terça-feira, 16 de dezembro de 2014

subsolo mondrian

é que a música
a música em SI às vezes é si menor demais
e devemos encontrá-la em outros cantos
como nessa manhã de terça-feira em que eu lia meu querido cortázar e seu diálogo de ruptura
e a quebra da partitura se fez quando um senhor entrou no vagão do metrô e eu abri espaço para ele se sentar, ainda sem tirar completamente os olhos do livro
e então eu o vi e não consegui mais tirar
vermelha amarela e azul sua camisa parecia mais uma obra de mondrian
ele ria e ria sem parar
ele falou comigo e eu com fones de ouvido não escutei e quando os tirei
a verdadeira música começou a tocar
ele ria e ria sem parar
e disse que gostou da minha mochila e que também era um mochileiro
e com sua esposa falava sobre viajar
ele ria e ria sem parar
numa euforia tão boogie
num compasso que não caberia à música pautar, mas quem sabe à boris vian se estivesse no meu lugar

domingo, 14 de dezembro de 2014

nó após o laço

Não era o seu aniversário, mas estreou uma camisa nova; jeans, de mangas curtas, assim, em plena quarta-feira de manhã, de dia de trabalho.
A dificuldade para calçar o tênis continuava a ser a mesma. Perdido em pensamentos, perdido no ritual de dar um nó após o laço.
É que acordei pensando nela e isso tirou a pouca vontade que tenho de sair desse quarto.
E essa camisa nova é um presente de consolo.
O máximo.
que posso fazer por mim.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

lamento

aquele bar. aquele bar em que a gente ia vai fechar. aquele bar em que a gente ia no centro da cidade em que nos éramos sempre as últimas a sair. aquele bar em que a gente ia porque era o último a fechar. aquele bar em que a gente comemorou o seu dia, em que eu falei de billie holiday e você de louise bourgeois e sobre o que iríamos fazer quando não houvesse mais lugar na noite.
para estar.
e se eu pudesse voltar... se eu pudesse voltar lá
eu faria a única coisa que me arrependi de não ter feito a última vez em que estivemos lá.
antes de descer ao subsolo pedir um drinque e me sentar eu tocaria naquele piano que você pediu e que eu deixei pra lá.
eu quis te dizer isso porque a porta que se fecha é nossa e eu só queria acenar antes da última lâmpada que iluminava nossa noite se apagar.

não queria nem colocar um título

o corpo em movimento

a mente em retrocesso

a falta de sincronia

eu sou meu próprio desencontro