segunda-feira, 11 de agosto de 2014

lenço de papel

Por fim me levantei da cama
e troquei o disco que insistia em girar.
Tirei o pó dos livros e da máquina de escrever.
Tirei o pó do corpo com um banho e das ideias com uma caminhada até a estação.
Pensei se valia a pena me deteriorar ou começar a semana indo a uma bela exposição.
A arte foi a salvação.
Vi centenas de obras do Leonilson e aquilo me causou comoção. Pensei em tanta coisa.
Mas com a ajuda dele mudei de posição.
Antes mesmo de escurecer encerrou o expediente da mostra e eu, à beira, voltei para a estação.
Antes de entrar, acendi um cigarro, como que uma pausa, uma digestão de toda aquela informação que eu tinha devorado. Como que para dividir um ato do outro.
Um intervalo.
E eu gosto tanto da estação da Luz. O seu entorno. O parque. Os resquícios de história.
De tantas histórias que nem chegam a tempo no momento do lugar.
E já com pouca luz eu não pude apreciar aquele pós pôr do sol porque às vezes a cidade não é sua e a rua não é pública.
Alguns pastores estavam gritando em frente ao parque. Com microfone. Caixa de som. E eu não pude ouvir meus pensamentos e me senti expulsa.
Sem paz sem pai no dia dos pais.
Sem luz na estação que poderia.
Um domingo.... ah, bem que eu tentei.
Mas tive que me retirar porque essa cidade é a cidade de quem tem fé ou insiste a procurar
Algo para acreditar.
Aqui a melancolia não tem vez.
Mesmo no domingo.
Mesmo que.
Então eu fui.
Entrei no vagão e vi, de relance, uma menina bonita de cabelos castanhos, bem curtos, e olhos verdes e brincos verdes e botas marrom, encostada à porta do outro lado.
Umas duas estações depois ela se acomodou, em pé, ao meu lado. Olhei para o seu rosto e vi que por ele percorria uma lágrima.
Eu fiquei atordoada.
Em ver no rosto alheio aquilo que guardei.
E por mais que aquela cena tivesse doído como uma pontada nos olhos eu não chorei.
Só quis tirar aquela menina de lá, onde a euforia das pessoas ofuscava aquela gota cintilante de água salgada.
Eu tinha que fazer alguma coisa imediatamente.
O que você faz quando vê alguém chorar?
Uma vez escrevi algo que dizia "com o desprendimento de uma pessoa que chora no transporte público".
Bem, o que se faz diante desse momento de abstração?
Resolvi por um instante oferecer um lenço de papel.
Achei, porém, que ela pudesse ficar constrangida.
Eu nunca quis tanto enxugar a lágrima de alguém... de uma estranha.
Então combinei comigo mesma que se ela descesse na mesma estação que a minha, eu o entregaria.
Mas eu desci. E ela não.
E eu fiquei tão triste.
E lá fora brilhava a lua no céu.
Ela olhou a minha escuridão e disse vem
respondi nem.
Porque nessa noite o brilho que me cegou estava na lágrima de quem chorou.

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