sexta-feira, 20 de março de 2015

se eu pudesse escolher o lugar seria mulholland drive

A lanterna do carro é vermelha.
A luz do bandido.
A cor do coração.
Também são.
Mudando de assunto.
Se nós vamos morrer de frio aqui dentro, você poderia colocar essa fita pra gente escutar.
É melancólico, eu sei. Mas acho que esse cara é o novo Nick Drake.
Posso até estar exagerando, mas se não, você não escuta.
A gente poderia dividir o último gole desse uísque.
Tem certos medos que eu gosto de sentir.
Gosto de olhar para esses pinheiros na escuridão.
Gosto de ouvir o uivo que surge de dentro desses bosques.
E imaginar que alguma criatura nos observa de lá.
Acho que gosto de sentir esses medos porque no fundo sei que não vai ser nessa noite nessa estrada com você ao lado que vou morrer.
O que seria perfeito.
Mas.
Se eu pudesse escolher o lugar seria Mulholland Drive, por causa do filme, claro.

vento do outono

Anotei no meu caderno que partiria quando o outono chegasse.
Para onde for iria.
O Lada Laika. A jaqueta jeans com lã de carneiro. Tudo o que ela deixou comigo. Tudo o que eu usaria para me locomover.

O vento do outono vai me levar daqui.


Coloquei o caderno no porta-luvas e fui atrás de tudo o que é maior que eu.
A estrada o céu estrelado os eucaliptos as montanhas.
A voz de Bill Callahan o neon dos hotéis o rio as pedras.
Tomei café nas beiras das estradas e falei com estranhos e aprendi a ler mapas e dirigir no escuro.
Pra não dizer que não. Lembrei de você. Sentei sempre que pude no balcão dos bares. Lembra que você falava que quando se senta no balcão vive melhor o lugar?
Foi o que concluí.
Nesses dias. Levei, já disse, o caderno comigo, mas só escrevo agora. Nesse início de inverno na casa que pensei que abandonaria para sempre. Voltei para preparar essa xícara de chá com mel e limão que tomo enquanto

bússola

E durante esse mês. Esse início de mês. É. Eu faço pausas porque me cansa algo aqui. Aqui me cansa e a energia. Aquela força bruta a vontade de correr. De andar pra frente e nunca mais voltar. E foi durante esse início de mês que isso. Começou. Recomeçou. Na verdade isso que vai e volta e que eu não sei o nome e que às vezes chamo de inquietação. Que então percebo que me vejo em cima da hora. Em cima de um ponteiro. De uma bússola que aponta para o norte. Eu preciso de um norte. E foi aí. Nesse início de mês que é o mês de março. Acho que é a promessa do outono. Eu espero o outono. E vi que preciso decidir se pelo motivo de estar tão cansada. Daqui. Que devo. Se devo partir sozinha em busca dessa liberdade que eu penso ser o ápice. Quando estou cansada me vem essa certeza de que só vou descansar quando virar uma ilha. O que me prende. O que será – que me faz querer prender pra caminhar devagar. Caminhar em par. O que me faz às vezes, vezes tão raras que guardo em segredo, querer ser par. Mas me cansei nesse início de mês. Que pensei de novo. O que me falta é um par de remos. Não uma mão alheia. Um pedaço de corpo que esquenta e que fará minha mão suar. Penso que no outono será melhor. Penso que deveria congelar. Algo em mim não congela e me faz querer ficar. Quem sabe o coração.
A minha bússola é o meu coração.
Então acho que não.
Nunca vou chegar ao mar.
Sequer.
Ilha virar.

juro que por um momento

Ontem meu amigo estava vestindo uma camiseta com “Stranger than paradise” escrito. Daí falamos sobre como gostamos de Jim Jarmusch e falamos sobre ex-namorados. Juro que por um momento. Juro que por um momento não pensei na gente. Eu sempre dizia que parecíamos estar num filme dele. E até assistimos um deles no cinema. E gostamos daquela cena em que ele escuta a cantora sensual num bar e ela chega com um olhar terno e por trás dele apoia o queixo em seu pescoço. Gosto de imaginar essa cena de olhos fechados quando é possível. Sempre que lembro. Eu lembro também que na noite em que você partiu eu perguntei como veria aquele filme de novo sem pensar em.
Ainda me pergunto.
Sinto porém que eu soube a resposta antes mesmo de te perder.
Eu não vou esquecer.
Tem coisa que é uma coisa só. E eu gosto demais daquele filme. Que não era “Stranger than paradise” mas se eu pensar melhor. E o que nós éramos senão estranhos que decidiram por um breve momento, nem que durasse apenas um filme, criar algum tipo de paraíso eterno.