quinta-feira, 20 de março de 2014

berro

tudo o que se pode ser e não se é porque
tudo o que se pode escrever, por em palavras, cada textura, cada emoção, cena fotografia mas não se pode porque
o que é que falta
quando se falta inspiração
quando se falta palpitação

no coração

é tudo tão estático
mas os dedos insistem, querem se mexer
e precisam escrever uma coisa qualquer
assim, pra sobreviver
pra não deixar morrer
aquele gosto de liberdade que é
então o que é que eu posso fazer?
tento alongar o pensamento
todo dia quando abro o portão e saio na rua e respiro o ar matinal
eu tento tragar
o som dos poucos pássaros
a beleza dos poucos jardins
o movimento sutil das poucas árvores
que continuam ali na minha rua
e que de certa forma estão ali para mim
eu engulo esse presente
mas não digiro até o fim
e quando chega a tarde
uma coisa quer sair
uma pintura colorida
sem forma, gratuita
uma enxurrada de tons quentes e pasteis
um berro de trompete
que só precisa chamar a atenção
nenhuma música quer dizer
nenhuma música é em vão
toda música é um berro
toda arte é um berro

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