domingo, 28 de setembro de 2014

o cérebro não afunda

Estava cansado. Voltou para o hotel à noite e ficou imerso na banheira daquela suíte antiga e um tanto decadente. Detalhes que pouco incomodavam. Ele até gostava daquela composição quando olhava para o seu rosto e via aquela barba por fazer em uma pele que envelhecera precocemente. Em sete dias. Os olhos vermelhos, um solo de Chet na memória; tudo isso emoldurado pelas bordas douradas levemente descascadas do espelho.
Estava cansado. Voltou para o hotel à noite e ficou imerso na banheira.
Fora da água morna só ficara seu braço direito e sua mão quase adormecida que segurava um cigarro entre os dedos.
Pensava.
Estava cansado.
E não descansava.
Aquilo tudo que acontecera antes da cidade nova...
Aquilo tudo que não parecia ser verdade.
Aquilo tudo que estava mais para uma longa cena de um filme antigo e um tanto decadente.
Afundava a cabeça prendendo a respiração como uma maneira de tentar afogar tudo aquilo.
O cérebro não afunda.
No quarto ligou a televisão sem sequer olhar para a tela; acendeu o abajur e começou a se vestir. Cueca, camiseta; deixou a toalha molhada na cama e abandonou o ritual pós-banho para abrir a janela e deixar entrar o ar gelado daquela noite que era sábado, mas que ele não reparara; que a última noite em que esteve vivo, ou um pouco mais que agora, também era sábado. Os centros de todas as cidades são iguais, então. Pendurou mais um cigarro na boca e ficou ali no batente de sua janela observando as janelas alheias, em especial uma que apresentava em seu interior uma estante repleta de livros iluminada por uma luz baixa amarelada.
O concreto do prédio da frente projetava o filme que ele não conseguia esquecer.
Com a cabeça apoiada num canto falou sozinho.
Sempre terei mais livros que conversas para compartilhá-los.
Sempre terei uma cama maior que o meu corpo.
Sempre vou fumar o cigarro até o fim sem alguém para me pedir um trago.
Sempre vou assistir a filmes que ninguém mais pode ver.
Ele perguntou com a voz ensopada de água salgada.

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