martin, só que mais vivos, e caminhou até sua tigela de água. Enquanto ela matava sua sede, Martin permaneceu inerte por mais algum tempo, com o celular na mão, quente e suada.
Foi até a cozinha,
Tirou a camiseta, jogou-a no chão, apoiou as costas mornas nos azulejos frios e lembrou que precisava preparar algo para jantar.
Abriu a porta da geladeira onde só se viam maçãs e latas de água tônica. Abriu uma lata. Despejou-a num copo e tomou. Respirou fundo, colocou ração para Pola e foi tomar um banho.
Descansou um bocado no sofá em frente à TV, sem assistir nada em especial.
A televisão nunca tem algo de especial.
Vestiu uma bermuda e uma camiseta velha – ao contrário do dia anterior o tempo estava agradavelmente quente.
Levou Pola junto com ele para jantar, comer qualquer coisa em algum lugar com mesas externas em que pudesse ficar na companhia de sua cachorra.
Comeu um kebab e tomou um chope. A poucos quarteirões de sua casa existia um bar cujo dono era um turco amigável. Gostava de lá. Pola também. Repetiu o chope. Sentiu-se bem.
Foi embora para casa, pegaram o caminho mais longo e foram andando, devagar. Quando chegaram se lembrou que precisava fazer compras no mercado.
Fica pra amanhã.
Martin e Pola acordavam tarde no domingo.
Por algum motivo nostálgico, Martin se obrigava a preparar spaghetti todos os domingos, assim como sua avó e sua mãe costumavam fazer. Mas não tinha nem massa nem tomates em casa.
Levantou da cama e foi direto para o mercado. Comprou café, um pouco de queijo parmesão, papel higiênico, guardanapo descartável - caso alguma visita imprevista aparecesse em sua casa; pasta de dente, sabonete, shampoo, ração e biscoitos para Pola, biscoito de leite maltado para ele, cerveja, tomate, massa de macarrão, batata, um melão e um pote de sorvete de creme. Pediu no caixa para que entregassem as compras em sua casa. Não tinha carro. Nem mil braços.
Passou na banca em frente ao mercado para comprar o jornal. Não assinava mais para receber as notícias em casa porque dessa maneira se acumulavam muitas edições - jamais lidas, devido à falta de tempo e às vezes, ao desinteresse por desgraças. E uma das coisas que mais gostava nessa vida eram as bancas de jornal. Quando era criança sonhava em ser jornaleiro; assim poderia passar o tempo sem falar muito e ler todas as revistas e jornais que quisesse. Martin gostava do ritual: dar e receber moedas de troco, e de deixar as moedas no bolso para quase todo o sempre. E Martin tinha tempo para ler de domingo.
Domingo é tempo livre e domingo tira a vontade de se fazer qualquer coisa – coisas que queremos fazer quando não temos tempo livre.
Mas nesse domingo.
Martin o faria diferente.
À medida que a água do spaghetti esquentasse, leria em voz alta as melhores notícias para Pola. Faria o melhor molho de tomates do mundo. E enquanto tomasse seu sorvete de creme de sobremesa, Pola comeria um biscoito. E eles não se chateariam por nada nesse mundo.
Nem por ser domingo.
Há três anos, Martin conhecera uma garota e saíra com ela por algum tempo. Ela amava o dia de domingo. Ele fez de tudo para entender e até mesmo para adotar suas ideias otimistas. Não deu certo. Martin às vezes se lembrava dela nesses dias e se perguntava se ela continuava dizendo isso para as pessoas.
Preparou um delicioso almoço e colocou um vinil do Sidney Bechet para escutar enquanto.
AHHHHHHHHHHHHH... Suspirou satisfeito.
Pola deitou no tapete da sala de estar de barriga pra cima e logo dormiu. Martin tentou fazer o mesmo, e sem sucesso, foi até a cozinha preparar um café.
Preparou um café forte, assim como Laura gostava. Ela era a única pessoa que ele conhecia que gostava de tomar café tão forte quanto ele - e sem açúcar.
