quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

filme sem título

fico próxima a janela
próxima o bastante pro vapor da respiração encontrar o vidro
que do outro lado encontra a água em estado líquido
as gotas batem e viram riscos diagonais
as gotas caem à deriva
e o céu transpõe seu cinza para os olhos de quem assiste
e a cidade molhada parece um daqueles filmes gravados na década de 1940
em que a tempestade não apagava o neon nem o cigarro
sequer borrava os roteiros datilografados
a vida é frágil fora de um estúdio em hollywood
a água não

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

mas mesmo assim chá quente no verão

esvaziou tantas xícaras de chá e não preencheu uma folha sequer.
queria ser escritor
dizia para si escritor
e tinha um punhado de fotografias numa caixa hoje empoeirada que via e revia quando lhe faltava.
mas parece que.
não deve ser bem assim o início de.
o início de um primeiro parágrafo, porém, tornara-se a missão de sua vida.
vida que hoje lhe propunha ainda alguns tormentos.
mas esses conflitos que se tratam no neurologista e, quem sabe adiante, provavelmente devem ser menos instigantes pra quem lê, dos que os tormentos de um coração partido.
as pessoas gostam de repetição.
mas a repetição nem sempre é mecânica.
a lâmpada da luminária esquentava demais, lhe causando náuseas, e os sagrados momentos de escrita, cada vez mais lhe causavam aversão.
mas mesmo assim chá quente no verão.
abriu caminho
limpou espaço
começou de novo
mas esse novo mar
ainda não tem nome
e esse navegar é mais uma vez
adentro

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

quem anda pra frente

engoliu o choro
mas abriu aquele livro e a lembrança explodiu sob o peito costurado
nem sabe se é dor
se é querer de volta
é só que
o livro
e ainda no domingo
e já faz tanto tempo que
não caía
nem sabe se é dor
o que se sente ao se machucar
só tropeça quem anda pra frente
se é que se precisa
de um bom sinal