domingo, 25 de outubro de 2015

água

faz tanto tempo mas eu não percebi porque estava aqui olhando pra essa tela tentando escrever sobre o tempo que não é mais hoje nem ontem nem
só que pra mim
olha, eu não sei o que aconteceu nesse tempo que congelei
nesse tempo que congelei o pensamento mas o corpo
e hoje eu resolvi abrir a janela e estava chovendo
se continuei viva então choveu por esses dias que pensei que não
mas só hoje vi e movi
o pescoço pra fora do quarto e ali aquela água com cheiro da infância daqueles anos em que eu observava a tempestade através da porta de vidro da cozinha daquela casa onde eu só lembro da presença da minha mãe e daquele monte de histórias que ela me contava e da vez que pensei que ela sumiu de vez numa brincadeira de esconde-esconde quando ela se escondeu debaixo da escada do quintal
molhou minha cabeça nessa tarde cinza que eu só descobri porque
e que fazia frio mas eu não senti nada além da água doce mais quente que meu pensamento que então se dissolveu como um fenômeno da natureza como se aprende na escola sobre os estados físicos da água
eu vou evaporar

quarta-feira, 8 de julho de 2015

cogumelos frescos

depois de muitos ensaios vestiu a capa de chuva azul marinho por cima do pijama - uma camiseta velha dos muppets e uma calça de moletom - e foi.
infinitos trezentos metros e chegou ao supermercado. não tinham cogumelos frescos e por isso ela desistiu de preparar o jantar que planejara a semana inteira. não comprou nada e voltou chorando não pela falta de comida mas pela falta de vida que fazia aquele ritual de comprar cogumelos frescos no supermercado do bairro o ápice desta. chegou em casa e deu um berro.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

trovão

A neblina que se via da janela do quarto na manhã de domingo. Era neblina?
Era domingo de manhã e seu coração ainda batia. Ela pulsava demais para matar mais um dia.
Queria morrer porque não podia gritar. Se bem que, de que vale viver se não pra.
Queria sair da cidade, ir para o espaço sideral só para o nó das cordas vocais. Desatar.
E depois de pensar.
E muito pesar.
Decidiu ir ao cinema porque
lá é o melhor lugar para chorar.
Colocou o relógio no pulso, calçou seu par de botas velhas, pegou as chaves, seu paletó azul marinho e saiu, porém não antes de enfiar o livro do Faulkner debaixo do braço, assim como a bíblia sagrada usada nos passeios dominicais. Andou em passos largos até onde o corpo podia suportar numa tentativa de exorcizar aquela fúria nem que fosse.
E falando no diabo a igreja do bairro estava cheia. Morre mais um velho e o mundo gira gira gira e a repetição causa uma náusea que não tem cura e no vagão vazio do metrô sentou e leu algumas páginas e na bilheteria também vazia pediu seu filme e foi pro café que estava cheio.

Maldição foi bem aqui e hoje faz um ano que dividimos um cigarro antes da sessão

Contrariando o resto do corpo seus olhos buscavam o ponto de virada daquele dia.
Porque a vida aos domingos também é cinema.

Não nesse dia em que nem aquele filme melancolia.

Caía chuva do céu quando a película queimou
e ela virou trovão.

terça-feira, 12 de maio de 2015

anos de peregrinação

e ele caminhou no final da tarde que era fria e sabia
que aquele travesseiro que substituía seu coração
se chamava calmaria.

eu nunca mais quero ver no eletrocardiograma a partitura da minha trilha

e assobiou sem perder o fôlego sequer nas ladeiras da vila e não desafinou quando chegou na grande e iluminada avenida.

no trem embarcou com seu nariz vermelho e gelado e da bolsa tirou o livro que falava sobre o grande pianista.

são anos de peregrinação.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

teria sido melhor um chá

um copo de café e olho pra estante torta os livros caem no chão tem tanto livro aqui um copo de café que esfria enquanto me decido qual livro pego pra acompanhar e a música e a poltrona era só um café mas é tanta coisa pra fazer até se criar a atmosfera ideal quanto é que dura tomar isso aqui que já deve que eu já devo que.

