terça-feira, 26 de agosto de 2014

pra acalmar

ondas pés no chão espuma bossa nova jardim grama samambaias antúrios petúnias todas as flores e folhas e pássaros assobios ventinho no rosto olhos fechados uma estrada um horizonte infinito suas mãos sobre as minhas um cobertor xícara de porcelana antiga erva cidreira jasmim menta camomila erva doce mel limão violão sua pele na minha pele o piano algodão céu estrelado as pintas das suas costas que constelação o som do mar o som da cachoeira o som da água que nasce as pedras molhadas um pouco de vinho giz pra pintar renoir uma paisagem um barco pra fotografar navegar a cor branca o céu azul o abajour aquela memória que eu tenho dela de pijamas numa manhã preguiçosa da infância cantando hey jude pra mim um copo de leite quente um vaso sobre a mesa uma polaroide do tarkovski a sua letra debussy uvas e maçãs alguns fotogramas de algum diário do jonas mekas o seu beijo bicicleta uma camiseta velha subúrbio amarelinha um solo de trompete um suspiro por fim um alívio.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

vejo o rio de janeiro


essa música.... eu vejo o rio de janeiro.
é bossa é piano é uísque e é uma calmaria.
eu fiz pra me acalmar, mesmo.
esse tom... não tem variação?
não, é só isso, são duas notas. é uma onda.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

se esses dias não são poesia

Se esses dias não são poesia
Se a poesia não está nos dias
Então não sou poesia
Então eu vejo um filme
ou leio um livro.
Poesia pronta
pra quem não consegue
ver nos dias
um verso bonito qualquer
composto de rotina
ou de qualquer coisa comum
como uma xícara de chá
ou a fumaça que sai desta.
Se esses dias não são poesia,
qual seria?

se não era hora

Ela carregava aquele livro de capa dura da Gertrude Stein pra lá e pra cá. Não era tão grosso assim para a leitura ter durado semanas. Mas ela queria mastigar cada palavra. Sílaba por sílaba. E digerir. E pensar sobre as histórias daquelas mulheres. Daquelas três vidas que também era a sua. Mas não queria que fosse... pois ela se sentia tão só e pela primeira vez em sua vida estava pronta para admitir. Mas ela lia sobre aquelas mulheres sós e independentes e via o quão duro era - ter razão. E ela pensava nisso. Pensava se não era hora de abandonar a razão.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

lenço de papel

Por fim me levantei da cama
e troquei o disco que insistia em girar.
Tirei o pó dos livros e da máquina de escrever.
Tirei o pó do corpo com um banho e das ideias com uma caminhada até a estação.
Pensei se valia a pena me deteriorar ou começar a semana indo a uma bela exposição.
A arte foi a salvação.
Vi centenas de obras do Leonilson e aquilo me causou comoção. Pensei em tanta coisa.
Mas com a ajuda dele mudei de posição.
Antes mesmo de escurecer encerrou o expediente da mostra e eu, à beira, voltei para a estação.
Antes de entrar, acendi um cigarro, como que uma pausa, uma digestão de toda aquela informação que eu tinha devorado. Como que para dividir um ato do outro.
Um intervalo.
E eu gosto tanto da estação da Luz. O seu entorno. O parque. Os resquícios de história.
De tantas histórias que nem chegam a tempo no momento do lugar.
E já com pouca luz eu não pude apreciar aquele pós pôr do sol porque às vezes a cidade não é sua e a rua não é pública.
Alguns pastores estavam gritando em frente ao parque. Com microfone. Caixa de som. E eu não pude ouvir meus pensamentos e me senti expulsa.
Sem paz sem pai no dia dos pais.
Sem luz na estação que poderia.
Um domingo.... ah, bem que eu tentei.
Mas tive que me retirar porque essa cidade é a cidade de quem tem fé ou insiste a procurar
Algo para acreditar.
Aqui a melancolia não tem vez.
Mesmo no domingo.
Mesmo que.
Então eu fui.
Entrei no vagão e vi, de relance, uma menina bonita de cabelos castanhos, bem curtos, e olhos verdes e brincos verdes e botas marrom, encostada à porta do outro lado.
Umas duas estações depois ela se acomodou, em pé, ao meu lado. Olhei para o seu rosto e vi que por ele percorria uma lágrima.
Eu fiquei atordoada.
Em ver no rosto alheio aquilo que guardei.
E por mais que aquela cena tivesse doído como uma pontada nos olhos eu não chorei.
Só quis tirar aquela menina de lá, onde a euforia das pessoas ofuscava aquela gota cintilante de água salgada.
Eu tinha que fazer alguma coisa imediatamente.
O que você faz quando vê alguém chorar?
Uma vez escrevi algo que dizia "com o desprendimento de uma pessoa que chora no transporte público".
Bem, o que se faz diante desse momento de abstração?
Resolvi por um instante oferecer um lenço de papel.
Achei, porém, que ela pudesse ficar constrangida.
Eu nunca quis tanto enxugar a lágrima de alguém... de uma estranha.
Então combinei comigo mesma que se ela descesse na mesma estação que a minha, eu o entregaria.
Mas eu desci. E ela não.
E eu fiquei tão triste.
E lá fora brilhava a lua no céu.
Ela olhou a minha escuridão e disse vem
respondi nem.
Porque nessa noite o brilho que me cegou estava na lágrima de quem chorou.

despedida

não vai agora, não. divide esse cigarro comigo.

voltou a fumar?

é que às vezes eu perco o chão...

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

coração alheio

Décadas depois
Depois do almoço
No meio de um cigarro
A resposta veio
Hoje eu descobri o que quero ser quando crescer

Carteira

Já que eu gosto tanto
Tanto de andar por aí

Já que eu gosto tanto de escrever
Escrever cartas

Cartas para

Eu ainda vou aparecer assim, numa tarde, sem pretensão
Com uma sacola cheia de letras em minhas mãos

Destinadas ao coração alheio

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

falta tão pouco

É...
Hoje não vai dar pra. E se eu fosse eu...
Sabe, se eu me pegasse pelo braço e apertasse como que para dar um conselho a quem está à beira de.
Eu diria pra não escutar, não hoje Noel Rosa.

Já que não cabe,
vai andar.

Eu vou andar andar andar andar andar até doer e não doer mais porque o corpo já.
Eu vou andar andar andar andar em busca de um pouco de vento.
O vento leva
mas não me leva
porque não me encontrou
Eu vou andar andar porque o vento.
Eu vou andar atrás desse movimento vou andar até esquecer o que procuro.
E essa imagem decadente que eu me vejo compor
com um cigarro pendurado na boca
com uma lágrima pendurada no olho
que o vento movimento vai apagar
que o vento movimento vai secar

Ah, isso é poetizar...
Porque tudo aqui está tão seco.
E meus passos tortos caminham pros lugares que eu deveria evitar.

Alguém poderia me empurrar.

Se uma mão pousar sobre o meu ombro eu sei vou desabar.

Porque falta tão pouco.

Porque falta tão pouco pra eu chegar

ao chão.

Já que ando com o esforço de quem tenta voar.