Enquanto terminava de ler o jornal, o telefone tocou. Era um amigo. No próximo final de semana, ele e outros conhecidos de Martin iriam fazer uma pequena viagem à praia, era feriado e eles pretendiam estender a semana. Convidou o amigo e sugeriu que ele levasse Laura. Tinha espaço para Laura e Pola no carro. Martin ficou de ligar para o seu amigo para confirmar se iria ou não ao passeio.
Martin tentou se convencer de que deixar sua cidade por alguns dias seria saudável. Mas ainda não sabia se deveria convidar Laura.
Quando se mora num apartamento é difícil ter a oportunidade de deitar no chão à noite e olhar para o céu e se lembrar que tanto seu corpo como seus problemas não significam nada perante o infinito.
Quando o céu escureceu naquele domingo Martin fez o que pode: foi até sua pequena varanda e olhou o mundo ao seu redor. Inspirou, respirou e quando se cansou de procurar por uma mísera estrela, voltou para a sala.
Abriu uma cerveja e pegou um álbum de fotografias para admirar sob a luz do abajur e logo adormeceu.
Quando acordou no sofá já era tarde. Foi para o quarto e não conseguiu reembarcar no sono. Pensou na viagem e pensou em Laura e não conseguiu pensar em nada mais. Não sabia ao certo se deveriam retomar a conversa que não havia terminado ou se deveria começar uma página em branco. Ligou para ela. Depois de alguns toques ela atendeu. Martin pediu desculpas pelo horário, mesmo notando que, de acordo com o tom de sua voz, Laura parecia estar bastante acordada. Ela disse que havia dado um jantar para seus amigos em sua casa e que eles continuaram por lá, estendendo assim a conversa e o vinho.
Será que eu posso ir até sua casa amanhã? 
Laura disse que achava que sim.
Te ligo de novo amanhã, então.
E então veio a insônia.
Como Martin trabalhava em casa, deixava a falta de sono se acomodar livremente ao seu lado, em sua cama. Ele era escritor e estava trabalhando, nos últimos meses, num roteiro para um filme qualquer, com o prazo de entrega já um tanto apertado. Mas talvez, não fosse a contagem regressiva dos dias que o mantinha de olhos abertos. A ansiedade não precisa de um grande motivo para existir. Assim como a insônia: ela apenas se instala no corpo.
Pensou inúmeras vezes nas poucas palavras que trocara com Laura no telefone. Odiava telefone; telefonar, ter de falar – do outro lado da linha.
Enquanto afogava em pensamentos a campainha de seu apartamento tocou. E só podia ser Laura. Ela era a única pessoa que o porteiro do prédio deixava subir sem antes avisar Martin.
Ele lavou o rosto e foi atender a porta.
Laura disse que estava sem sono.
Eu também não consigo dormir. 
Então foram para a cama, em silêncio. Para a cama para ficar em silêncio. E Martin notou que os olhos verdes de Laura também eram mais vivos que os seus.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

sono

O sono de segunda-feira. Esse sono que eu não consigo curar com café. É que o sono não é uma enfermidade, como uma dor de cabeça, pra se curar. Sono é uma vontade. Vontade de encostar a cabeça no travesseiro e dormir e sonhar e babar. Vontade de fechar os olhos e os ouvidos, principalmente. Sono é a vontade de se fechar para o mundo e abrir a porta da bolha dum mundo que é só nosso e entrar lá e ficar lá até que essa vontade passe e dê vontade de se abrir novamente para a vida e aí sim, tomar um cafezinho.

domingo, 19 de janeiro de 2014

como numa música

Como numa música simples que ganha um solo de saxofone despretensiosamente elegante ela caminha pelas calçadas de Ipanema e faz uma curva na esquina e desaparece deixando pra trás um lance de seu perfume. Como numa música que terminha mas não termina até o eco desaparecer.