sexta-feira, 20 de março de 2015

se eu pudesse escolher o lugar seria mulholland drive

A lanterna do carro é vermelha.
A luz do bandido.
A cor do coração.
Também são.
Mudando de assunto.
Se nós vamos morrer de frio aqui dentro, você poderia colocar essa fita pra gente escutar.
É melancólico, eu sei. Mas acho que esse cara é o novo Nick Drake.
Posso até estar exagerando, mas se não, você não escuta.
A gente poderia dividir o último gole desse uísque.
Tem certos medos que eu gosto de sentir.
Gosto de olhar para esses pinheiros na escuridão.
Gosto de ouvir o uivo que surge de dentro desses bosques.
E imaginar que alguma criatura nos observa de lá.
Acho que gosto de sentir esses medos porque no fundo sei que não vai ser nessa noite nessa estrada com você ao lado que vou morrer.
O que seria perfeito.
Mas.
Se eu pudesse escolher o lugar seria Mulholland Drive, por causa do filme, claro.

vento do outono

Anotei no meu caderno que partiria quando o outono chegasse.
Para onde for iria.
O Lada Laika. A jaqueta jeans com lã de carneiro. Tudo o que ela deixou comigo. Tudo o que eu usaria para me locomover.

O vento do outono vai me levar daqui.


Coloquei o caderno no porta-luvas e fui atrás de tudo o que é maior que eu.
A estrada o céu estrelado os eucaliptos as montanhas.
A voz de Bill Callahan o neon dos hotéis o rio as pedras.
Tomei café nas beiras das estradas e falei com estranhos e aprendi a ler mapas e dirigir no escuro.
Pra não dizer que não. Lembrei de você. Sentei sempre que pude no balcão dos bares. Lembra que você falava que quando se senta no balcão vive melhor o lugar?
Foi o que concluí.
Nesses dias. Levei, já disse, o caderno comigo, mas só escrevo agora. Nesse início de inverno na casa que pensei que abandonaria para sempre. Voltei para preparar essa xícara de chá com mel e limão que tomo enquanto

bússola

E durante esse mês. Esse início de mês. É. Eu faço pausas porque me cansa algo aqui. Aqui me cansa e a energia. Aquela força bruta a vontade de correr. De andar pra frente e nunca mais voltar. E foi durante esse início de mês que isso. Começou. Recomeçou. Na verdade isso que vai e volta e que eu não sei o nome e que às vezes chamo de inquietação. Que então percebo que me vejo em cima da hora. Em cima de um ponteiro. De uma bússola que aponta para o norte. Eu preciso de um norte. E foi aí. Nesse início de mês que é o mês de março. Acho que é a promessa do outono. Eu espero o outono. E vi que preciso decidir se pelo motivo de estar tão cansada. Daqui. Que devo. Se devo partir sozinha em busca dessa liberdade que eu penso ser o ápice. Quando estou cansada me vem essa certeza de que só vou descansar quando virar uma ilha. O que me prende. O que será – que me faz querer prender pra caminhar devagar. Caminhar em par. O que me faz às vezes, vezes tão raras que guardo em segredo, querer ser par. Mas me cansei nesse início de mês. Que pensei de novo. O que me falta é um par de remos. Não uma mão alheia. Um pedaço de corpo que esquenta e que fará minha mão suar. Penso que no outono será melhor. Penso que deveria congelar. Algo em mim não congela e me faz querer ficar. Quem sabe o coração.
A minha bússola é o meu coração.
Então acho que não.
Nunca vou chegar ao mar.
Sequer.
Ilha virar.

juro que por um momento

Ontem meu amigo estava vestindo uma camiseta com “Stranger than paradise” escrito. Daí falamos sobre como gostamos de Jim Jarmusch e falamos sobre ex-namorados. Juro que por um momento. Juro que por um momento não pensei na gente. Eu sempre dizia que parecíamos estar num filme dele. E até assistimos um deles no cinema. E gostamos daquela cena em que ele escuta a cantora sensual num bar e ela chega com um olhar terno e por trás dele apoia o queixo em seu pescoço. Gosto de imaginar essa cena de olhos fechados quando é possível. Sempre que lembro. Eu lembro também que na noite em que você partiu eu perguntei como veria aquele filme de novo sem pensar em.
Ainda me pergunto.
Sinto porém que eu soube a resposta antes mesmo de te perder.
Eu não vou esquecer.
Tem coisa que é uma coisa só. E eu gosto demais daquele filme. Que não era “Stranger than paradise” mas se eu pensar melhor. E o que nós éramos senão estranhos que decidiram por um breve momento, nem que durasse apenas um filme, criar algum tipo de paraíso eterno.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

