sexta-feira, 16 de maio de 2014

quadro desse dia

Como um pintor pré-fotografia o lado de fora que me guia.
Posso ter tempo dentro de um espaço.
Mas aí só escrevo agonia.
O céu azul de outono, as conversas que vazam dos botecos que servem almoço no balcão, a praça e o cachorro, que nesse momento brinca com uma bolinha na minha frente, são mais alegria.
Depois da escola tanta gente vem aqui pra Roosevelt. Toma um sol. Anda de skate. Senta num banco pra conversar.
E nada disso faz barulho.
E sobra espaço para pensar.
Pensar sobre o que eu posso escrever para preencher o vazio que o silêncio oferece.
Se bem que quando ele aparece.
Eu peço pra ele ficar.
Assim porque é tão raro.
Então será que eu não devo escrever?
Se bem que, quem disse que escrever é preencher?
O que penso nesse instante é que escrever é reconhecer.
Reconhecer a pausa que o tempo me oferece para estar e somente ser.
Quem reconhece observou
algo por algum tempo e pensou.
E agora antes de me levantar desse banco eu volto a olhar. Tudo ao meu redor.
Mesmo que de maneira vaga. Mas que me faça. Ao menos lembrar dos tons das cores principais.
Para que quando eu voltar para o espaço sem céu eu possa recordar. Do quadro desse dia.

terça-feira, 6 de maio de 2014

antes do sol se pôr ele atravessou seu corpo e é disso que me lembro

Não lembro nada do que aconteceu naquele domingo em que fiquei com você até o final da tarde naquela casa na montanha que você alugou para se esconder do resto do mundo. Resto porque você é... É mais que um pouco. Naquela casa na montanha que você alugou para se esconder e não aguentou ficar tanto tempo só e me chamou prum final de semana.

Não. Acho que eu lembro, sim. Tínhamos combinado que eu iria embora pela manhã.

No domingo.

Depois daquele pedaço de sexta-feira umedecida em vinho e daquele sábado inteiro que parecia não acabar nunca. Pelo seu silêncio. Pelo meu silêncio em resposta ao seu. Pelo eco que aquela casa de madeira fazia.

Nunca conheci uma casa de madeira com tal eco.

Nem os estalos que a lenha fazia na lareira quebravam o silêncio.

Eu tive tanto receio de desfazer aquele nó que não coloquei disco algum.

No final da noite você tocou piano.

Mas o silêncio me ensurdeceu e eu não lembro o que você tocou.

Não escutei.

Enfim chegou domingo.

E o meu despertador tocou.

E eu escutei.

Você disse fica e não mais que isso.

E então fiquei.

E fiquei com medo pensando como desceria aquela montanha de carro no escuro.

Porque do domingo não passaria.

E não passou.

E nada aconteceu.

Ficamos sentados naquelas poltronas confortáveis até demais tomando café, tomando vinho e tomando café e.

E eu não conseguia me concentrar em ler um livro ou fazer outra coisa.

E passamos manhã e tarde olhando para o teto, para o chão, para as árvores que balançavam lá fora, e, vez ou outra nossos olhos se encontravam.

Você foi fumar um cigarro na varanda.

Te acompanhei.

Vou embora antes de anoitecer.

Você não respondeu e entrou.

Na sala você se apoiou no batente da janela que estava aberta inundando a casa com a luz solar. Antes do sol se pôr ele atravessou seu corpo e é disso que me lembro.

Antes do sol se pôr eu criei essa fotografia.

Você era luz e sombra e o resto do mundo.

Acho que você entendeu tudo naquele momento.

Você ficou ali até escurecer.

E eu cheguei vivo em casa.