segunda-feira, 29 de setembro de 2014

tornar


Pode deixar que eu tô...

que eu tô indo embora.


Esse é o meu último dia aqui

Nessa sombrinha eu termino meu cigarro,

porque depois eu vou andar e não sei não faço ideia

a hora que vou chegar no fim do caminho.


Vou levar uma dessas flores comigo

Porque esse adeus é contemplação

Meu coração sabe que não

Tem motivo pra.


A sorte que eu tirei

Me trouxe você, até.

A sorte é vento que vai e vem.

Eu posso até guardar comigo o momento que cruzamos nossos dedos e formamos um laço.

Mas um laço não pode amarrar.

Então te solto.

Vou arejar.

Abrir o caminho

Pra que a calmaria não tarde a chegar.

Pode deixar que eu tô...

levando comigo isso que

apesar de não caber em mim...

Eu tô

levando numa sacola.

Talvez eu deixe cair no caminho ou perca a força pra carregar.

Talvez todas essas lágrimas tornem tinta e pintem o asfalto da estrada.

Talvez evaporem. Ou virem água do mar.

Quem sabe eu nem olhe pra trás.

domingo, 28 de setembro de 2014

o cérebro não afunda

Estava cansado. Voltou para o hotel à noite e ficou imerso na banheira daquela suíte antiga e um tanto decadente. Detalhes que pouco incomodavam. Ele até gostava daquela composição quando olhava para o seu rosto e via aquela barba por fazer em uma pele que envelhecera precocemente. Em sete dias. Os olhos vermelhos, um solo de Chet na memória; tudo isso emoldurado pelas bordas douradas levemente descascadas do espelho.
Estava cansado. Voltou para o hotel à noite e ficou imerso na banheira.
Fora da água morna só ficara seu braço direito e sua mão quase adormecida que segurava um cigarro entre os dedos.
Pensava.
Estava cansado.
E não descansava.
Aquilo tudo que acontecera antes da cidade nova...
Aquilo tudo que não parecia ser verdade.
Aquilo tudo que estava mais para uma longa cena de um filme antigo e um tanto decadente.
Afundava a cabeça prendendo a respiração como uma maneira de tentar afogar tudo aquilo.
O cérebro não afunda.
No quarto ligou a televisão sem sequer olhar para a tela; acendeu o abajur e começou a se vestir. Cueca, camiseta; deixou a toalha molhada na cama e abandonou o ritual pós-banho para abrir a janela e deixar entrar o ar gelado daquela noite que era sábado, mas que ele não reparara; que a última noite em que esteve vivo, ou um pouco mais que agora, também era sábado. Os centros de todas as cidades são iguais, então. Pendurou mais um cigarro na boca e ficou ali no batente de sua janela observando as janelas alheias, em especial uma que apresentava em seu interior uma estante repleta de livros iluminada por uma luz baixa amarelada.
O concreto do prédio da frente projetava o filme que ele não conseguia esquecer.
Com a cabeça apoiada num canto falou sozinho.
Sempre terei mais livros que conversas para compartilhá-los.
Sempre terei uma cama maior que o meu corpo.
Sempre vou fumar o cigarro até o fim sem alguém para me pedir um trago.
Sempre vou assistir a filmes que ninguém mais pode ver.
Ele perguntou com a voz ensopada de água salgada.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

esvaziar


Olha, eu acho que
se a gente abraçasse de uma vez essa melancolia de domingo
Bem, é sempre melhor do que ignorar
Sabe, eu digo isso porque
no final do dia todos estão escondidos com medo dentro de casa
e você pode passear pelo subúrbio de pijamas
sem se importar
você pode andar
e antes de tomar um banho limpar a sua mente
à noitinha, não se tem mais nada pra se ver
eu, por exemplo, saí sem óculos
é tudo escuridão, então
você pode fechar os olhos
e antes da chuva cair
você pode chorar.
Espremer a última lágrima do corpo que já está amortecido.
Não vai doer,
esvaziar.
Digo também que você pode gritar.
Se for canção, 
sem medo, desafinar.
Ahhh o domingo
é sempre uma tempestade no coração.

domingo, 7 de setembro de 2014

vão

Saiu assim só pra mudar de posição.
Saiu para levar o corpo e todo o seu peso para outra direção. Nada mais que isso.
Ele não tinha não naquele dia nenhuma pretensão.
Hoje a vida acaba aqui.
Sem essa de conclusão.
A vida toda sempre se mostrou bruta, abrupta.
Não dá pra ficar assim,
pra sempre na ilusão.
Ilusão é filme.
Ilusão é um beijo.
Uma canção.
E hoje não.
Saiu assim na praça pra esquecer o corpo vivo em vão.
Hoje é aquele dia que não vai acabar.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014


A noite é fria e a luz é quente.
Estamos altas e a luz é baixa.
Nós só estamos começando... algo. 
E a luz ameaça apagar. Flamejante ela oscila nos convidando a partir,
já.
Nós só estamos começando... a enxergar no escuro.
Eles arrastam as cadeiras do bar. Eles as empilham. 
Eles retiram as garrafas das mesas. Os copos e os restos de noite.
Continuamos no escuro porque o jazz ainda não acabou.
Nós só estamos começando... algo.
Nossas mãos se procuram.
Nossos dedos formam laços.
Um solo preguiçoso de trompete anuncia o fim.
Então te beijo na rua.
Um beijo de quem não quer partir.
Um beijo de quem não tem lugar
No coração da cidade que ameaça desligar.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

quantos dentes cabem numa boca

Um novo mês despertou às sete e meia da manhã.
Descalça pisei no chão - primeiro com o pé direito.
Calcei meias novas. Meio lilás, sei lá a cor.
Parece medo de errar, até.
E o dia passa e no final do dia
a meia lua aparece e você escuta a música errada e todas aquelas promessas desses novos trinta dias vão embora pelo ralo, no sono leve da madrugada.
E já não sei com que pé acordo no dia dois e já desisto de acertar.
Passo na papelaria pra comprar um envelope porque penso em transcrever aquela carta imaginária que fiz pra você numa noite de insônia mas que a lua era cheia.
Três envelopes, peço eu, de novo com medo de errar.
Escrever seu nome com a letra feia ou.
E peço duas canetas.
Pra passar o cartão ainda falta mais um real.
Três canetas, então. Três envelopes.
Um amor, só.
E com essa bic azul nova termino meu caderno nesse começo de mês que virou o fim de alguma coisa.
Eu pensei que ia te ver
e que quando isso acontecesse eu fosse sorrir.
Mas eu tenho a certeza de que até o final do dia
todos os meus dentes vão cair.
Vou colocá-los num envelope.