domingo, 23 de novembro de 2014

garrafa vazia

Olho para as garrafas vazias na estante. Tantos tons de verde. Nelas refletem a luz do abajur e algumas fotografias. Eu sempre quis que isso aqui estivesse sempre bonito. Assim como a garrafa tem seu charme mesmo sem vinho, é aqui sem você. Apesar de uma ou outra foto, de uma ou outra tela que você pintou e deixou aqui... E eu estava aqui escrevendo e fiz uma pausa e olhei para todos esses objetos. E daí que escrever foi a maneira espontânea que o meu corpo encontrou para conversar com você. Eu penso em escrever qualquer coisa, crônica, ficção, descrição duma coisa, dessas garrafas que secamos, por exemplo. E aí que começo a conversar com você como se você. Estivesse em alguma parte de mim.
É que eu enlouqueci e me sinto bem.
Será que você vai viajar nesse feriado?
Eu vou ficar por aqui na cidade.
Quem sabe eu escreva uma carta e te envie por uma garrafa dessas. Quem sabe por quais mares você navega. Talvez eu compre um barco e esqueça toda essa besteira de decoração.

Assinado eu, que faço de bússola o coração.

caderno novo

Ela comprou um caderno novo. Revistas novas para ler e uma camiseta amarela. Toda madrugada deitava em sua cama, com toda a inspiração dos pedaços de dias que havia absorvido, mais os livros e os discos que faziam sua trilha. Então abria o caderno, mas decaía. Voltava sempre para a poesia. Tudo rimava com o nome da menina. E ela não podia, não no caderno novo... mas cedia. E ninguém sabia que depois de algumas dezenas de dias ela ainda sofria. De madrugada ninguém via. Sequer ouvia o barulho da caneta rabiscando ou das lágrimas que caía e ecoava pelos cantos.

Eu vou esvaziar
até esquecer
essa mania de lembrar.

Dizia.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

preciso urgentemente desenhar o mapa que me leve até mim antes que eu me perca de uma vez por todas

Sabe, é como se eu estivesse vindo pra cá, como faço toda semana; logo, sei de cor o caminho... então é como se no meio do trajeto eu me esquecesse e me visse perdida.
Só que quando você está perdido numa rua, você pode perguntar pra alguém o caminho... a questão é... e quando você acorda às três da madrugada perdida dentro de você... pra quem você pergunta a direção?
Pausa.
Eu...
Isso mesmo. É pra você.

pedaços

O corpo em pedaços,
falta de sincronia.
Uma perna ali atrás, outra lá na frente que é o futuro;
futuro que minha mente não prevê, então não pode alcançar.
Qual é a cola que gruda tudo isso e faz de mim um só?

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

sábado, 8 de novembro de 2014

ah,

Ah,
Madrugada de domingo, o resto de um sábado de lamento, de chá de boldo e João Gilberto. O lamento que todo mundo tenta guardar pra segunda-feira, veio a calhar...
Mas o chá me acalmou e João me fez pensar. Já era hora de desabotoar a camisa, largar o corpo num canto e respirar. Já era hora de abandonar a multidão, a festa, o bar, o sorriso amarelo que já não sei o que mais queria sustentar.
Eu vou deixar...
A janela aberta, a música repetir, o olho lacrimejar, o espelho refletir.

Foi você quem me ensinou que um homem como eu
Que tem por que chorar

Só sabe o que é sofrer se o pranto se acabar.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

é preciso

tempo.
tempo.
tempo.
pra engolir.
pra digerir.
pra descansar.
pra ganhar forças.
pra,
finalmente,


remar.

cinema, insônia e solidão

Preferiu andar pela rua paralela à avenida principal. Assim podia fumar o seu cigarro em paz e pensar sobre o filme que tinha acabado de assistir. Cinema às segundas-feiras... Foi sozinho. Assim podia escolher o cinema, o filme, o lugar. Caminhou e pensou naqueles olhos insoniosos do ator. Os meus também são assim. Pensou. E pensou em tanta coisa. Concluiu então que era por isso que não dormia.