quarta-feira, 30 de abril de 2014

eu vou ao cinema

Eu vou ao cinema.
O que me resta hoje é sair para ver um filme.
Vou olhar pra tela pra não olhar pra vocês. Pro mundo sem história sem roteiro sem cor sem trilha sem direção.
Eu vou ao cinema.
Vou comprar meu ingresso na bilheteria e vou chegar cedo e escolher o melhor lugar.
Eu vou entrar na sala de cinema e nunca mais voltar.
Porque se minha vida ainda não é um filme hoje ela vai se tornar.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

sala de espera

Pergunto onde é a recepção. Retiro minha senha e espero o número do guichê piscar. Na minha bolsa tenho livro tenho caderno tenho celular. Não consigo me concentrar em nada a não ser em esperar.

No balcão dou meu documento e o bilhete com o número da senha. Ganho uma folha advertindo todos os efeitos colaterais que o exame pode causar e é claro que penso então estar fazendo a coisa errada, e uma pulseira de papel com meu nome. E aguardo para ser atendida pelo médico em outra repartição. Na sala de espera tem revista de fofoca. Eu temo saber como anda minha vida, imagina a de... . Na sala há televisão. Abomino os programas matinais e me sento atrás da tela. Continuo escutando, porém, me recuso a assistir. Na sala também tem um aquário gigante com peixes coloridos de variadas espécies que não despertam meu interesse em saber quais são.

A sala de espera. Que hora tão.

Pauso minha vida, pois a distração, esse falso consolo, só me faz.

Prendo a respiração porque não existe outra maneira de minha hora chegar. Na sala de espera o que eu faço é esperar.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

amores de metrô - volume quatro

Entrei no vagão no início da noite daquela quinta-feira em que eu me encontrava cansada com um jeans velho, uma camiseta cinza e um livro na mão, Três Vidas, de Gertrude Stein. Porque no início da noite daquela quinta-feira eu me interessava por qualquer vida que não a minha em que eu me encontrava cansada com um jeans velho, uma camiseta cinza e.

Enquanto eu lia vi que alguém me via. Eu estava em pé, de frente para ela. Que estava sentada e olhava para cima e segurava uma caixinha de água de coco. Ela olhou curiosa o título do meu livro e acho que gostou porque continuou a olhar. E numa hora dessas eu nunca sei o que fazer senão continuar a ler.

Enquanto eu lia alguém me via.

O assento ao seu lado foi desocupado e não me restava alternativa senão me sentar e por ali ficar.

Ao seu lado por uma estação.

E numa hora dessas eu nunca sei o que fazer senão.

E então ela se levantou e saiu do vagão.

amores de metrô - volume três

Tenho lido todos os títulos de seus livros nesses últimos dois anos em que pegamos o mesmo metrô quase todos os dias. Devo dizer que nunca cansei do seu bom gosto e o meu bom senso nunca permitiu que eu interrompesse a sua leitura para dizer oi.

E hoje de manhã vi uma aliança dourada no seu dedo anelar esquerdo que com a ajuda dos demais seguravam mais um de seus belos livros.