ainda se lembram de charlie parker

e é isso. o sol bate e rebate nos carros e no meu rosto e nas caixas de frutas lá pelas dez e pouco da manhã porque agora eu aprendi a acordar cedo novamente. é. agora eu aprendi a tomar o meu café fora de casa antes de começar a escrever. até escrevo fora de casa, da minha mesa, da minha máquina, sem o gato e o rádio. o que tem sido bom para a ficção que eu penso fazer. e é. eu desço as escadas amareladas do prédio e caminho até o outro lado da esquina sempre com os olhos desprotegidos dos raios de luz porque já tenho usado os meu óculos graduados a todo momento e então ali, o toldo verde escuro produz sombra. tem dias que me acomodo do lado de fora, quando deixam algum jornal na mesa, não sempre. não assino mais jornal. tiro a mão esquerda do bolso e empurro a porta de madeira pesada. me sento voltado para um dos lados da mesa e estico as pernas e puxo as calças para cima fazendo com as as barras encurtem e minhas meias apareçam. virou mania. e você sabe, minha única vaidade são as meias. meias coloridas. gosto de deixar minhas meias à vista. comecei pedindo espresso, depois mudei pro café de coador, agora tenho tomado até com leite. tenho fumado menos também. minha barba continua a crescer e vejo que pelo menos nesse outono estou gostando de envelhecer. a velha arquitetura e o outono sempre combinaram e agora me vejo parte disso, um pouco. por aqui decoraram o meu nome. disseram que eu iria piorar que decidiria ficar duma vez em casa e contatar a vida via telefone.ainda não virei esse personagem. ainda vejo personagens fora desse mundo que. e outro dia até saí para ouvir um saxofonista que me convidou para um concerto depois de uma conversa sobre, ah você sabe. ainda se lembram de charlie parker e isso me faz. escrever.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

nada mais que um copo de uísque

fugir é quase que um dever. essa aproximação. quando a temperatura do corpo alheio eleva a do meu é um sinal de alerta. o sorrir demais. o falar demais. não sou, não quero.
penso até sou mau. e ontem te falei sobre aquele velho clichê que. esse incômodo pode ser, pode parecer, que estou diante do espelho quando me deparo com estes que pensam que dizem que fazem tudo de uma vez preenchendo cada espaço que não lhe pertence. já que quase os abomino. e penso ser o oposto. mas o incômodo me incomoda.
então sugiro sempre nada mais que um drinque.
nada mais que um copo de uísque e uma conversa em dose adulta.
nada de afeto ou pedra de gelo para amenizar fazer o trago durar.
fugir a ponto de negar.
só pra não ter sombra atrás de mim.
eu tento evitar.
faço sempre a barba antes para na manhã seguinte não ficar pro café.
só lavo o rosto e vou.

eu vou.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

parece que agora só consigo escrever naquele caderno amarelo

Antes que eu fique triste, escolhe um disco pra tocar.
Antes que você pegue no sono, deita comigo nesse tapete.
E traz o copo que eu deixei na mesa.
Acho que já estou vendo tudo girar.
Mas se eu fechar os olhos.
Essa semana eu tentei escrever um texto e não consegui.
Parece que agora só consigo escrever naquele caderno amarelo.
Eu vou tentar de novo.
Se conseguir, vou te mostrar.
Gosto do seu cabelo assim.
Você não devia cortar.
Qual o nome desse pianista?
Que horas você precisa acordar?
Eu gosto da sua boca que embora aberta não tem nada pra falar.
E gosto da sua mão.
E de onde ela está.
Mas se eu fechar os olhos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

que me cansou a falta

A sacada do bar estava com as portas fechadas. Chovia. Agora é proibido fumar. É. Eu quase que gostei da notícia. Ali só faria lembrar. O lado de fora bem que pode sufocar. Antes de tossir. Mudei de lugar. Se o passado é intocável eu espero que eles tenham perdido a chave. Tem coisas que só permanecem fechadas... assim. Melhor não arriscar. Mas a verdade é que janeiro trouxe algo que completou a falta. Janeiro trouxe algo que me cansou a falta. Então preenchi. Na mesa vazia coloquei um copo cheio e na cadeira à minha frente. É. Alguém novo para dividir os minutos do cigarro em outro lugar. Para abrir os meus ouvidos colocando um disco que eu não conheço para girar.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

nesse dia que interrompo

esse dia deixo durar doze horas já que vivo também naquele dia. dia que já não sei há quantas horas existem. qual dia é o dia que realmente existe. em que dia existo. existo no sono quando ele existe. por exemplo nesse dia que interrompo para estar em outro lugar. sem existir precisar.

mas a fuga também é um lugar.

e de qualquer maneira preciso colocar o despertador para tocar num volume em que eu possa escutar aonde estiver.

sonhando.

sete e pouco.
saio de todos os buracos escuros que encontro na viagem que é pensar
para ir trabalhar.

e se eu sentir frio ainda tenho aquele tricô vermelho.