quinta-feira, 20 de março de 2014

berro

tudo o que se pode ser e não se é porque
tudo o que se pode escrever, por em palavras, cada textura, cada emoção, cena fotografia mas não se pode porque
o que é que falta
quando se falta inspiração
quando se falta palpitação

no coração

é tudo tão estático
mas os dedos insistem, querem se mexer
e precisam escrever uma coisa qualquer
assim, pra sobreviver
pra não deixar morrer
aquele gosto de liberdade que é
então o que é que eu posso fazer?
tento alongar o pensamento
todo dia quando abro o portão e saio na rua e respiro o ar matinal
eu tento tragar
o som dos poucos pássaros
a beleza dos poucos jardins
o movimento sutil das poucas árvores
que continuam ali na minha rua
e que de certa forma estão ali para mim
eu engulo esse presente
mas não digiro até o fim
e quando chega a tarde
uma coisa quer sair
uma pintura colorida
sem forma, gratuita
uma enxurrada de tons quentes e pasteis
um berro de trompete
que só precisa chamar a atenção
nenhuma música quer dizer
nenhuma música é em vão
toda música é um berro
toda arte é um berro

segunda-feira, 10 de março de 2014

namorada mais velha

Sabe o piano de “In a Sentimental Mood”, de Duke Ellington e John Coltrane... Ela me perguntou com reticências sem interrogação... Depois desviou seus olhos dos meus e mergulhou no vazio.

- - -

Enquanto eu a esperava emergir novamente enchi sua taça com o vinho que estava na mesa. Enchi a minha também e como eu estava usando apenas uma camiseta velha com a foto da Monica Vitti estampada, comecei a sentir frio.

Cruzei os braços tentando não soar rude ou impaciente à sua reflexão; Esfreguei as mãos sobre eles, mas não adiantou muito. O disco parou de tocar e eu pensei em troca-lo por outro, mas assim como meus movimentos, temi soar insensível aos seus ouvidos. Então levantei lentamente e apenas coloquei a agulha sobre o disco no lado b novamente.  Sem dizer nada fui até o meu quarto e peguei uma blusa de moletom que estava em cima da cama e vesti.

Ela estava lá, elegantemente melancólica com seu casaco de feltro cinza escuro; mas o que é que eu poderia fazer...

Peguei pedaços de pão, queijo e azeitonas. Me sentei e belisquei a comida enquanto esperava-a voltar. Por fim perguntei se ela não estava com fome, porque tenho quase certeza de que ela não notou que eu tinha colocado comida ali na mesa e vestido o moletom. Sua taça, porém, estava vazia.

Ela respondeu que ia embora. Minutos atrás havia dito que passaria a noite em casa. Eu não implorei pedindo que ficasse; apenas estendi meus braços sobre a mesa com migalhas e segurei uma de suas mãos. A outra segurava um cigarro.

Pedi um trago como uma maneira de.

Ela deu uma risada sem abrir a boca; apagou o cigarro no cinzeiro e descabelou minha franja com a ponta dos dedos.

Eu esperei a semana inteira para dizer que tinha terminado o livro do Faulkner que pegara emprestado. Tentar discuti-lo seria tão idiota.

Desconfortável me levantei para ir até o banheiro lavar o rosto. Na frente do espelho pensei no que deveria fazer.

Quando voltei, ela não estava mais na mesa. Seu casaco estava estirado no sofá e o resto de suas roupas no chão do quarto.

Ela dormia.

beijo de olá

Te vi e até trocamos um beijo de olá.
Mas não quis escrever sobre você quando cheguei em casa.
Antes de dormir eu apenas deixei a TV ligada num filme dublado.
Nem pensei em pensar e não sonhei.